sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Lavoura de muitas covas, tão cobiçada?

"A colheita é geral, o capinar é sozinho"
João Guimarães Rosa


Segundo Eisenstein, o primeiro movimento vai da imagem ao pensamento, do preceito ao conceito. A imagem-movimento (célula) é essencialmente múltipla e divisível, conforme os objetos, que são suas partes integrantes e entre os quais ela se estabelece. É exato esse movimento que se introduz quando se visualiza a região amazônica. Sim falo dela como de uma região pela consciência que tenho das partes que a constituem. Nascer e crescer no estado do Pará, o segundo maior em extensão territorial do Brasil, pode ser um privilégio ou um sofrimento, no meu caso, encaro como responsabilidade e oportunidade para falar de afeto, troca, coletividade, intensidade, experimentação, desterritorialização.

Foi esse exercício de sair, viajar, deixar o território que me possibilitou as armas visuais e conceituais para reforçar a amizade em detrimento da fraternidade pelo Pará e em extensão pela Amazônia. Pois, esse modo de relacionamento inventa a alteridade e se distancia do fraterno que, por sua vez, implica num processo de homogeneização, suprimindo as diferenças e não permitindo a fusão antropofágica das singularidades – revela-se uma força exterminadora do indivíduo. E nesse ponto empreenderemos curso para falar de algo pouco discutido quando se fala na Amazônia. O povo, a população – considerada apenas como densidade demográfica. O que pensa essa parte da paisagem sobre tanta singularidade?

Viver em um território alvo de cobiça, as mais variadas, não é algo acalentador. Ser considerado responsável por uma das maiores riquezas de biodiversidade da terra, não é algo corriqueiro. Viver dentro do pulmão, fígado, estômago e intestino dos outros é algo que sufoca. Possuir uma das maiores bacias hidrográficas do planeta – água doce, potável, pode ser asfixiante, matar de sede. Ser acusado pelo mundo de grilagem, pistolagem, biopirataria e os cambaus, o tempo todo é desafiador. Ser visto como alguém incapaz de cuidar do próprio quintal é amesquinhador.

Esse efeito dinâmico das imagens que recorrem desse território atravessa o mundo, gera polêmicas, pelo simples fato que, além de a Amazônia ser responsável em parte pelo “equilíbrio” da terra ela, também é um enorme “celeiro”, uma quase inesgotável fonte de recursos naturais, e quando o que está em jogo é o metal – ouro, ferro, manganês, agora industrializados pelas inúmeras siderúrgicas que povoam Marabá/PA, o que menos importa são os laços de amizade. Foi assim quando o então governador do Pará, Almir Gabriel, mandou desobstruir a rodovia PA-150, levando para o local 155 policiais militares – nenhum possuía identificação durante o ato, o que resultou na morte de 19 sem terra. Ora, sem terra?

De quem é a Terra? No Pará a terra não é definitivamente de quem mora nela! Ela é do latifúndio. Talvez soe anacrônico esse adjetivo, mas é assim. No Pará a terra é de quem tem bala, não na agulha, mas no cano do três oitão, como dizem por lá. No Pará a terra é da União – devoluta. Quando ouço esse termo meus ouvidos voltam-se aos anos oitenta: o Pará era área de segurança nacional e a palavra “posseiro” era proibida, falada quase num sussurro. E então a imagem que a expressão DEVOLUTA sucitava, é exatamente a que o trocadilho aponta sem nenhuma conotação poética – “devo o luto”. O luto de tantas mulheres, mães, filhas, esposas, viúvas. E ainda: no Pará hoje a terra é do gado, da soja, da exploração da madeira – não se deixem enganar pelos números de desmatamento reduzido, recém publicado. O que se saberá a partir desses números (tantas vezes maquiados) sobre os trabalhadores do transporte da madeira? E este é apenas um dos inúmeros itens da ilegalidade que o Estado promove na Amazônia. Esses homens cortam centenas de quilômetros floresta adentro para recolher toras de madeira. E eles, o que sabem do potencial de biomassa e do seqüestro de carbono existente ali? E ainda: da quantidade de fármacos existentes nas tenras folhas das árvores e nos arbustos amazônicos? Números imprecisos e anônimos que mais embotam do que elucidam e que a floresta engole e regurgita.

No Pará o IDH é pelo menos 20% abaixo do estabelecido pelos organismos internacionais. O índice de analfabetismo é singular, a criminalidade altíssima. E o fosso que separa riqueza e pobreza é mais fundo. As estradas tantas vezes asfaltadas – no papel e nos orçamentos, não levam às belas cidades, ao paraíso que se difunde. Levam, ao contrário, à mais descaso, abandono, falência pública, pobreza. Isso tudo não é como um filme de Godard, Salve-se quem puder (a vida), quando se aborda a visão dos agonizantes (“não estou morto, pois minha vida não passou ante meus olhos”)? Nesse caso seria preciso seguir a direção contrária. Dilatar a imagem em vez de contrair. Descrer dos números e escutar, escutar as vozes de uma outra configuração que os povos da floresta propõem ao mundo: o uso coletivo, ecológico, afetivo, imanente, ativo das riquezas da Amazônia.

Juliete Oliveira
Salgueiro-PE

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Destruição dos rios: ameaça é crescente


Por Lúcio Flávio Pinto*

Desde as primeiras letras aprendemos que a bacia do rio Amazonas é a maior do mundo. Ninguém nunca duvidou que ele era o mais caudaloso do planeta, mas se questionava essa primazia quanto ao seu comprimento. Hoje a controvérsia está esclarecida: com 6.937 quilômetros de extensão, o Amazonas supera em 140 quilômetros o Nilo, que perdeu essa liderança multissecular.

Qualquer número em relação ao "rio-mar" (ou o "mar doce" dos espanhóis, os primeiros europeus a navegá-lo) é grandioso. Ele lança, em média, 170 milhões de litros de água por segundo no Oceano Atlântico. Suas águas barrentas podem avançar 100 quilômetros além da barreira de águas salgadas e projetar seus sedimentos em suspensão no rumo norte, até o litoral da Flórida, nos Estados Unidos. São milhões de toneladas de nutrientes, arrastados desde a cordilheira dos Andes, onde nasce o grande rio, e engrossados por seus afluentes, que também se posicionam entre os maiores cursos d’água que existem.

Essas grandezas têm servido de inspiração para o ufanismo nacional, mas não para tratar melhor os nossos gigantes aquáticos. Nenhum brasileiro -ou mesmo o nativo- dá ao Amazonas a importância que os egípcios conferem ao Nilo. O Egito não existiria sem a faina incansável do seu grande rio, a fertilizar suas margens, cercadas por desertos hostis, e civilizar o país. Por isso, é considerado sagrado.

Os brasileiros parecem acreditar que, por ser monumental, abrangendo 7 milhões de quilômetros quadrados do continente sul-americano (quase dois terços em território brasileiro), a bacia amazônica foi blindada pela mãe natureza contra as hostilidades do homem. Já está na hora de se pôr fim a essa ilusão, acabando com a insensibilidade geral, que se alimenta do desconhecimento e da desinformação. O Amazonas está sob ameaça.

Não uma, mas várias. Um dos capítulos mais recentes está sendo travado diante da maior cidade da Amazônia, Manaus, a capital do Estado do Amazonas, com seus 1,7 milhão de habitantes (2 milhões com as duas cidades vizinhas). No dia 5, o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) decretou o tombamento do encontro das águas do Amazonas com o Negro, um dos seus principais tributários da margem esquerda.

O desavisado pode até achar que o ato é de significado museológico, para efeito acadêmico. O processo do tombamento, porém, se arrastou durante dois anos. Deveria ser simples: a área de 30 quilômetros quadrados, o polígono de terra e água onde ocorre a junção dos dois enormes rios, é cenário para o maior de todos se encontrar com o maior rio de águas negras do mundo. Na margem direita, o barrento Solimões pressiona o rio ao lado, que ganhou seu nome pela inusitada cor das suas águas, num entrevero que pode se estender por 10 quilômetros lineares nas duas direções.

É um encontro ciclópico. A vazão do Solimões nesse ponto (onde justamente muda pela última vez de nome, passando a ser Amazonas) é de 135 milhões de litros de água por segundo. A do Negro, que chega ao fim do seu percurso de 1.700 quilômetros, a partir da Venezuela, é de 50 milhões de litros. Encorpado, o Amazonas segue em frente até a foz, dois mil quilômetros abaixo. Não sem antes oferecer o espetáculo das duas cores líquidas em paralelo ou em fusão tumultuada, para a admiração ou o espanto de uma crescente legião de turistas.

O problema é que no ponto de encontro dos rios está Manaus, com 60% da população e 90% da riqueza de todo Estado do Amazonas, o maior do Brasil, com 20% do território nacional. Desde quase meio século atrás, Manaus deixou de ser o produto do Amazonas para ser o efeito da Zona Franca, um entreposto comercial e um núcleo industrial que só se tornaram possíveis pela renúncia da União a recolher o imposto sobre a importação das empresas instaladas na remota paragem.

Hoje, Manaus é a origem do maior fluxo de contêineres do país. Motocicletas, computadores, geladeiras e muitos outros produtos são mandados para o sul do país, principalmente São Paulo, e espalhados para outros destinos. O velho porto flutuante, que os ingleses construíram no início do século XX para atender a exportação de borracha (que chegou a ser responsável por 40% do comércio exterior brasileiro), não serve para essa demanda nova.

A pressão é tão forte que alguns terminais privados, legais ou não, surgiram na orla da cidade. O maior deles, o Porto Chibatão, foi parcialmente arrastado, no mês passado, pelas águas do Negro, a apenas três quilômetros do seu encontro com o Amazonas, com mortes e a perda de diversos contêineres. Qualquer ribeirinho sabia que o local era contra-indicado para o fluxo de carga que o precário terminal movimentava.

Um novo, muito maior e mais adequado, está sendo projetado para uma área de 100 mil metros quadrados, na qual poderão ser estocados 250 mil contêineres. Antes desse mega-terminal, porém, uma subsidiária da mineradora Vale (o nome privatizado da Companhia Vale do Rio Doce, quando estatal) começou a construir seu próprio porto, com investimento de 220 milhões de reais. Nele deverá operar seu novo navio cargueiro, com capacidade para 1.500 contêineres, e outros cinco já encomendados, por algo como meio bilhão de reais, multiplicando sua capacidade de transporte.

Esses números pareciam muito mais importantes do que a localização do porto, na província paleontológica das Lages, próximo de uma tomada de água para 300 mil habitantes da cidade e de um lago, o último do rio Negro, importante para milhares de moradores de um bairro que se formou em torno dele.

O processo que levou ao desmoronamento do Porto Chibatão seguiria sua lógica malsã se não tivesse surgido a iniciativa de tombar o encontro das águas. Ninguém se aventura a dizer-se contra o tombamento, mas ele provocou uma batalha judicial que chegou a Brasília, com vitórias e derrotas, protelações e pressões, até que, no dia 5, finalmente o Iphan assumiu a tutela sobre o encontro das águas.

Qualquer novo projeto que a partir de agora se fixe na área do polígono terá de ser submetido ao instituto, além de obter a licença ambiental. Certamente haverá quem se indigne com o fato: o raciocínio automático é de que a razão (ou anti-razão) econômica prevaleça sobre qualquer outro tipo de consideração - e sempre com vantagens para o investidor.

A decisão do Iphan, que ainda vai sofrer questionamento judicial, não bloqueia a evolução dos empreendimentos produtivos na região, mas talvez ajude o país a se dar conta de que destruindo os recursos naturais, em especial aqueles que representam uma grandeza única, é a Amazônia que estão destruindo. Substituem a galinha dos ovos de ouro por um cavalo de Tróia. Na mitologia ou na realidade, sabemos qual será o desfecho.

*Jornalista paraense. Publica o Jornal Pessoal (JP)

(Envolverde/Adital)

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Um comediante mid


Um comediante midiático



As máquinas desejantes são máquinas binárias, de regra binária ou regime associativo; uma máquina está sempre ligada a outra. A síntese produtiva, a produção de produção, tem uma forma conectiva: «El», «e depois»... É que há sempre uma máquina produtora de um fluxo e uma outra que se lhe une, realizando um corte, uma extração de fluxos (o seio/a boca). (Gilles Deleuze e Félix Guattari, O anti-édipo - capitalismo e esquizofrenia).

Lendo o texto de Ladislau Dowbor, publicado na revista eletrônica “Envolverde” a 25/10/2010, fui tocada por uma irresistível vontade de me enredar nas impressões expostas no texto e por uma daquelas coincidências impagáveis, havia tecido o seguinte comentário sobre a figura que abre o texto de Ladislau: Arnaldo Jabor. Discorri em torno da aparente unanimidade que o jornalista desfruta entre os pseudo-mídiaticos informados, aqueles que utilizam da ferramenta mais democrática que temos em mão (não é do voto que estou falando, mas de uma verdadeira máquina de guerra) – para se tornarem cada vez menos informados, ou deformados.



Arnaldo Jabor sempre a serviço do capital com um discurso disfarçado de dissonante, algo que leva ao riso, à ridicularização de temas muitas vezes relevantes, bloqueando com isso o debate, a reverberação e mobilização social em torno de temas caros à democracia. Contudo, o que poderia dizer Jabor desse “seio/boca” pensado por Deleuze/Guattari? E quem melhor alimentou as máquinas desejantes produtoras de fluxos? Junto com a resposta quase automática nós podemos pensar o Brasil como um enorme seio, belo e provocador, que deverá nos alimentar (não só aos bem nascidos, as tantas elites deste país) de todas as formas: doméstica, intelectual/científica, cultural, afetiva, artística, para o jogo, o prazer o deleite, a felicidade.


Não tivemos em muitos anos de estado democrático algo nem perto do que acontece hoje, em que a “palavra liberdade foi expulsa do pântano enganoso das bocas”, para se transformar em “algo transparente e vivo como o fogo, ou um rio”. E o que nos fornece essa liberdade? E aí penso não apenas na liberdade verborrágica, mas em algo ainda mais correlato, como a garantia do direito de ir e vir, o direito de ter acesso, o direito de trabalhar e não apenas trabalhar como um escravo da vontade e do poder do outro, mas trabalhar sob um sistema que garanta direitos fundamentais, como auxílio doença, creche, transporte etc.


Querendo ou não, foi sob esse governo que tivemos a aprovação da Lei Maria da Penha, a instituição da Secretaria Nacional de Igualdade Racial, a expansão dos auxílios aos estudantes, as Conferências de meio ambiente, de cultura, de segurança pública, de saúde, de educação e até do livro e biblioteca. Nesse governo de Luis Inácio Lula da Silva nos sentimos livres, debatemos, pensamos, tivemos apoio para criar. Aconteceu de termos ministros negro, acreano e, claro, ficamos sujeitos aos cortes de fluxos, aos enganos, à corrupção – prática defendida e aceita de forma corriqueira pela justiça, já que para crimes de colarinho branco não há punição. Para a sociedade resta se virar e compreender que a síntese produtiva se faz também dos desacertos e dos atos falhos. É o que teme Jabor?


A ele o espaço midiático para singelas teorizações. Cada um faz o que pode, embora se possa reparar de soslaio quem o contrata e a quem ele defende. Agora, sem essa de tentar colocar o país no divã, arranjar a todos essa culpa: ter votado no Lula. Ser o pai desrespeitado a nos passar um carão. E nos provar, num tortuoso comentário, que Lula é apenas um caso de dissidência das políticas do PSDB, com as quais aliciou a todos nós tanto quanto Édipo ainda é capaz de levar no papo as virgens sonhadoras. Lula chegou a 82% de aceitação isto graças aos serviços de FHC – quais mesmo estes serviços e a quem ele prestou? O que se sabe, ou melhor, o que a sociedade não quer mais rever (e que talvez tenha reduzido de vez nos créditos o nome desse senhor a uma sigla, enquanto Lula acrescentou mais este a seu emblemático nome) são os velhos capítulos de um dramalhão político, já que os avanços sociais protagonizados pelo governo Lula não admitem levantar audiência com reprises, quando muito, resgatar incautos saudosistas ou desatentos, que podem ver em Serra, dado a um tal efeito técnico, o personagem de uma boa anedota. Essa que Jabor não cessa de contar.


Juliete Oliveira

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

DAS COISAS QUE SE ARREMESSAM NOS POLÍTICOS

Esta é a fase do espetáculo em que o público, não aguentando mais o ator, começa a arremessar toda sorte de objetos, por vezes até dejetos, em cima dele. Significa que não há reviravoltas possíveis, nem atos de heroísmo nem de pura covardia, nada resgatará o espetáculo de seu final pífio. O Político, talvez até mais do que o artista, adora palcos, e também tribunas, palanques, plataformas. Por mais desagradável que seja o cenário, por mais grotesco que seja o enredo, aí ele encena o melhor dos mundos. Apenas a alguns centímetros do chão, ele se acredita numa torre de marfim. Refugiado da carência, fraqueza, impotência diante da vida. Sobem com ele aí toda burocracia e jurisdição. Juntos falam melhor do progresso social e econômico que promovem. Dos grandes avanços da Indústria e do Mercado. Das notáveis contribuições do Partido na grande cidade que governam. Daí para o resto do país, sobre o palco, anuncia-se a melhor das escolas, não porque indivíduos mais educados tornam-se mais produtivos, mas porque o público “sonha” com essa escola. Ela vai bater á sua porta todas as manhãs e todas as noites que o filho sair para estudar sem saber se ele voltará vivo. Todos humilhados aí nesse pesadelo em que também é incerto toda sorte de direito: saúde, emprego, comida. Infelizmente o “respeitável” público não tem como passar sem isso. Daí que todas essas coisas não deixam de ser implacavelmente anunciadas, recapituladas, de punhos erguidos, como maravilhas de um mundo iminente, com a condição, é verdade, de serem mais uma vez repetidas amanhã, como forma de reativar os ânimos e dissuadir os pessimistas. Vida e bem-estar social só se opõem do ponto de vista dos políticos. Para eles se está sempre nas etapas antecedentes do desenvolvimento. O melhor dos mundos nunca é efetivo. Se crianças ainda morrem de fome no Norte e Nordeste, se o tráfico de drogas domina cidades inteiras, se não há médico, remédio, salário, vergonha na cara – eles brandem tudo isso, porque tudo está prestes a melhorar... Enquanto nada acontece, eles se distraem com o grande público. Riem da corrupção, da ineficiência, dos altos impostos. Pelas mesmas razões estúpidas a que sempre recorrem, conclamam o público a votar. Tudo a um passo de acontecer. A escola, a saúde, o emprego, a comida. Só que por um descuido, uma falha da produção do espetáculo, ou talvez animado pelas pesquisas ou pelas benesses delirantes do cargo que disputa, ou ainda, por amor ao bom público, um deles desce do palco e, longe dos holofotes, com passos que se revelam trôpegos, se põe a andar entre as pessoas; e ali, de súbito, tudo começa a dar errado: a tentativa de proximidade não surte efeito, os gestos resultam falsos, e todos começam a perceber os signos de um triste desenlace. Que o enredo é falho, a fala é de um clown e a maquiagem esconde a face de um ator ruim. O público se depara com um espetáculo que já deu, se esgotou, saturou a todos. A esse ator só resta fugir, partir pra outra. É a fase do espetáculo em que o público começa a arremessar toda sorte de objetos... Assunto encerrado, cortina!


Ney Ferraz Paiva
Salgueiro - PE 22 de outubro 2010

sábado, 16 de outubro de 2010

Se os homens engravidassem, o aborto seria um sacramento. (Florynce Kennedy, advogada e feminista americana, revista Ms., Março 1973).
Ao ser questionada por um amigo português sobre as eleições no Brasil, no primeiro dia após o primeiro turno, disse-lhe que a minha candidata infelizmente não conseguiu votos suficientes que a levassem ao segundo turno, ele por sua vez, perguntou-me qual era, pois, a minha opção para o segundo turno. Respondi que a outra candidata que permanecia na disputa, por duas razões: primeiro por ser mulher e segundo, por ser a continuidade do governo atual. Ele se disse surpreso, por eu tão naturalmente verbalizar isso. Disse-me que em Portugal a questão da violência contra a mulher é uma rotina, é colocada como algo aceito e pouco ou quase nada discutido.


Temos no Brasil uma equivalência entre homens e mulheres, e em alguns casos uma superioridade de números em relação à mulher: já temos hoje, um número maior para elas nas universidades, no ensino médio, a ocupar algumas áreas do mercado de trabalho como é o caso da educação, e ainda, em alguns estados e municípios o número de eleitores dividido por gênero, o maior é para o sexo feminino.


Em compensação, ou melhor, operando na contramão temos: Em dez anos, dez mulheres foram assassinadas por dia no Brasil, média que fica acima do padrão internacional. A motivação geralmente é passional. Estes são alguns dos resultados do estudo intitulado Mapa da Violência no Brasil 2010, realizado pelo Instituto Sangari, com base no banco de dados do Sistema Único de Saúde (DataSUS).


Esses não são os únicos números a ilustrar o mapa da barbárie no Brasil. Há ainda uma considerável perda de vidas femininas por razões outras, como é o caso do aborto, que virou a vedete das campanhas eleitorais, tanto da situação, quanto da oposição. Ora vejamos uma questão que diz respeito unicamente à mulher e o seu corpo é colocada na berlinda como algo responsável por decidir a vida da nação. O que está implicado nisto são as condições dada à mulher para que ela tome essa decisão, cabe à gestão pública garantir condições a ela para que no caso de decidir por levar a gravidez ou não à diante, o faça com segurança.


Até que ponto é possível se fazer uma leitura de seriedade diante destes fatos? Os nobres candidatados perdem uma oportunidade impar de mostrar inteligência, conhecimento e de se solidificar como alguém sério e realmente comprometido com a gestão pública, entornam o caldo ao se envolverem com questões religiosas e de cunho machista, nesse caso nenhum dos dois estão defendendo as mulheres, não estão pensando em nenhum momento na segurança e bem estar do grupo, estão apenas se aliando ao que existe de mais atrasado e preconceituoso nesse país.


Luta-se hoje pelas mulheres no poder político, nos lugares de tomada de decisão por ser necessário usufruir de poder para mudar o que está em desequilíbrio, ou tão só porque as mulheres existem e têm o direito de lá estar. Com os homens, em paridade. A democracia paritária parte desta assunção. Quem aí viu algum dos candidatos lembrarem os números da violência contra a mulher? Ou ainda recordar, mesmo que a título de lembrança que estamos completando um século de luta pelos direitos femininos?


“Eu tô grávida / Grávida de um beija-flor / Grávida de terra / De um liquidificador / E vou parir / Um terremoto, uma bomba, uma cor / Uma locomotiva a vapor / Um corredor... “ (Analdo Antunes).


Juliete Oliveira
imagem: Francesca Woodman
Salgueiro/PE

sábado, 18 de setembro de 2010

A vida nos livros

(de uma conversa com Kafka, Borges, Deleuze, Guattari)

                                                                                                                  
  Ao Lúcio Flávio Pinto


Os caminhos que encontro na página busco preenchê-los polifonicamente com Borges, que em nossa última conversa confessou: “certa vez planejei um exame dos precursores de Kafka. A princípio, considerei tão singular quanto à fênix dos elogios retóricos; depois de alguma intimidade, pensei reconhecer sua voz, ou seus hábitos, em textos de diversas literaturas e de diversas épocas”.

Assim penso reconhecer as diversas vozes dos meus pares, assombra-me, no entanto, que estas não cheguem aos livros. Em uma intensidade movediça a Odisséia registra que “os deuses tecem desgraças para que às futuras gerações não falte o que cantar”. Mallarmé trinta séculos depois concebe algo parecido para justificar a estatística dos males: o mundo existe para chegar aos livros.

Tudo isso tem a ver com o diálogo que se persegue aqui, para aquarelar uma sociedade que aviltou todas as propriedades e todos os valores: seus nomes, suas casas, suas famílias, origens natalinas e finalmente as suas crenças, algo como uma bastardia voluntária, não só desprezível, mas, muito além de qualquer justificativa e sempre, absolutamente sem chance de redenção. Nenhuma poesia a poderá isentar.

O que providenciamos agora em matéria de sociedade é paradoxalmente contrário à vida, um jogo infame das identidades e das semelhanças, disfarçado em discurso protecionista. Há muito rompemos qualquer parentesco com as coisas.

A despeito de uma existência pautada no global temos uma visão reduzida das coisas, inclusive da nossa bio-região, que seria nossa bandeira de lugar, nosso chão, em termos dos elementos naturais que em última instância nos sustenta, seja lá onde quer que estejamos. Nessa mesma conversa com Borges, após um charuto, ele revelou “que desde 1925, não há publicista que não opine que o fato inevitável e trivial de ter nascido num determinado país e de pertencer a uma determinada raça (ou uma boa mistura de raças) não seja um privilégio e um singular talismã.” Salutar meu caro Borges! Toda esfigênica questão ambiental padece desse sentimento de pertencimento territorial, regionalista em uma fórmula que, no entanto, sutilmente a deprecia e desvirtua.

O mais poderoso slogan das campanhas de apelo à proteção/conservação ambiental prefigura, inclusive, na Lei regimental e em espetacular antagonismo tem a ver com o início dessa conversa: “preservar para as futuras gerações”, em uma perversa previsão. A questão está esgotada de discursos. Prevalece nesta a costura interna, sombria. O que está na sombra é difícil de matar! Quem escreve porque pode escrever – não tem o Poder como seu adversário, nada sabe disso. Toma de assombro, assalta a opinião pública e apresenta página após página um texto pronto em que consta apenas uma versão dos fatos e claro buscando sempre a garantia da lei. É Lei, e pronto!

Borges, pergunto agora usando Deleuze, será que as pessoas criam, tiram de si suas idéias? Quando tentam a revolução, são loucos que querem acabar com a velha maneira de ver o mundo, uma subjetividade que pairava por sobre as suas cabeças e que os produzia, e que os tornava tão submissos a ideais que desde muito causam morte e mais morte… Acreditava-se em um socialismo sim, alguns mesmo se intitulavam de “Anarcos-desejantes”; os rótulos, sempre um aqui, ali. E Guattari completava: “Não conseguimos a revolução, mas ela está em curso, de outra maneira”.

O que será então que nos acontece? Que faz com que até mesmo os expoentes da política no Brasil sejam Senhores e Senhoras que não têm nenhuma compreensão do papel das pequenas máquinas de guerra? Desejo, Beleza, Alegria, Companheirismo? Que não têm a menor idéia de que esse conjunto é uma grande máquina de produção de subjetividades, que trabalha com conceitos muito diversos dos que estão habituados: o espírito de coletividade, a organização horizontal, a autogestão, conceitos de extrema potência para uma transformação social. Diferente de ter hectares e hectares com um único solitário proprietário de algo que poderá ser um deserto, logo mais, próximo a outros desertos. Podemos dizer que as pequenas máquinas fazem uma guerrilha subjetiva, combatendo a subjetividade do deserto particular que paira sobre os nossos pés. Nesse momento eu consigo entender o que é subjetividade, me parece que é toda uma forma de pensar e viver que aprendemos desde os nossos primeiros passos no mundo. E sobre as máquinas… tudo é máquina, Borges!
Ao que Borges retruca: “já somos o esquecimento que seremos.
A poeira elementar que nos ignora”. Até mesmo quem acha que é maior que todos, ou que tem importância, ou que chegou primeiro. E que por isso se encastelou no seu lucro e na sua loucura de Poder. Poeira. Deserto. Ainda este passará.

Salgueiro/PE, 18 de setembro de 2010

Juliete Oliveira
Imagem: Louise Bourgeois

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Abissal
O Estado do Pará reúne em seu território grandezas excludentes. Uma das maiores riquezas do mundo em minério e, por fazer parte da Amazônia, ainda a espantosa diversidade biológica, e possivelmente a mais bela capital da região e um acervo histórico áureo. Na outra vertente, entre calmaria e indiferença, maior índice de concentração de renda, analfabetismo crescente, pobreza vertiginosa e criminalidade, vergonhosos números de prostituição infantil, tudo perfazendo uma projeção de futuro digna dos cenários mais sórdidos da terra.

O discípulo de Parmênides, Zenão, demonstra – em um de seus diálogos – que se um “múltiplo” existisse, ele teria de ser constituído de infinitas pequenezas, o que, por consequência, resultaria em um extremamente grande, pois consistiria em infinitas pequenezas. Assim também se convertem os números do Pará. O total de meninas/meninos entregues ao universo numérico da estatística da prostituição e marginalidade é composto por infinitas pequenezas cotidianas, adquiridas via a sucessão histórica de abandono e descaso de um estado omisso e que promove a morte em lugar da vida. Sartre em sua incomensurável clareza de visão argumentou algo que se tornou, já até, meio vulgar: “a pior coisa do mundo é nos acostumarmos a ele”.

É esse o grande feito dos meios de comunicação de “massa” para o povo brasileiro, fazer com que nos acostumemos com o mundo. Pode-lhes soar lugar comum argumentar isso, agora. Contudo, somos incitados pela recente transmissão do pretensioso “Jornal Nacional”, transmitido direto da Cidade de Jacundá, no Estado do Pará. O que lhes pareceu aquilo? Será que essa iniciativa vai render mais um prêmio jornalístico à mega emissora de televisão? Quem de nós se perguntou quais são os reais objetivos da rede com a sua marcopoliana viagem pelo país que eles laconicamente dizem não conhecer?

Alguns de nós, até se perguntaram, sei. Mas, quantos de nós em nossa pequenez fomos capazes de usar os números apresentados ali, para algo que não seja escrever um texto para um blog?

O múltiplo pensado por Parmênides até existe, contudo é uma diversidade dantesca, feia, aterrorizante que empurra a juventude, sobretudo a do sul do Pará, para o desperdício de sua potência e energia. A vida como condutora dos prazeres, micropolíticas, cartografias desejantes, em que a ordem e o mesmo do gênero e da identidade, pensados por Felix Guattari, é um processo suspenso, delegado ao improvável. Cada vez mais e ad infinitun inalcançável pelos “cidadãos” de Jacundá. As meninas que hoje emprestam sua tenra carne ao saciamento do prazer do outro, por alguns trocados, ou prato de comida, serão, logo mais, mães a não ter o que deixar a seus filhos a não ser a trágica experiência e as falhas de um Édipo familiar que teima em passar bem.
E em face do que não podemos “sozinhos” solucionar, caímos no conformismo e lançamos tudo na conta do destino. A Rede Globo agindo como consciência e última fronteira das nossas tristezas. Até quando a audiência se multiplicará em um fracasso mais profundo? E do fracasso aparente fazer dar um passo à frente?

Juliete Oliveira

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Rondônia e a dialética das queimadas - Por Professor Nazareno

No início deste ano, quando eu ainda escrevia artigos periodicamente para a mídia, um jornal italiano publicou uma reportagem em que afirmava que o Estado de Rondônia, no noroeste do Brasil, era um lugar pouco recomendado para se visitar. As queimadas nas florestas locais tornavam este lugar "um verdadeiro inferno na terra". A publicação ainda informava que não era uma lista oficial, mas sim, uma lista de situações de emergência global e onde vivem populações em condições precárias e com baixíssima qualidade de vida. A chiadeira foi geral. Comentários preconceituosos e xenófobos inundaram os sites locais. Pessoas se dizendo filhos da terra, com arroubos cívicos, nacionalistas e patrióticos, puseram logo em xeque a veracidade da matéria. Infelizmente, se os italianos vierem agora a Porto Velho apenas constatarão o óbvio.



Porém não bastou muito tempo para que as previsões e denúncias contidas naquela matéria, verídicas ou não, fizessem parte da mais absoluta verdade. De nada adianta mandar os incomodados saírem deste Estado. De nada adiantará expulsar os que falam mal daqui. A realidade está aí para qualquer um ver. A fumaceira de dimensões apocalípticas pode inviabilizar o funcionamento deste Estado e de regiões vizinhas. O aeroporto local é fechado todo dia, as aulas estão sendo suspensas. Atividades rotineiras são adiadas. Pouco adianta também dizer que o problema não é apenas local. Dizer que o Primeiro Mundo devastou suas florestas em nada vai contribuir para amenizar o nosso problema, o nosso sofrimento. Então, por que só copiamos os maus exemplos deles? A delirante tese de internacionalização da Amazônia pode ganhar força diante disto.


"Quando nosso céu se faz moldura. Para engalanar a natureza. Azul, nosso céu é sempre azul. Que Deus o mantenha sem rival. Cristalino sempre puro.E o conserve sempre assim", diz mentirosamente o Hino Céus de Rondônia. Deus, não conserve este céu sempre assim, podemos não suportar por mais muito tempo. Ou então devemos trocar a letra deste hino para a versão que a Banda Odisséia propôs recentemente numa paródia: "Azul, poderia ser azul. Em vez, tudo cinza, tudo igual. Nosso rio só tem mercúrio. Amazônia é capim". Nossos rios, nossas matas, tudo em fim mesmo. Por isso, senhores autoridades responsáveis pelo meio ambiente, peçam demissão de seus cargos, pelo amor de Deus. Os senhores falharam, admitam. Caiam fora. Não há desculpas. Da Ministra do Meio Ambiente aos secretários municipais todos negligenciaram ou não foram competentes para prever o óbvio. Qualquer idiota sabia da existência da estiagem.


A baixa umidade relativa do ar nesta época, fato previsto todos os anos, associada à inoperância e à incompetência do Estado brasileiro que com seus órgãos de defesa da natureza pouco ou nada fazem, a não ser aumentar o empreguismo estatal, e contando com a irresponsabilidade dos grandes pecuaristas e pequenos incendiários urbanos, todos produzem a receita ideal para transformar esta região no verdadeiro inferno na terra. Senhores candidatos, parem de usar o programa eleitoral gratuito como coluna social. Precisamos de propostas concretas e mais sérias para enfrentar este problema que é de todos nós. Um povo que produz bois-bumbás, arraial Flor do Maracujá, carnaval fora de época, passeatas gays, pontes, hidrelétricas e viadutos precisa também se unir para melhorar a sua própria qualidade de vida. Cobremos então soluções de nossas autoridades. Será que perdemos a capacidade de nos indignar?


Nestas horas de agonia, fumaça, poeira e pouco ar puro para se respirar, a população que paga os altos impostos e está sofrendo as conseqüências de mais esta grande catástrofe ambiental na Amazônia devia se mobilizar e perguntar: cadê o Estado brasileiro? Qual o porquê de tanta ineficiência? Cadê a Justiça em suas várias instâncias? Onde estão as Forças Armadas? Por que o Ministério Público parece estar fazendo vistas grossas a toda esta calamidade? Os organismos de defesa do meio ambiente, onde estão? As prefeituras municipais, os governos estaduais, essas ONGS, que dizem tanto defender a natureza? A Polícia Federal estaria apenas preocupada com o roubo de diamantes na reserva Roosevelt e não pode interferir? Qual a função do Corpo de Bombeiros? Por que ninguém faz nada? Por que só parte da mídia e alguns incomodados como eu gritam? Por quê? Será que nos abandonaram?


* O professor Nazareno, com asma, sinusite e rinite alérgica, leciona na escola João Bento da Costa em Porto Velho. (profnazareno@hotmail.com)

domingo, 22 de agosto de 2010

O DRAGÃO DA MALDADE CONTRA O SANTO GUERREIRO

Que a Marina Silva não vai ganhar a eleição para a presidência do Brasil todos nós sabemos, mas daí, até usar de vilania e cegueira para dizer que a Marina não fez nada quando esteve à frente do Ministério do Meio Ambiente, pelo IBAMA e órgãos adjacentes, pelo trabalhador rural, campo e floresta. É no mínimo fechar-se a um mundo em que se pode acreditar como melhor e avançado.

No conto de Borges, O jardim de veredas que se bifurcam, uma das personagens sente martelar o cérebro, pelo medo, desconfiança e todos os pensamentos matizes da guerra. Pensa que se pudesse gritar de onde estava de modo que fosse ouvido na Alemanha. É abatido pela constatação de que a sua voz (a nossa) humana era muito pobre. Como fazê-la chegar aos olhos do Chefe?

Pois bem, de que dispõe uma Marina, senão do corpo? Frágil corpo de mulher. Quanto valerá no Acre uma mulher que até os 16 anos não sabia ler? O que e quem enfrentou para estar onde chegou? Não podem esquecer os bem-nascidos no "sul" do Brasil, ou aí radicados por um qualquer milagre, que já amealharam para si desenvolvimento, educação de qualidade (vide números do ENEM) e de vida, que essa mulher sussurra verdades, justiça, natureza, e que ela é uma das responsáveis por um conjunto de mudanças ocorridas em torno da legislação ambiental, da prática de fiscalização e denúncias de crimes cuja vitima é a biodiversidade. Contudo, o que é a voz humana da Marina Silva contra as investidas do capital? O que é o silvo de um sabiá contra o ronco oleoso de um motosserra? O que é o nado silencioso de um bagre nos rios do país, contra os papéis (ações) movimentados no momento da licitação de uma hidroelétrica? NADA.

Para Max Weber o destino de uma época cultural que provou da "árvore do conhecimento” é ter de saber que podemos falar a respeito do sentido do devir do mundo, não a partir do resultado de uma investigação (tempo de trabalho de um analista no IBAMA), por mais perfeita e acabada que seja, mas a partir de nós próprios que temos de ser capazes de criar esse sentido. Temos de admitir que “cosmovisões” nunca podem ser o resultado de um avanço do conhecimento empírico, e que, portanto, os ideais supremos que o movem com a máxima força possível, existem, em todas as épocas, na forma de uma luta com outros ideais que são, para outras pessoas, tão sagrados como o são para nós os nossos.

Ganhar a eleição para a Marina pode não ser o mais importante. O mais importante é forçar um vento de Iansã sobre o preconceito e o machismo, disfarçados de conhecimento que orientam as mentes privilegiadas desse país injusto e desigual. Em tempo: Antônio das Mortes é um velho matador de cangaceiros. Coronel Horácio, rico proprietário e político demagogo e corrupto, o contrata para se livrar de Coirana, um pobre agitador que se passa por um grande cangaceiro. Coirana lidera um grupo de camponeses místicos, os beatos. Nós nos servimos de Glauber Rocha para forçar a visão de que o justo, no Brasil é quase sempre "confundido" com a figura folclórica, lunática que força o endógeno para se beneficiar. Glauber voscifera suas lentes para dizer que não há esgotamento para a "criatividade crítica" que apenas pretende amesquinhar, apequenar os espaços que se expandem.


Juliete Oliveira
Salgueiro/PE 22 de agosto de 2010

sábado, 21 de agosto de 2010

máquinas obrigatórias de voto

A chamada campanha eleitoral segue no Tocantins o tom uníssono de todo país: candidatos despreparados, que nada sabem do que seja política e que portanto jamais poderão cuidar adequadamente da pólis e dos interesses dos cidadãos. Isso com o agravante de um punhado que burla a lei (especialidade própria e imensamente difundida pelos tais) para se impor candidato. Ex-governadores e ex-parlamentares degenerados, assaltantes da verba pública, dados a toda sorte de bandidagem para fazer fortuna, multiplicar patrimônio, agenciar seus pares e parentes. O cinismo e o sarcasmo generalizado parecem ter se tornado a única alternativa possível diante do caos político a que somos lançados permanentemente. Quanto mais pilantra e indígno o pretendente mais êxito alcança nas famigeradas máquinas obrigatórias de voto. Que equação amalucada esta a que nos submetemos. Quanto mais sofisticado o processo de escolha, pior o resultado? Será este um sistema isento de falhas e fraudes, como se alardeia? As eleições hoje se dão como se o eleitor comprasse pela internet um produto e recebesse em casa outro – de qualidade inferior e ainda mais caro. A sociedade tinha que ter assegurada cada vez mais participação nesse processo e não ser apenas a que aciona um botão ou a que está restrita aos limites operatórios da votação: ser mesário, fiscal, observador etc. É duro saber que o bandido que saqueou seus bens, sua casa, seus direitos e oportunidades está de volta. E que fará tudo de novo impunemente. A lei da ficha limpa parece estar longe de ter posto fim a isso.


ney ferraz paiva, de Palmas, esse deserto, dessa comarca do nada...

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Um Código Florestal Paleontológico

A Sávio Drummond, o falcão peregrino




Ao nobre deputado Aldo Rabelo, recomendo a leitura do livro “Alfabetização Ecológica – A educação das crianças para um mundo sustentável” do físico e filósofo Fritjof Capra. Em que, este, menciona que, para entendermos os princípios organizacionais que os ecossistemas desenvolveram ao longo de bilhões de anos, temos que conhecer os princípios básicos da ecologia – a linguagem da natureza. A estrutura conceitual mais apropriada para se entender a ecologia hoje é a teoria dos sistemas vivos, que continua sendo desenvolvida e cujas raízes incluem a biologia organísmica, a psicologia gestalt, a teoria geral dos sistemas e a teoria da complexidade (ou dinâmica não-linear).

Essa dinâmica não-linear deveria em tempos de discussão calorosa sobre a natureza, orientar todos os que se dispõem sentar-se à mesa de discussão. Por que recomendo a leitura acima ao bom homem? Por que ele, como representante legal da sociedade, demonstrou indícios de que precisa entender melhor a questão, como tantos outros, e não apenas deixa-se levar pelo discurso roto do desenvolvimento. Muito embora não surpreenda tanto assim que essa proposta venha de alguém que nos tempos que correm tenha a má fé de se reclamar o dístico de comunista. Já que do comunismo restou-nos a todos uma vaga lembrança, e esta serve, sobretudo, para indicar um tempo que não quer passar de uma preocupação de biógrafos e que corresponde praticamente apenas a uma espécie de história externa, uma história para uso externo, para ser contada aos outros. As lembranças são imóveis, tanto mais sólidas quanto mais bem especializadas. (Gaston Bachelard, A Poética do Espaço).

Quanto à floresta, está sim, não tem como ser esquecida, relegada a um passado que não nos diz respeito, atada às paixões sem guia que esmorecem e definham na solidão. O homem, caro Senhor, precisa da floresta para gerir seu alter ego, lancemos mão da história, a de todos os homens, inclusive a sua e de seus pares, num breve relato: "I went into the woods because I wanted to live deliberately. I wanted to live deep and suck out all the marrow of life... to put to rout all that was not life; and not, when I came to die, discover that I had not lived." - Henry David Thoreau. "Eu fui à Floresta porque queria viver deliberadamente. Eu queria viver profundamente, e sugar a própria seiva da vida... expurgar tudo o que não fosse vida; e não, ao morrer, descobrir que não havia vivido".

E então Deputado, que dizer diante dessa voz que não cessa, imemorial, astuta, que decifra quem somos? Se o Senhor e os seus não mais a escutam, se certos aliados de última hora podem mudar o coração de um homem, talvez fosse melhor que o Senhor passasse uns dias com o meu amigo Sérgio Tembé na aldeia Tekoraw (aldeia nova), às margens do rio Gurupi – saberá ainda o Senhor os caminhos dos rios, dos bichos e das matas? Lá seria ainda possível (enquanto seu mal fadado código não for posto em prática por grileiros, madeireiros e todos os empreendedores do desastre e da morte da floresta) sua Senhoria resolver anos de ausência de estudo sobre a psicologia gestalt, sobre entomologia, o vôo dos pássaros – para não chamar de ornitologia – lá os índios não tratam por esse nome, mas nem por isso amam menos a vida. E será sempre por isso, Excelência, que eles poderão enumerar quantos motivos houver que fragilizam a vida e a sustentabilidade com a aprovação do pavoroso “novo/velho” Código Florestal, obra de sua lavra, que nada gera de vida, senão de cifras.


Entendo a dificuldade que o pensamento velho tem para se desvencilhar do que lhe é próprio, ainda que aos olhos não seja belo e ao estômago seja azedo, já que este comprometimento com o que passou, é uma antiga lástima que permeia a cultura política a que o Senhor parece se adequar e penso que assim continuará sendo, uma vez que os modelos do passado são ainda tão potentes que a crítica de uma sociedade e seu desejo de mudança perecem diante desses modelos. Mas creia o “novo sempre vem”. E é acreditando no novo, meu bom Senhor, que o poder público deverá se ocupar da conservação e reconhecer o seu Calcanhar de Aquiles, denominado Gestão/Fiscalização, e não instituir topo de morro como área não protegida, já que omissão não evita erosão, não obstrui o fausto mercado da especulação a que o Senhor, por certo ignora que exista e prospere, empurrando os pobres das cidades e do campo direto pro abismo, como recentemente ocorreu em Santa Catariana na zona rural, no coração do Rio de Janeiro, junto a um vasto complexo turístico, em dois ou três estados do Nordeste. E o que se configurou ali, nobre Deputado, não precisa ser especialista para responder. Mas vamos lá. E este eu também recomendo a leitura, para pensar a cidade e a floresta, para desobstruir as conexões com o novo e o belo. Jean Baudrillard em O crime perfeito, (não veja no título uma tentativa de ofensa, meu bom homem, não foi minha intenção, nem do Baudrillard), pois bem, ele tece uma projeção desesperançada para o nosso futuro, e nos pergunta, num certo gracejo ou chiste: Talvez mais tarde existam vestígios fósseis do real como existem das eras geológicas passadas? Um culto clandestino dos objetos reais, venerados como fetiches e que de repente adquirirão um valor mítico? Adaptando para sua proposta de Código Florestal, no mundo de relações que o Senhor ali defende, eu acrescentaria que talvez a floresta venha a ser, a partir desse código só paleontologia. E aí, meu Senhor, por que os saberes não se esgotam no que é velho e seus ranços de dor, penso que um conjunto de atitudes se encontra em processo de mudança, e é fácil perceber o mecanismo de cercar-as-apostas, de fazer prevalecer nas disputas de poder e de ideias, nas correlações de força e nos lances finais dos discursos o que é justo e bom. Que justifique e defenda a vida.

Juliete Oliveira
Palmas, 14 de julho de 2010

terça-feira, 29 de junho de 2010

O sertão vai virar mar



O sertão vai virar mar / Dói no coração / O medo que algum dia / O mar também vire sertão... (Sobradinho, Trio Nordestino). O sociólogo francês, Pierre Bourdieu, escreveu certa vez que a competência de um discurso — sua razão de ser e sua eficácia — não reside simplesmente no seu aspecto linguístico de propriedade e correção, mas, antes: no «lugar» socialmente definido a partir do qual ele é proferido. (Bourdieu, 1982:174). Quem entre nós, não se lembrou dos versos acima, nos últimos dias? Antes de ser um paradoxo – o sertão virar mar – é algo que se verificou, pode acontecer, um mar de lama, um mar de desolação, tristeza e lágrimas de tantos que perderam o pouco que tinham.

E esse discurso? Deve-se fixar onde? O “lugar”, o nordeste brasileiro. Isto impõe a necessidade de se instituir uma crítica histórica, ou seja, uma avaliação das motivações subentendidas nos processos locutórios, que atribuem ao discurso — polissêmico de per se — um sentido unívoco ao longo de um período ou em uma determinada época. A época é essa, pré eleitoral, cibernética, em tempo real. Perguntemos, pois, aos moradores de Palmares e municípios adjacentes que são obrigados a transportar alimentos no lombo do jegue, pela inexistência total de outra possibilidade de transporte, qual o sentido desse tempo? E qual seria o verdadeiro sentido do discurso? A não ser aquele que justifica os últimos acontecimentos pelos meios naturais. Choveu o equivalente a “trocentos” milímetros, o esperado para todo o mês, em algumas horas. Ou ainda, o desmatamento, a ocupação irregular – do minúsculo ao incomensurável

O nordeste teve por algumas décadas um órgão chamado SUDENE / Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste – desta nos lembramos –, não pelos resultados alcançados pela instituição, que era responsável por orientar um desenvolvimento dentro de padrões de segurança e bem estar social. Essa instituição esteve atrelada aos principais ministérios: planejamento, ciência e tecnologia, do interior (hoje integração nacional), agricultura, entre outros. Temos no Brasil muitos anos de pesquisa para o desenvolvimento social, para a produção agrícola e pelo menos uns vinte anos de pesquisa para o desenvolvimento sustentável.

Por que ainda, temos que emprestar nossos ouvidos para esse tipo de explicação? Pelo mesmo motivo que temos ainda que suportar propagandas eleitorais, enganosas, promessas arquitetadas nas sombras. Isto impõe também, uma denúncia dos estrategistas, isto é, os especialistas que garantem aos grupos que exercem o poder a eternização do provisório, ou, em outras palavras, a solidez ideológica através da qual estes grupos definem como corretas e normais suas formas de organização, pensando, assim, justificar suas ações práticas.

É o provisório que deve ser sólido, em matéria de discurso, por que fazer algo planejado de fato, duradouro, sustentável, obra dá voto, precisamos construir o país. O desenvolvimento deverá justificar tudo! Por quanto tempo? O tempo até o próximo desastre, porque o tempo muito embora seja um artifício dos gestores públicos, para justificar uma licitação, por exemplo, para o nordestino pode ser o intervalo entre uma safra e outra, uma seca e outra e ainda, entre uma enchente e outra.

Tempo suficiente sabemos, para o planejamento, a construção, o zoneamento, para se afastar os riscos e proteger quem precisa de proteção. Cuidar da polis é um exercício do homem. Marx e Engels em O Dezoito Brumário de Luiz Bonaparte fizeram uma análise coerente desse exercício. A história não faz nada, “não possui uma riqueza imensa”, “não dá combates”, é o homem, o homem real e vivo que faz tudo isso e realiza combates; estejamos seguros de que não é a história que se serve do homem como de um meio para atingir — como se ela fosse um personagem particular — seus próprios fins; ela não é mais do que a atividade do homem que persegue os seus objetivos. (Marx & Engels, apud Fernandes, 1983:48). Pensemos assim do tempo, para que ele cesse de ser mar.




Juliete Oliveira

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Palmas é uma Barrela (cidade de 3ª classe)


O título da peça de Plínio Marcos cai como uma luva na mão dos gestores pelo que vamos vivendo nesta cidade nos últimos anos. Abandonados à própria sorte. Tal o estado das coisas. Azedo, envelhecido, apequenado. Dias e dias que são uma noite de sordidez. O esculacho. Do buraco abismal das ruas às desorbitadas, senão amalucadas, desvairadas decisões do poder público – uma vez que desconectadas com os interesses do cidadão. O sistema de transporte de Palmas é o mais descarado exemplo. Desde o primeiro mês de sua imposição à sociedade de Palmas (não dá pra dizer que uma coisa lastimável como essa foi “implantada”) que vêm recebendo críticas desfavoráveis e muito corretas dos usuários. É deveras preocupante que um prestador de serviço público de uma cidade inteira, atuando sozinho no mercado, avilte o interesse maior de ir-e-vir de toda uma população. Pouco importando se esse direito está assegurado na Constituição. Quanta impunidade! O usuário do transporte público hoje em Palmas - apertado feito animal - é um marginalizado social. A ele ônibus velhos e empoeirados, desconfortáveis, fora dos horários, lotados nos horários concorridos, demorados a não mais poder nos demais períodos. E as tais estações? Um tormento total, um purgatório. O sistema apenas favorece o empresário. Diminui custo-aumenta lucratividade. O motorista que acula a função de cobrador recebe irrisórios R$ 16,27 (dezesseis reai e vinte sete centavos)! Ainda assim esta semana a tarifa subiu para (pasmem!) R$ 2,20 (dois reais e vinte centavos). Em todo esse desmando inconcebível numa democracia vai impresso a verdadeira face dos políticos da cidade. Que se sentem acima da lei, senão os donos dela. Não é preciso estar possuído por nenhum espírito pra se fazer previsões catastróficas acerca do futuro da cidade. Que acaba de completar 21 anos, mas já tão envelhecida. Nos costumes, hábitos e culturas. Acionados e inspirados, todos, pela indiferença indisfarçável dos políticos. Sob o repetitivo refrão nos palácios “to nem aí, to nem aí...”. O caos se estabelecendo irrefreável: ambiental, social, político, ético, cultural. No filme Os Simpsons, eles se encontram a ponto de fugir para o Alasca. E nós, que temos a fazer? Fugir? Sim, eu vos digo, o tolo vivente, fugir sempre!




ney ferraz paiva
imagem: O Vagão da Terceira Classe, de Honoré Daumier (1808-1879)
Os tempos não mudaram, nem os políticos!

terça-feira, 15 de junho de 2010

A desgraçada profissão de economista, por James Galbraith




Sr. Presidente, Srs. Membros do Subcomité, como antigo membro da assessoria do Congresso é um prazer submeter esta declaração à vossa consideração.


Escrevo-lhes vindo de uma profissão desgraçada. A teoria económica, como é amplamente ensinada desde a década de 1980, fracassou miseravelmente no entendimento das forças que estão por trás da crise financeira. Conceitos que incluem "expectativas racionais", "disciplina de mercado" e a "hipótese dos mercados eficientes" levaram economistas a argumentar que a especulação estabilizaria preços, que os vendedores actuariam para proteger as suas reputações, que se podia confiar no caveat emptor [1] e que portanto a fraude generalizada não podia ocorrer. Nem todos os economistas acreditaram nisto – mas a maior parte sim.

Consequentemente, o estudo da fraude financeira recebeu pouca atenção. Não existe praticamente nenhum instituto de investigação; a colaboração entre economistas e criminólogos é rara; nos principais departamentos há poucos especialistas e muito poucos estudantes. Os economistas minimizaram o papel da fraude e todas as crises que examinaram, incluindo a derrocada das Caixas Económicas (Savings & Loans), a transição russa, o colapso asiático e a bolha das dot.com. Eles continuam a minimizar até hoje. Numa conferência patrocinada pelo Levy Economics Instituto, em Nova York, a 17 de Abril, o mais perto que um antigo sub-secretário do Tesouro, Peter Fischer, chegou a esta questão foi utilizar a palavra "travessuras" (naughtiness"). Isto foi no dia em que a Securities and Exchange Comission (SEC) acusou a Goldman Sachs de fraude.

Há excepções. Um famoso artigo de 1993 intitulado "Saqueio: bancarrota para o lucro" ("Looting: Bankruptcy for Profit"), de George Akerlof e Paul Romer, baseava-se excepcionalmente na experiência de reguladores que entendiam de fraude. O criminólogo-economista William K. Black, da Universidade de Missouri-Kansas City é o nosso principal analista sistemático do relacionamento entre crime financeiro e crise financeira. Black destaca que a fraude contabilística é uma coisa segura quando você pode controlar a instituição em que entrou: "o melhor meio de roubar um banco é possuí-lo". A experiência da crise das Caixas Económicas foi de empresas capturadas com o propósito explícito de depená-las, de sangrá-las até secarem. Isto foi estabelecido em tribunal: havia mais de um milhar de condenações por crime na sequência daquela derrocada. Outras crónicas úteis da moderna fraude financeira incluem "Cova de ladrões" (Den of Thieves) , de James Stewart, sobre a era Boesky-Milken, e "Conspiração de loucos" (Conspiracy of Fools) , de Kurt Eichenwald, sobre o escândalo Enron. Mas subsiste um vasto fosso entre esta história e a análise formal.

A análise formal conta-nos que o controle de fraudes segue certos padrões. Elas crescem rapidamente, relatando alta lucratividade, certificada por firmas de contabilidade de topo. Elas pagam excessivamente bem. Ao mesmo tempo, elas reduzem padrões radicalmente, construindo novos negócios em mercados anteriormente considerados demasiado arriscados para negócios honestos. No sector financeiro, isto assume a forma de descontraídas – não, estripadas – subscrições, combinadas com a capacidade de passar o último tostão para o louco maior. Na Califórnia, na década de 1980, Charles Keating percebeu que um alvará de Caixa Económica era uma "licença para roubar". Nos anos 2000, a origem das hipotecas sub-prime foi em grande parte a mesma coisa. Dada uma licença para roubar, os ladrões começam a trabalhar. E porque o seu desempenho parece tão bom, eles rapidamente vêm a dominar os seus mercados; os maus jogadores expulsam os bons.

A complexidade do sector hipotecário-financeiro antes da crise destaca uma outra marca característica da fraude. No sistema desenvolvido, os documentos originais da hipoteca jazem enterrados – quando permanecem – nos registos dos originadores do empréstimo, muitos deles extintos desde então ou tomados por terceiros. Aqueles registos, se examinados, revelariam a extensão da documentação em falta, das práticas abusivas e da fraude. Até agora, temos apenas uma evidência muito limitada sobre isto, notavelmente um estudo de 2007 da Fitch Ratings sobre uma amostra muito pequena de RMBS [2] altamente taxadas, as quais descobrem "fraude, abuso ou documentação omissa em virtualmente todo ficheiro". Esforços feitos um ano atrás pelo deputado Doggett para persuadir o secretário Geithner a examinar e informar a fundo a extensão da fraude nos registos subjacentes às hipotecas foram totalmente torneados.

Quando hipotecas sub-primes foram empacotadas e titularizadas, as agências de classificação deixaram de examinar a qualidade do empréstimo subjacente. Ao invés disso substituíram [o exame] por modelos estatísticos, a fim de gerar classificações que fariam as RMBS resultantes aceitáveis para os investidores.

Quando alguém assume que os preços sempre subirão, segue-se que um empréstimo titularizado pelos activos sempre pode ser refinanciado; portanto a condição real do tomador do empréstimo não importa. Aquela projecção é, naturalmente, apenas tão boa como a suposição subjacente, mas neste mercado concebido de forma perversa aqueles que pagam pelas classificações não têm razões para se importarem com a qualidade das suposições. Enquanto isso, agora os originadores de hipotecas têm uma fórmula para oferecer empréstimos aos piores tomadores que pudessem encontrar, seguros de que neste Lake Wobegon [3] invertido nenhuma criança seria considerada abaixo da média embora todas estivessem. A qualidade do crédito entrou em colapso porque o sistema foi concebido para ir para o colapso.

Um terceiro elemento na mixórdia tóxica foi um simulacro de "seguro", proporcionado pelo mercado em credit default swaps. Estes são instrumentos do juízo final num sentido preciso: eles geram fluxo de caixa para o emissor até que ocorra o evento de crédito. Se o evento for suficientemente grande, o emissor então falha, ponto em que o governo enfrenta chantagem: ele deve intervir ou o sistema entrará em colapso. Os CDS propagam as consequências de uma baixa nos preços das habitações por todo o sector financeiro, por todo o globo. Eles também proporcionam os meios para provocar curto-circuito no mercado de títulos apoiados por hipotecas residenciais, de modo que os maiores jogadores poderiam virar as costas e apostar contra os instrumentos que haviam previamente estado a vender, pouco antes de o castelo cartas entrar em crash.

Nos tempos actuais a teoria económica das finanças é cega a tudo isto. Ela necessariamente trata acções, títulos, opções, derivativos e assim por diante como títulos cujas propriedades podem ser aceites amplamente pelo seu valor facial e quantificadas em termos de retorno e de risco. Aquela quantificação permite o cálculo do preço, utilizando fórmulas padrão. Mas tudo na fórmula depende de os instrumentos serem o que são representados para ser. Pois se não o forem, então que fórmula poderia possivelmente aplicar-se?

Uma tendência mais antiga da teoria económica institucional entendia que um título é um contrato legal. Ele só podia ser tão bom quanto o sistema legal que estava atrás dele. Alguma fraude é inevitável, mas num sistema em funcionamento ela deve ser rara. Ela deve ser considerada – e correctamente – um problema menor. Se a fraude – ou mesmo a percepção da fraude – chega a dominar o sistema, então não há fundamento para um mercado de títulos. Eles tornam-se lixo. E mais profundamente, do mesmo modo as instituições responsáveis por criá-los, classificá-los e vendê-los. Incluindo, enquanto falhar em responder com a força apropriada, o próprio sistema legal.

Fraudes controladas sempre falham no fim. Mas o fracasso da firma não significa que a fraude tenha falhado: os perpetradores muitas vezes fogem ricos. Em algum momento, isto exige subverter, subornar ou vencer a lei. É aqui que o crime e os políticos se interceptam. No seu cerne, a crise financeira foi uma ruptura da regra da lei na América.

Perguntem-se a si próprios: será possível para originadores de hipotecas, agências de classificação, subscritores, seguradores e agências de supervisão NÃO terem sabido que o sistema financeiro de habitação tornara-se infestado de fraudes? Todo indicador estatístico de prática fraudulenta – crescimento e lucratividade – sugere o contrário. Até agora todo exame dos registos sugere o contrário. A própria linguagem em uso: "empréstimos mentirosos", "empréstimos ninja", "empréstimos neutrões" e "lixo tóxico" diz-lhe que as pessoas sabiam. Também ouvi a expressão "IBG,YBG", o significado desse código era: "Eu darei o fora, você dará o fora" ("I'll be gone, you'll be gone").

Se dúvidas subsistissem, a investigação dentro das comunicações internas das firmas e agências em causa pode esclarecê-las. Os emails são reveladores. O governo já possui pegadas documentais críticas – aquelas da AIG, Fannie Mae de Freddie Mac, o Departamento do Tesouro e a Reserva Federal. Esses documentos deveriam ser investigados, completamente, pela autoridade competente e também divulgados, quando apropriado, ao público. Por exemplo: será que intencionalmente a AIG emitiu CDSs contra instrumentos que a Goldman havia concebido em nome do sr. John Paulson para fracassar? Se assim for, por que? Ou outra vez: Será que a Fannie Mae e o Freddie Mac apreciaram a fraca qualidade das RMBSs que estavam a adquirir? Será que assim o fizeram sob a pressão do sr. Henry Paulson? Se assim for, será que o secretário Paulson sabia? E se o fez, por que ele actuou assim? Num documento recente, Thomas Ferguson e Robert Johnson argumentam que a "Opção Paulson" foi destinada a adiar uma crise inevitável para depois das eleições. Será que os registos internos confirmam esta visão?

Vamos supor que a investigação que estão prestes a começar confirme a existência de fraude generalizada, envolvendo milhões de hipotecas, milhares de avaliadores profissionais, subscritores, analistas e os executivos das companhias nas quais eles trabalhavam, bem como responsáveis públicos que a isso assistiam fechando os olhos. O que será a resposta apropriada?

Alguns parecem acreditar que a "confiança nos bancos" pode ser reconstruída por uma nova rodada de boas notícias económicas, pela ascensão dos preços das acções, pelas novas promessas de altos responsáveis – e pelo não olhar demasiado atentamente para a evidência subjacente de fraude, abuso, engano e burla. Ao prosseguirem vossas investigações, minarão, e acredito que possam destruir, tal ilusão.

Mas você tem de actuar. A alternativa verdadeira é uma fracasso a estende-se ao longo to tempo do sistema económico ao político. Da mesma forma como muitos poucos previram a crise financeira, pode ser que muito poucos estejam hoje a falar francamente acerca de onde um fracasso em tratar das consequências pode levar.

Nesta situação, deixem-me sugerir que o país enfrenta uma ameaça existencial. Ou o sistema legal deve fazê-lo funcionar. Ou o sistema de mercado não pode ser restaurado. Deve haver uma limpeza completa, transparente, efectiva e radical do sector financeiro e também daqueles responsáveis públicos que traíram a confiança pública. Aos financeiros deve-se fazê-los sentir, nos seus ossos, o poder da lei. E o público, o qual vive de acordo com a lei, deve ver muito claramente e sem ambiguidades que isto é o caso.

Muito obrigado.

18/Maio/2010

[1] caveat emptor: regra nas leis dos contratos determinando que o vendedor não garante a qualidade de sua mercadoria sem um compromisso especificado.
[2] RMBS: Residential mortgage-backed security

[3] Lake Wobegon : cidade fictícia no estado do Minnesota.
Texto de declaração escrita apresentada pelo autor ao Comité Judiciário do Senado dos Estados Unidos.

"Retirado do Blogspot pimentanegra"

terça-feira, 25 de maio de 2010

a compu (ta) linguagem

Um filósofo e sua mulher num jantar... Sua ambição é determinar, com o uso de máquinas elétricas de computação, a estrutura básica da linguagem. Os valores e as evocações das palavras podem ser determinadas, ele me diz, pelos equipamentos, e assim poemas de qualidade podem ser escritos por máquinas. Portanto, retornamos à absolescência dos sentimentos. Penso na minha maneira de sentir a linguagem, sua intimidade, seus mistérios, seu poder de evocar, numa pronúncia catarral, os ventos marítimos que sopram sobre Veneza ou, num A mais duro, o maciço para além de Kitzbühel. Mas isso, ele me diz, é apenas sentimentalismo. A importância dessas máquinas, sua tendência para legislar, para calibrar palavras como “esperança”, “coragem”, todos os termos que usamos para alimentar o espírito.

John Cheever escreveu esse texto lá pelos anos de 1950, muito antes de os computadores terem se tornado apenas mais um acessório doméstico, e mesmo antes de terem ganhado um nome específico. A arrogância reducionista do filósofo e a resposta indignada do autor são reações contrapostas a uma verdade simples, que ainda hoje é válida: escrita informativa e escrita criativa são formas diferentes de conhecimento, exigindo diferentes habilidades e relações com a linguagem totalmente diferentes.

A. Alvares, A voz do escritor

sexta-feira, 7 de maio de 2010

O que tem a Gisele com a floresta em pé?


Triste de quem é feliz.
Fernando Pessoa


A governamentalidade passa, dentre outras estratégias de subjetivação-dessubjetivação, por encarnar a função que o gozo decepcionante das sociedades espetaculares e de consumo não podem encampar completamente: uma máquina de fazer sorrir. A isto atribuímos a presença da Mega, Ultra, Super Top Model Gisele Bündchen‎ na Comissão Especial do Código Florestal. Desde os gregos, a felicidade foi convertida em tarefa da política, mas a felicidade sem possibilidade de pensamento não pode ser mais que um gozo, um sentimento reativo: não pode nada, senão permanecer no continuum desse gozo. A felicidade, aferida segundo as formas de vida governamentais, normais ou desviantes – pouco importa – implica, em verdade, uma das realizações finais da biopolítica: separando a vida da forma de vida, sacraliza-se não apenas a vida, mas também a forma que essa vida pode assumir; interdita-se o próprio acesso à política, à comunidade, à felicidade.


Discutir o Código Florestal passou a ser tarefa das beldades muito acima dos mínimos padrões que costumam guiar a vida das pessoas “normais” – é preciso ter porte, elegância e um grau de consumo altíssimo – e mais, muito mais: influenciar esse consumo, trabalhar em favor da máquina de produção de felicidade capitalista! Tudo a favor do modelo de Estado de bem-estar social (Welfare State), uma incumbência das políticas governamentais. Propiciar e zelar pelo bem-estar psicológico, a satisfação e conforto em relação à própria vida, é tarefa política, mas não deixa de ser uma das mais atuais estratégias de subjetivação-dessubjetivação dos governos e dos grupos de poder. A despeito de qualquer coisa a engrenagem não pode parar e o índice que mede a felicidade deve ser mantido, o FIB (Felicidade Interna Bruta). Mas felicidade de quem?


Certamente que não aqueles que terão o seu local de vivência, moradia, produção e reprodução dessa subjetividade, franqueado por um Código escrito por estrelas de constelações estranhas ao mundo real. O que saberá a rica Top das quebradeiras de coco do cerrado brasileiro? Da colheita diária do açaí e da piaçava na aurora amazônica? Com certeza pouco, muito pouco. Ainda que se venha discutindo exaustivamente a participação dos principais interessados nas questões que envolvem a floresta em pé, quase nada vem acontecendo na prática – talvez porque os principais interessados de que o Código Florestal não passe de uma receita de cosmético prescrita para “embelezar” o assombro do desmatamento sejam, finalmente, os grandes proprietários de terra, o agronegócio, as mineradoras e todos os que movimentam a bufunfa e riscam a floresta do mapa.


Juliete Oliveira