quinta-feira, 28 de abril de 2011

VENDE-SE UM CÓDIGO FLORESTAL (com umas poucas árvores em pé ou pra liquidar o que resta)


Num jogo de estranhas ambiguidades a omitir a venda de consciências e escrúpulos, mais uma vez, numa outra rodada e sob a orientação de novos lances por parte do governo, é colocado  na pauta de votação pelo legislativo brasileiro a revisão do Código Florestal e com ele, no lugar da razoabilidade de argumentos e da busca de consenso em torno da questão, a produtividade de truculências e a coerção ilegítima.

Em que pese a verdade de que o todo tem primazia sobre cada uma das partes que o compõem, a execrável proposta de revisão no Código Florestal busca trabalhar esquartejadamente questões em que só o todo produziria heterogeneidades credíveis. Sendo a proposta resultado de uma “ideologia” que julga não ser necessário pensar o futuro, porque julga saber tudo a respeito dele e o concebe como uma inspiração linear, automática e infinita do presente.

O escritor Walter Benjamin pensava que a segunda guerra mundial tinha privado o mundo das relações sociais através das quais as gerações anteriores transmitiriam o seu saber as seguintes: “Tornamo-nos pobres. Fomos abandonando um pedaço de herança da humanidade após outro, tivemos muitas vezes de a depositar na casa de penhores por um centésimo do seu valor para receber de volta as moedas sem préstimo da atualidade”.

Compreendemos que a esse mesmo destino está fadado os biomas brasileiros, impedidos que estarão de transmitir grande parte de sua herança biológica aos descendentes natimortos - por que eles estão postos à venda e impelidos a desaparecer, pelo novo Código.

Em uma visão que se revela do futuro, quase sempre omitida nos arraiais políticos e pela grande mídia, creio poder interpretá-la assim: para os burocratas do legislativo e os senhores do agronegócio (leia-se também, altos acionistas das concessionárias de energia hidroelétrica), há uma ordem, uma única ordem possível: o lucro. O senhor Audo Rebelo tornou-se, como o relator da revisão do Código Florestal determinado a aprová-la, o disc-jockey animador dessa turma desenvolvimentista.

Nesse ponto da encenação e dos truques do poder se descortina a crise da ideia do progresso e desenvolvimento, como diria Boaventura de Sousa, e com ela a crise da ideia de totalidade que a funda. A visão abreviada do mundo foi tornada possível por uma concepção do tempo presente que a reduz a um instante fugaz entre o que já não é e o que ainda não é. Aprovar a proposta do Código Florestal é agir de um modo a se pregar e bater em um piano com um martelo, e não perceber que a pobreza da experiência não é a expressão de uma carência, mas antes a expressão de uma arrogância, a arrogância de não querer ver e valorizar a realidade da vivência das diversas culturas e do passado do homem do campo, apenas porque não escapam à razão com que são capazes de identificar, valorizar e medir a natureza pelas leis do latifúndio e do mercado.
Juliete Oliveira
Salgueiro/PE, 27 de abril de 2011

terça-feira, 19 de abril de 2011

A GUERRA MIDIÁTICA CONTRA A MULHER


“A partir de um certo ponto, a história não era mais real. Sem percebê-lo, toda a humanidade repentinamente abandonou a realidade.” Ao fazer esse comentário, Elias Canetti se refere à bomba atômica, e procurava sentenciar a destruição do último mito válido: o sol. Não poderia ser outra a epígrafe, ou mesmo a nota de pé de página, uma vez que essas palavras se constituem ainda hoje, em geral, a certeza de que a menor das coisas vence. A justiça foi destronada em um mundo onde o amor, a amizade, o afeto não têm mais poder. E esse paradoxo corrobora os fatos, todos eles, e talvez nos impeça de entendê-los. Simplesmente podemos deixar de lê-los ou de escutá-los. Quem está disposto a estudá-los cuidadosamente, quando as Olimpíadas e a Copa do Mundo tornam tudo obscuro ao redor. Até mesmo dois episódios de violência contra a mulher, ocorridos durante a semana: No primeiro deles uma jovem (quase menina) de 17 anos é visualizada a distância estendida ao chão, na frente do prédio do namorado, de onde teria supostamente se jogado, após uma discussão; no segundo, o jornalista Caio Blinder, do programa “Manhattan Conection”, da Globo News, usou uma palavra chula para se referir à rainha da Jordânia e a outras figuras dos países árabes dominados por ditaduras: “É a Rania, a Rania é a mulher do rei Abdullah. Ela é linda. Ela merece estar em capa de todas as revistas fru-fru, Elle, Vogue etc, mas esteticamente. Politicamente, ela e as outras piranhas são...”.

Como não pensar no avanço dos diretos conquistados pelas minorias, não apenas as mulheres, mas todas as outras, mundo afora e especificamente no Brasil, uma vez que muito recentemente se tenha conseguido aprovar, depois de intensa luta, uma Lei de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher. Mas ao que parece nenhuma lei teve ainda como suplantar o inconsciente machista dentro e fora da televisão, e muito pior: parece mesmo existir o respaldo de um sistema de mídia que forja e incentiva esse tipo de “idiossincrasia de estilo”, em busca de um melhor resultado na audiência, pouco importando se o que se apresenta é a imagem do feminino como algo descartável em um processo de aniquilação simbólica da mulher. A tragédia leva cedo as muito belas. E a beleza é de súbito um “problema” para a mulher. Somos uma sociedade em que a mulher tem que garantir uma delegacia própria. O feminino ou vira uma questão de polícia ou passa a ser uma desordem linguística. Recomenda-se abertamente em todas as mídias o corpo da mulher como mercadoria. Rotas de turismo partem dos grandes centros mundiais até às praias brasileiras – no verão as mulheres podem ser atacadas livremente.

Em boa parte das narrativas audiovisuais de ficção, face mais importante do chamado mass media, o casamento não é para toda a vida e os filhos são consequência natural e obrigatória da vida a dois, sendo apresentados, quase sempre, como grande possibilidade de realização pessoal. Nesse contexto, o aborto é silenciado e o trabalho por vezes tem papel secundário — estuda-se e sustenta-se somente quando as personagens são pobres, solteiras ou abandonadas, sem pai ou irmão para ampará-las. Ascensão social e poder são obtidos através do casamento com homens ricos e influentes, reproduzindo, na maior parte das vezes, o clichê da “Cinderela”. As “intervenções idiossincráticas”, os “tiques estilísticos” das personagens masculinas ridicularizam e amesquinham, capítulo a capítulo, o universo feminino. Mesmo que supostamente essas “ficções” se destinem preferencialmente às mulheres, como ávidas expectadoras.

A esse esboço geral estão vinculados os dois casos. O que acontece com o corpo da mulher ainda é misterioso, terrível, espantoso.

No primeiro, a menina pobre, muda de país com o auxílio da mãe que foi trabalhar como doméstica em outro continente para poder proporcionar certo conforto à família. Todo um mundo fantasioso é descortinado ante os olhos da menina. Nos bastidores das descobertas há como de costume, um homem rico, idade adulta – vide Leila Diniz –  e a partir daí um relacionamento conturbado, pautado pelo poder financeiro que um exerce sobre o outro. A menina vira alvo dos caprichos do homem e deverá atender às expectativas dele – ser exibida como sua bonequinha de luxo. O fim de tudo sabemos, assistimos a todo instante pela TV, só que nem sempre é ficção. A abandonada realidade.

No outro episódio, belas mulheres que se encaixam perfeitamente no mito de cinderela, ofendidas por um homem em cadeia mundial, simplesmente por que este senhor se considera dono da abandonada verdade, grande jornalista, não cabendo a ele ter que responder pelos seus atos, independente do que venha a fazer e dizer em público, determinado a lançar ao ar o que nele há de mais espúrio e indígno numa catapulta. Vide o caso Pimenta Neves e Sandra Gomide. Ela, assassinada e ele, em liberdade. Obliterada, ainda tem a justiça, uma vez que a pena que coube a Pimenta Neves, reduzida de 18 para 15 anos, ele não cumpre, ainda que uma pena especial de não-reclusão, como cabe, no Brasil, aos poderos. Disso, pouco ouvimos falar, a TV raramente exibe.

Aqui nessas pequenas caixas pretas mora o paradoxo. Tudo, absolutamente tudo, é em tempo real! Foi em tempo real que o corpo da menina passou das 05:00h às 15:00h estendido no chão coberto por um plástico, sujeito a todo tipo de comentários e considerações. Foi em tempo real que o mundo árabe viu alguma de suas mulheres serem desrespeitadas por um individuo que pouco saberá da simbologia que envolve o mundo oriental, tão distante que os ocidentais estão em matéria de história e de imaterialidade desse povo. Aqui, sem que a maioria se dê conta a realidade é abandonada e a ficção abre a cortina e tudo o que poderia parecer real, torna-se (imerso na beleza e no grotesco) mais um episódio banal da ficção-vida. Escusado será dizer que há uma cultura envolta aí, coberta ou silenciada pela barbárie midiática. E que o senhor Caio Blinder e tantos outros senhores não fiquem chateados se não conseguirem rastrear totalmente o que se oferece aqui como indignação e assombro. As nascidas-mantidas- humilhadas me compreenderão.

Juliete Oliveira
Salgueiro-PE, 18 de abril de 2011
fotografia: Francesca Woodman

quinta-feira, 24 de março de 2011


AS MÃOS SUJAS DA LEI


Em alguns casos, como as situações revolucionárias ou, mais frequentemente, as de emergência, as estruturas profundas são escavadas pela ação coletiva e tornam-se, elas mesmas, a superfície da prática. Quando Boaventura de Souza pensou nas estruturas profundas falava em torno do direito e é também a essa plataforma que recorremos aqui para buscar entender a decisão do Supremo ao julgar a aplicabilidade da lei da ficha limpa. Ela que é resultado de ação coletiva e que durante décadas foi obrigada a permanecer submersa no grande útero do tribunal, impedida e adiada de prosperar, como outras leis e decisões favoráveis ao interesse público, leis supostamente mortas, como na parábola de Kafka das armas de crianças, impotetentes e bloquedas pelo poder maior da política, que nunca "brinca" em serviço.

Considerando o povo leigo, sem informação de causa ou mesmo quase asno na questão, a maioria dos juízes votaram contra essa vontade popular urgente e imediata de ver os homens de mácula excluídos do processo eleitoral. O argumento do ministro Gilmar Mendes considerou inconstitucional aceitar a aplicação da lei no mesmo ano de sua criação, o que segundo ele caracterizaria uma mudança das regras em pleno jogo eleitoral, desde sempre de cartas marcadas e trapaças grosseiras. Comprar voto, praticar corrupção (inclusive televisionada), entregar-se a improbidade administrativa de toda ordem, não fere a Constituiçã?

Impedir indivíduos como Jáder Barbalho de assumir uma cadeira no senado federal pelo estado do Pará, nem precisando acessar turva biografia pra se saber de quem se trata, é ferir a Constituição quando e em que tempo, senhor ministro?

Ao que parece essa decisão se ajusta à noção de poder numa determinada concepção normativa de interesses frívolos e escusos, que ferem a vontade coletiva da sociedade brasileira. O jogo bem jogado, aparentemente esgotados todos os lances, pra nosso azar e sorte do oportunismo jurídico. Observemos que a nova ética não é antropocêntrica, nem individualista, nem busca a responsabilidade pelas consequências imediatas. É uma responsabilidade pelo futuro. É de uma ordem muito mais vital que se trata, o da amplidão das possibilidades institucionais e sociais de uma nação que mais uma vez se macula. Prorrogada para a próxima eleição, até que lá as coisas se ajeitem mais uma vez aos modos dos fregueses mais abonados nos tantos tribunais. Ninguém mais se engane somos por definição contrária uma democracia de fichas e mãos sujas.


Juliete Oliveira

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

luz é símbolo da beleza absoluta (ney ferraz paiva)


LUZIA MENINA ESPANTALHO









Sartre conta que a morte do seu pai, devolveu sua mãe à prisão e deu-lhe liberdade, porque se tivesse sido de outra forma, confessa “não há bom pai, é a regra... houvesse vivido meu pai deitar-se-ia sobre mim durante muito tempo e esmagar-me-ia”.

Para Luzia, personagem do curta-metragem a “Menina Espantalho”, do diretor Cássio Pereira, de 2008, o pai é um peso a esmagar as tentativas da menina de ler o mundo através dos livros. Limitada ao universo feminino que o pai reconhece, com a anuência da mãe, Luiza se entrega às artimanhas da invencionice infantil. Já com uma leve pitada de malícia feminina ela convence o irmão – único a receber o beneficio da educação formal, por ser menino – a ensiná-la a ler.

Tudo feito na calada da noite, sob a luz trêmula da lamparina; a menina é iniciada nos sussurros das sílabas-senhas do alfabeto. Como contraponto a tentativa da mãe em adestrar a pequena Luiza nos afazeres domésticos e pouco fetichizados, como é o caso do bordado para o qual a menina não denota nenhuma habilidade. Uma alegre visão é a mãozinha dela passeando nas cerdas do arroz novinho, recém nascido com o seu verde tenro, que no vigor da cena lembra Manuel de Barros: “Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:/Que o esplendor da manhã não se abre com faca”.

Todas as coisas atadas bem naquele ponto de junção em que a verdade dos fatos quer ser tão somente a verdade de um mundo que almeja explodir geografias, destinos, mapas – espécie de gramática expositiva do chão – descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas leituras não era a beleza das frases, mas a doença delas (Manuel de Barros). Incansavelmente a vida é lavrada em uma alegoria de que o tempo da leitura pode ser o mesmo da lavoura, uma trajetória que pode brotar em qualquer ponto entre preparar o solo e colher o alimento. Muito menos que isso compreendido, visto habitar a repetição e a intensidade de dias banais: a mãe e o seu silêncio – onde para a mulher falar é prata, calar é ouro; o pai e o semblante enraizado, endurecido – estudar é coisa para homem, embora ele mesmo não tenha podido fazê-lo.

Está tudo ali, sem ser uma definição, nem mesmo em partes menores, da vida e do mundo; sequer uma sublevação: nenhum ato é mais importante do que outro, mesmo no momento em que o pai é tomado de emoção com a leitura inesperada da carta do irmão feita por Luiza; não há ambivalências aí, há a simplicidade do ato, residindo aí toda beleza do filme: ele não quer recuperar uma cronologia histórica, nem desfraldar a bandeira iluminista. Fala apenas das coisas como elas são com a inflexão próxima de quando se lê um belo romance ou se descobre um bom poema – ou um filme singular.



Um filme de Cássio Pereira dos Santos
filme na internet: http://www.vimeo.com/6199557 
Juliete Oliveira
Salgueiro - PE janeiro 2011

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Orquestrar o Rio de Janeiro
O que significa uma equipe de reportagem desembarcar no Alemão junto com a polícia? Como se dá tal encontro ou incorporação? Com que fim? Este encadeamento de perguntas não comporta na verdade a complexidade que parece enfatizar. Ele escamoteia e embota ainda mais os fatos e o raciocínio. Em meio a tantos jargões (“demonstração de força”, “recuperar o controle”, “ocupar território”) e por causa de um deles, justamente o que escapa mais ao discurso militar, talvez seja preferível pensar que a Vila Cruzeiro tenha sido apenas o ensaio de um grande concerto que se daria horas depois. O lugar se tornou simbólico desde que um orquestrante foi morto ali durante uma incursão pessoal. Agora a maior apresentação, de todos os tempos, aconteceria no Alemão. Em mais uma sensacional cobertura da grande mídia a cidade toda veria e escutaria. Os moradores nervosos, aflitos. O suor escorrendo sem tempo para secar a testa. Nos cômodos sombrios quantos esperariam, em silêncio? Logo iria começar. A operação, muito bem orquestrada, estava sendo anunciada na véspera como a continuação final de “Tropa de Elite 2”. Dessa vez a sensação de justiça não poderia ser menor do que antes. Com a possibilidade de os criminosos serem aniquilados para sempre, todos deviam estar sentindo o mundo vibrar na mão. Apenas a orquestra não movia um só músculo. Tem de ser hoje. Dias depois as chuvas ocupariam a cena. Até aqui ninguém podia dizer quando chegaria o temporal, mas ele viria, tão certo como os campos floridos da primavera, ele sempre vem. Enquanto isso, no Alemão, todos esquadrinhavam. Antes do entardecer a orquestra já deveria ter acabado sua apresentação. E a vida estaria desbloqueda. Na penumbra do quarto ou na densa dureza das ruas, todos eram obrigados a esperar. Impossível calcular o tempo entre um e outro relâmpago. Aquele primeiro ao menos esvoejaria imprecisa esperança. Quinze dias, um mês depois o outro. A chuva a se esticar sobre a terra. A terra movendo-se no ritmo da morte. Os comentaristas não estabeleceriam nenhuma conexão entre os fatos. Ainda que a cobertura da ocupação se estendesse pelos dias e em todas as direções. Coisas assim é bom que irrompam de repente, entrecortadas, adversas. “Fatos isolados”. É o que todo repórter e todo político relincha. Limitados pela zona de luz de tamanha sensatez. Uma ou outra vibração quase sempre repetida toma lugar da indignação. Que esta foi a última vez; que a partir de agora tudo vai melhorar; que estamos no caminho certo... O Estado democrático e suas legitimidades. Com ele uma coisa ruim até pode terminar, mas em seguida outra está começando, inevitável. Quem poderia saber das chuvas, enchentes e deslizamentos de verão? Todos pegos pela novidade e pelo ineditismo próprio das estações. Ninguém a se responsabilizar, pelo tanto que se revestem dos discursos morais – que cortariam a mão antes de pegar a propina não fosse essa uma prática “normal”. Como ainda o Rio de Janeiro pode ser afastado de tamanha pobreza? Com paredes “acústicas”? O Rio de Janeiro surpreendentemente tão empobrecido quanto o mais longínquo município do norte do Brasil. Em sua infraestrutura sim, mas também em seu espírito. Na dissimulação afetada dos dirigentes, que forjam uma cidade de exacerbada desigualdade como jamais foi – sem que esta seja mais uma interminável frase nostálgica, que tenta impor o prestígio de outros tempos. A frase suscita as diferenças sociais, os conflitos pessoais, os concentrados privilégios. E é esta cidade apequenada, desorquestrada do futuro, que se inclina ora para aplaudir ora para lamentar os repetidos concertos de dramáticas possibilidades.


Ney Ferraz Paiva, jan 2011
imagem: Walton Hoffmann

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

As visões de Joana
Joana Cabral em seu recém lançado “Fragmentos do Desencontro” toca a face da verdade material, ainda há pouco vista e comentada, provada, querida por milhões de apostadores da mega sena da virada. Especificamente no conto “banquete vazio” que abre o livro, o protagonista é tomado pelo prazer ao descobrir-se diante de uma vultosa soma de dinheiro, a princípio sem dono.

Uma incipiente pontinha de receio ao se apossar de algo para o qual não precisou fazer nenhum esforço, só ensaia vir a baile entre os sentimentos experimentados por ele, que logo se acostuma à sensação de que é o feliz proprietário de algumas centenas de notas novinhas que poderão comprar uma série de coisas. Nietzsche pôs fim à coexistência pacífica entre verdade e valor, concebida por F. A. Lange. Colocando o valor a disposição da verdade, enquanto Lange queria salvar os valores do ataque das verdades, em Nietzsche contrariamente, as verdades são engolidas pelo vitalismo das valorações. Então a verdade será apenas a ilusão na qual nos sentimos bem e que nos serve.

Valor é o que Joana escreve sem escrever, é o que busca questionar, apontar? Ora, se de repente, vivêssemos em uma sociedade em que ninguém precisasse fazer nenhum esforço, para conseguir recursos financeiros, como seria possível dar o próximo passo? Quem abasteceria o caixa eletrônico? Quem plantaria no campo o café para que pudéssemos, todos sem exceção, tomar o expresso? Ou ainda quem escreveria ficções para o nosso deleite?

Quando Kafka escreve em seu conto, “um artista da fome”, que nas últimas décadas o interesse por esse tipo de espetáculo arrefeceu bastante, ele o usa para uma ótica da mudança na sociedade. A humanidade se assombra e se admira muito com aquilo que lhe é mais inerente, a fome quando esteve mais perto, mais ameaçadora se fez espetacular. Observar os efeitos dela no outro, como em um tubo de ensaio foi por muito tempo prazeroso, pela possibilidade de que viesse a ser experimentada por mim.

Ainda no conto de Kafka quando o último artista da fome morre por não existir mais nenhum alimento que lhe seja bom ao paladar, ele é substituído por uma pantera, mais uma vez o escritor tcheco se antecipa na visão, na cosmovisão: oferece uma prévia do que veríamos nas décadas posteriores - a natureza como espetáculo, aprisionada para o deleite. Hoje refutamos esses hábitos queremos reservas para abrigar elefante, leões, micos e araras raras.

Joana nos expõe ao que todos queremos, uma vez que na verdade o ideal é apenas um ídolo, reluz no brilho fácil do ouro falso. E para que serviria, pois a literatura?

Juliete Oliveira
Salgueiro-PE, 10 de janeiro de 2010

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

O Cortador de água
Foi num dia de verão, há alguns anos, numa cidadezinha do leste da França, talvez três anos, ou quatro, à tarde. Um empregado da companhia de fornecimento de água foi cortar a água em casa de pessoas que estavam um pouco à parte, um pouco diferentes dos outros, digamos, retardadas. Moravam numa estação fora de uso – o T.G.V.* passava pela região – que a comuna lhe propiciara. O homem fazia pequenos trabalhos para as pessoas do lugar. Provavelmente contavam com um auxílio da prefeitura. Tinham dois filhos, de quatro anos e de um ano e meio.
Defronte à casa deles, muito perto, passava aquela linha do T.G.V. Eram pessoas que não tinham condições de pagar suas contas de gás, eletricidade e água. Viviam numa grande pobreza. E, um dia, chegou um homem para cortar a água na estação onde viviam. Viu a mulher, silenciosa.  O marido não estava em casa.  A mulher um pouco retardada com uma criança de quatro anos e um bebê de um ano e meio. O empregado era um homem aparentemente como qualquer homem. Esse homem, denominei-o o Cortado de água. Ele viu que era em pleno verão. Sabia que era um verão muito quente porque o vivia. Viu a criança de um ano e meio. Havia recebido ordem de cortar a água, foi o que fez. Respeitou seu emprego de tempo: cortou a água. Deixou a mulher sem água para dar banho nas crianças, para lhes dar de beber.
Na mesma noite, aquela mulher e seu marido pegaram as duas crianças e foram se deitar sobre os trilhos do T.G.V. que passava defronte à estação fora de uso. Morreram juntos. Cem metros a vencer. Deitar-se. Sossegar as crianças. Adormecê-las talvez com canções.
O trem parou, dizem.
Pronto, a história é essa.
O empregado falou. Disse que tinha ido cortar a água. Não disse que havia visto a criança, que a criança estava lá, com a mãe. Disse que ela não tinha se defendido, que não tinha lhe pedido para cortar a água. É só o que se sabe.
Tomo esse relato que acabo de fazer e de repente ouço minha voz – ela não fez nada, não se defendeu. É isso. Deve-se saber disso pelo empregado da companhia das águas. Ele não tinha razão alguma para não fazê-lo, visto que ela não lhe pediu que não o fizesse. Será isso que devemos apreender? É uma história de deixar louco.
Prossigo. Tento ver. Ela não disse ao empregado da companhia das águas que havia duas crianças a considerar, pois ele estava vendo as duas crianças, nem que o verão estava quente, pois ele estava nesse verão quente. Ela deixou que o Cortador de água se fosse. Ficou sozinha com os filhos por um momento, depois foi à cidade. Foi até um restaurante que conhecia. Nesse restaurante, não sabemos o que disse à proprietária. Não sei o que ela disse. Não sei o que a proprietária falou. O que se sabe é que ela não falou da morte. Talvez ela tenha contado a história, mas não disse que queria se matar, matar os dois filhos, o marido e ela mesma.
Como os jornalistas não sabiam o que ela dissera à proprietária do restaurante, deixaram de assinalar esse acontecimento. Entendo por “acontecimento” o instante em que essa mulher saiu da casa dela com os dois filhos, depois de ter se decido pela morte de toda a família, com um objetivo que ignoramos, de fazer alguma coisa ou dizer alguma coisa que ela tinha a fazer ou dizer antes de morrer.
Nesse ponto, restabeleço o silêncio da história, entre o momento do corte da água e o momento em que ela voltou do restaurante. Ou seja, restabeleço a literatura com seu silêncio profundo. É isso que me faz avançar, é isso que me faz penetrar na história; sem isso, fico do lado de fora. Ela teria podido esperar o marido e anunciar-lhe a notícia da morte que decidira. Mas não. Foi até à cidade, foi àquele restaurante.
Se essa mulher tivesse se explicado, a coisa não teria me interessado. Christine Villemin, que não é capaz de alinhar duas frases, me fascina, porque também tem o que essa mulher tem: a violência insondável. Existe um comportamento instintivo que podemos tentar explorar, que podemos restituir ao silêncio. Restituir ao silêncio um comportamento masculino é muito mais difícil, muito mais falso, porque os homens não são o silêncio. Em épocas passadas, em épocas distantes, há milênios, o silêncio são as mulheres. Portanto a literatura são as mulheres. Ou bem se fala delas na literatura ou elas próprias o fazem, mas são elas.
Portanto, essa mulher a respeito de quem se imaginava que não falaria, visto que jamais falava, deve ter falado. Não deve ter falado de sua decisão. Não. Deve ter dito alguma coisa em lugar disso, em lugar de sua decisão, e que, para ela, era seu equivalente e ficaria sendo seu equivalente para todas as pessoas que ficassem sabendo da história. Talvez fosse uma frase sobre o calor. Ela teria ficado sagrada.
É nesses momentos que a linguagem atinge sua máxima potência. Seja o que for que ela disse à proprietária do restaurante, suas palavras diziam tudo. Aquelas três palavras, as últimas que precederam o empreendimento da morte, eram o equivalente do silêncio daquelas pessoas durante sua vida. Essas palavras, ninguém as guardou.
Isso acontece todos os dias do mesmo jeito na vida, no momento de uma partida, de uma morte, de um suicídio que as pessoas não imaginam. As pessoas esquecem o que foi dito, o que precedeu e deveria tê-las alertado.
Os quatro foram se deitar sobre os trilhos do T.G.V. defronte da estação, cada um com um filho nos braços, e esperavam um trem. O Cortador de água não teve nenhum problema.
Acrescento à história do Cortador de água que aquela mulher – que diziam retardada –, seja como for, sabia alguma coisa de modo definitivo: é que ela nunca mais poderia, assim como nunca tinha podido, contar com quem quer que fosse para tirá-la da situação em que estava com a família. Que estava abandonada por todos, por toda a sociedade, e que só tinha uma coisa a fazer, morrer. Ela sabia disso. É um conhecimento terrível, muito sério, muito profundo, que ela tinha. Portanto, mesmo o retardamento dessa mulher, a partir desse suicídio, seria algo a considerar, caso se falasse dela alguma vez, coisa que jamais se fará.
Sem dúvida é aqui, pela última vez, que sua memória será evocada. Eu ia dizer o nome dela, mas não sei qual é.
O caso foi arquivado.
Fica na cabeça a sede fresca e viva de uma criança no verão quente demais a poucas horas da morte e o andar em círculos da jovem mãe retardada à espera da hora.
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* trem de grande velocidade
Marguerite Duras, A vida material, Tradução Heloísa Jahan, Editora Globo, 1989.