quarta-feira, 14 de julho de 2010

Um Código Florestal Paleontológico

A Sávio Drummond, o falcão peregrino




Ao nobre deputado Aldo Rabelo, recomendo a leitura do livro “Alfabetização Ecológica – A educação das crianças para um mundo sustentável” do físico e filósofo Fritjof Capra. Em que, este, menciona que, para entendermos os princípios organizacionais que os ecossistemas desenvolveram ao longo de bilhões de anos, temos que conhecer os princípios básicos da ecologia – a linguagem da natureza. A estrutura conceitual mais apropriada para se entender a ecologia hoje é a teoria dos sistemas vivos, que continua sendo desenvolvida e cujas raízes incluem a biologia organísmica, a psicologia gestalt, a teoria geral dos sistemas e a teoria da complexidade (ou dinâmica não-linear).

Essa dinâmica não-linear deveria em tempos de discussão calorosa sobre a natureza, orientar todos os que se dispõem sentar-se à mesa de discussão. Por que recomendo a leitura acima ao bom homem? Por que ele, como representante legal da sociedade, demonstrou indícios de que precisa entender melhor a questão, como tantos outros, e não apenas deixa-se levar pelo discurso roto do desenvolvimento. Muito embora não surpreenda tanto assim que essa proposta venha de alguém que nos tempos que correm tenha a má fé de se reclamar o dístico de comunista. Já que do comunismo restou-nos a todos uma vaga lembrança, e esta serve, sobretudo, para indicar um tempo que não quer passar de uma preocupação de biógrafos e que corresponde praticamente apenas a uma espécie de história externa, uma história para uso externo, para ser contada aos outros. As lembranças são imóveis, tanto mais sólidas quanto mais bem especializadas. (Gaston Bachelard, A Poética do Espaço).

Quanto à floresta, está sim, não tem como ser esquecida, relegada a um passado que não nos diz respeito, atada às paixões sem guia que esmorecem e definham na solidão. O homem, caro Senhor, precisa da floresta para gerir seu alter ego, lancemos mão da história, a de todos os homens, inclusive a sua e de seus pares, num breve relato: "I went into the woods because I wanted to live deliberately. I wanted to live deep and suck out all the marrow of life... to put to rout all that was not life; and not, when I came to die, discover that I had not lived." - Henry David Thoreau. "Eu fui à Floresta porque queria viver deliberadamente. Eu queria viver profundamente, e sugar a própria seiva da vida... expurgar tudo o que não fosse vida; e não, ao morrer, descobrir que não havia vivido".

E então Deputado, que dizer diante dessa voz que não cessa, imemorial, astuta, que decifra quem somos? Se o Senhor e os seus não mais a escutam, se certos aliados de última hora podem mudar o coração de um homem, talvez fosse melhor que o Senhor passasse uns dias com o meu amigo Sérgio Tembé na aldeia Tekoraw (aldeia nova), às margens do rio Gurupi – saberá ainda o Senhor os caminhos dos rios, dos bichos e das matas? Lá seria ainda possível (enquanto seu mal fadado código não for posto em prática por grileiros, madeireiros e todos os empreendedores do desastre e da morte da floresta) sua Senhoria resolver anos de ausência de estudo sobre a psicologia gestalt, sobre entomologia, o vôo dos pássaros – para não chamar de ornitologia – lá os índios não tratam por esse nome, mas nem por isso amam menos a vida. E será sempre por isso, Excelência, que eles poderão enumerar quantos motivos houver que fragilizam a vida e a sustentabilidade com a aprovação do pavoroso “novo/velho” Código Florestal, obra de sua lavra, que nada gera de vida, senão de cifras.


Entendo a dificuldade que o pensamento velho tem para se desvencilhar do que lhe é próprio, ainda que aos olhos não seja belo e ao estômago seja azedo, já que este comprometimento com o que passou, é uma antiga lástima que permeia a cultura política a que o Senhor parece se adequar e penso que assim continuará sendo, uma vez que os modelos do passado são ainda tão potentes que a crítica de uma sociedade e seu desejo de mudança perecem diante desses modelos. Mas creia o “novo sempre vem”. E é acreditando no novo, meu bom Senhor, que o poder público deverá se ocupar da conservação e reconhecer o seu Calcanhar de Aquiles, denominado Gestão/Fiscalização, e não instituir topo de morro como área não protegida, já que omissão não evita erosão, não obstrui o fausto mercado da especulação a que o Senhor, por certo ignora que exista e prospere, empurrando os pobres das cidades e do campo direto pro abismo, como recentemente ocorreu em Santa Catariana na zona rural, no coração do Rio de Janeiro, junto a um vasto complexo turístico, em dois ou três estados do Nordeste. E o que se configurou ali, nobre Deputado, não precisa ser especialista para responder. Mas vamos lá. E este eu também recomendo a leitura, para pensar a cidade e a floresta, para desobstruir as conexões com o novo e o belo. Jean Baudrillard em O crime perfeito, (não veja no título uma tentativa de ofensa, meu bom homem, não foi minha intenção, nem do Baudrillard), pois bem, ele tece uma projeção desesperançada para o nosso futuro, e nos pergunta, num certo gracejo ou chiste: Talvez mais tarde existam vestígios fósseis do real como existem das eras geológicas passadas? Um culto clandestino dos objetos reais, venerados como fetiches e que de repente adquirirão um valor mítico? Adaptando para sua proposta de Código Florestal, no mundo de relações que o Senhor ali defende, eu acrescentaria que talvez a floresta venha a ser, a partir desse código só paleontologia. E aí, meu Senhor, por que os saberes não se esgotam no que é velho e seus ranços de dor, penso que um conjunto de atitudes se encontra em processo de mudança, e é fácil perceber o mecanismo de cercar-as-apostas, de fazer prevalecer nas disputas de poder e de ideias, nas correlações de força e nos lances finais dos discursos o que é justo e bom. Que justifique e defenda a vida.

Juliete Oliveira
Palmas, 14 de julho de 2010

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