quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Orquestrar o Rio de Janeiro
O que significa uma equipe de reportagem desembarcar no Alemão junto com a polícia? Como se dá tal encontro ou incorporação? Com que fim? Este encadeamento de perguntas não comporta na verdade a complexidade que parece enfatizar. Ele escamoteia e embota ainda mais os fatos e o raciocínio. Em meio a tantos jargões (“demonstração de força”, “recuperar o controle”, “ocupar território”) e por causa de um deles, justamente o que escapa mais ao discurso militar, talvez seja preferível pensar que a Vila Cruzeiro tenha sido apenas o ensaio de um grande concerto que se daria horas depois. O lugar se tornou simbólico desde que um orquestrante foi morto ali durante uma incursão pessoal. Agora a maior apresentação, de todos os tempos, aconteceria no Alemão. Em mais uma sensacional cobertura da grande mídia a cidade toda veria e escutaria. Os moradores nervosos, aflitos. O suor escorrendo sem tempo para secar a testa. Nos cômodos sombrios quantos esperariam, em silêncio? Logo iria começar. A operação, muito bem orquestrada, estava sendo anunciada na véspera como a continuação final de “Tropa de Elite 2”. Dessa vez a sensação de justiça não poderia ser menor do que antes. Com a possibilidade de os criminosos serem aniquilados para sempre, todos deviam estar sentindo o mundo vibrar na mão. Apenas a orquestra não movia um só músculo. Tem de ser hoje. Dias depois as chuvas ocupariam a cena. Até aqui ninguém podia dizer quando chegaria o temporal, mas ele viria, tão certo como os campos floridos da primavera, ele sempre vem. Enquanto isso, no Alemão, todos esquadrinhavam. Antes do entardecer a orquestra já deveria ter acabado sua apresentação. E a vida estaria desbloqueda. Na penumbra do quarto ou na densa dureza das ruas, todos eram obrigados a esperar. Impossível calcular o tempo entre um e outro relâmpago. Aquele primeiro ao menos esvoejaria imprecisa esperança. Quinze dias, um mês depois o outro. A chuva a se esticar sobre a terra. A terra movendo-se no ritmo da morte. Os comentaristas não estabeleceriam nenhuma conexão entre os fatos. Ainda que a cobertura da ocupação se estendesse pelos dias e em todas as direções. Coisas assim é bom que irrompam de repente, entrecortadas, adversas. “Fatos isolados”. É o que todo repórter e todo político relincha. Limitados pela zona de luz de tamanha sensatez. Uma ou outra vibração quase sempre repetida toma lugar da indignação. Que esta foi a última vez; que a partir de agora tudo vai melhorar; que estamos no caminho certo... O Estado democrático e suas legitimidades. Com ele uma coisa ruim até pode terminar, mas em seguida outra está começando, inevitável. Quem poderia saber das chuvas, enchentes e deslizamentos de verão? Todos pegos pela novidade e pelo ineditismo próprio das estações. Ninguém a se responsabilizar, pelo tanto que se revestem dos discursos morais – que cortariam a mão antes de pegar a propina não fosse essa uma prática “normal”. Como ainda o Rio de Janeiro pode ser afastado de tamanha pobreza? Com paredes “acústicas”? O Rio de Janeiro surpreendentemente tão empobrecido quanto o mais longínquo município do norte do Brasil. Em sua infraestrutura sim, mas também em seu espírito. Na dissimulação afetada dos dirigentes, que forjam uma cidade de exacerbada desigualdade como jamais foi – sem que esta seja mais uma interminável frase nostálgica, que tenta impor o prestígio de outros tempos. A frase suscita as diferenças sociais, os conflitos pessoais, os concentrados privilégios. E é esta cidade apequenada, desorquestrada do futuro, que se inclina ora para aplaudir ora para lamentar os repetidos concertos de dramáticas possibilidades.


Ney Ferraz Paiva, jan 2011
imagem: Walton Hoffmann

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

As visões de Joana
Joana Cabral em seu recém lançado “Fragmentos do Desencontro” toca a face da verdade material, ainda há pouco vista e comentada, provada, querida por milhões de apostadores da mega sena da virada. Especificamente no conto “banquete vazio” que abre o livro, o protagonista é tomado pelo prazer ao descobrir-se diante de uma vultosa soma de dinheiro, a princípio sem dono.

Uma incipiente pontinha de receio ao se apossar de algo para o qual não precisou fazer nenhum esforço, só ensaia vir a baile entre os sentimentos experimentados por ele, que logo se acostuma à sensação de que é o feliz proprietário de algumas centenas de notas novinhas que poderão comprar uma série de coisas. Nietzsche pôs fim à coexistência pacífica entre verdade e valor, concebida por F. A. Lange. Colocando o valor a disposição da verdade, enquanto Lange queria salvar os valores do ataque das verdades, em Nietzsche contrariamente, as verdades são engolidas pelo vitalismo das valorações. Então a verdade será apenas a ilusão na qual nos sentimos bem e que nos serve.

Valor é o que Joana escreve sem escrever, é o que busca questionar, apontar? Ora, se de repente, vivêssemos em uma sociedade em que ninguém precisasse fazer nenhum esforço, para conseguir recursos financeiros, como seria possível dar o próximo passo? Quem abasteceria o caixa eletrônico? Quem plantaria no campo o café para que pudéssemos, todos sem exceção, tomar o expresso? Ou ainda quem escreveria ficções para o nosso deleite?

Quando Kafka escreve em seu conto, “um artista da fome”, que nas últimas décadas o interesse por esse tipo de espetáculo arrefeceu bastante, ele o usa para uma ótica da mudança na sociedade. A humanidade se assombra e se admira muito com aquilo que lhe é mais inerente, a fome quando esteve mais perto, mais ameaçadora se fez espetacular. Observar os efeitos dela no outro, como em um tubo de ensaio foi por muito tempo prazeroso, pela possibilidade de que viesse a ser experimentada por mim.

Ainda no conto de Kafka quando o último artista da fome morre por não existir mais nenhum alimento que lhe seja bom ao paladar, ele é substituído por uma pantera, mais uma vez o escritor tcheco se antecipa na visão, na cosmovisão: oferece uma prévia do que veríamos nas décadas posteriores - a natureza como espetáculo, aprisionada para o deleite. Hoje refutamos esses hábitos queremos reservas para abrigar elefante, leões, micos e araras raras.

Joana nos expõe ao que todos queremos, uma vez que na verdade o ideal é apenas um ídolo, reluz no brilho fácil do ouro falso. E para que serviria, pois a literatura?

Juliete Oliveira
Salgueiro-PE, 10 de janeiro de 2010

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

O Cortador de água
Foi num dia de verão, há alguns anos, numa cidadezinha do leste da França, talvez três anos, ou quatro, à tarde. Um empregado da companhia de fornecimento de água foi cortar a água em casa de pessoas que estavam um pouco à parte, um pouco diferentes dos outros, digamos, retardadas. Moravam numa estação fora de uso – o T.G.V.* passava pela região – que a comuna lhe propiciara. O homem fazia pequenos trabalhos para as pessoas do lugar. Provavelmente contavam com um auxílio da prefeitura. Tinham dois filhos, de quatro anos e de um ano e meio.
Defronte à casa deles, muito perto, passava aquela linha do T.G.V. Eram pessoas que não tinham condições de pagar suas contas de gás, eletricidade e água. Viviam numa grande pobreza. E, um dia, chegou um homem para cortar a água na estação onde viviam. Viu a mulher, silenciosa.  O marido não estava em casa.  A mulher um pouco retardada com uma criança de quatro anos e um bebê de um ano e meio. O empregado era um homem aparentemente como qualquer homem. Esse homem, denominei-o o Cortado de água. Ele viu que era em pleno verão. Sabia que era um verão muito quente porque o vivia. Viu a criança de um ano e meio. Havia recebido ordem de cortar a água, foi o que fez. Respeitou seu emprego de tempo: cortou a água. Deixou a mulher sem água para dar banho nas crianças, para lhes dar de beber.
Na mesma noite, aquela mulher e seu marido pegaram as duas crianças e foram se deitar sobre os trilhos do T.G.V. que passava defronte à estação fora de uso. Morreram juntos. Cem metros a vencer. Deitar-se. Sossegar as crianças. Adormecê-las talvez com canções.
O trem parou, dizem.
Pronto, a história é essa.
O empregado falou. Disse que tinha ido cortar a água. Não disse que havia visto a criança, que a criança estava lá, com a mãe. Disse que ela não tinha se defendido, que não tinha lhe pedido para cortar a água. É só o que se sabe.
Tomo esse relato que acabo de fazer e de repente ouço minha voz – ela não fez nada, não se defendeu. É isso. Deve-se saber disso pelo empregado da companhia das águas. Ele não tinha razão alguma para não fazê-lo, visto que ela não lhe pediu que não o fizesse. Será isso que devemos apreender? É uma história de deixar louco.
Prossigo. Tento ver. Ela não disse ao empregado da companhia das águas que havia duas crianças a considerar, pois ele estava vendo as duas crianças, nem que o verão estava quente, pois ele estava nesse verão quente. Ela deixou que o Cortador de água se fosse. Ficou sozinha com os filhos por um momento, depois foi à cidade. Foi até um restaurante que conhecia. Nesse restaurante, não sabemos o que disse à proprietária. Não sei o que ela disse. Não sei o que a proprietária falou. O que se sabe é que ela não falou da morte. Talvez ela tenha contado a história, mas não disse que queria se matar, matar os dois filhos, o marido e ela mesma.
Como os jornalistas não sabiam o que ela dissera à proprietária do restaurante, deixaram de assinalar esse acontecimento. Entendo por “acontecimento” o instante em que essa mulher saiu da casa dela com os dois filhos, depois de ter se decido pela morte de toda a família, com um objetivo que ignoramos, de fazer alguma coisa ou dizer alguma coisa que ela tinha a fazer ou dizer antes de morrer.
Nesse ponto, restabeleço o silêncio da história, entre o momento do corte da água e o momento em que ela voltou do restaurante. Ou seja, restabeleço a literatura com seu silêncio profundo. É isso que me faz avançar, é isso que me faz penetrar na história; sem isso, fico do lado de fora. Ela teria podido esperar o marido e anunciar-lhe a notícia da morte que decidira. Mas não. Foi até à cidade, foi àquele restaurante.
Se essa mulher tivesse se explicado, a coisa não teria me interessado. Christine Villemin, que não é capaz de alinhar duas frases, me fascina, porque também tem o que essa mulher tem: a violência insondável. Existe um comportamento instintivo que podemos tentar explorar, que podemos restituir ao silêncio. Restituir ao silêncio um comportamento masculino é muito mais difícil, muito mais falso, porque os homens não são o silêncio. Em épocas passadas, em épocas distantes, há milênios, o silêncio são as mulheres. Portanto a literatura são as mulheres. Ou bem se fala delas na literatura ou elas próprias o fazem, mas são elas.
Portanto, essa mulher a respeito de quem se imaginava que não falaria, visto que jamais falava, deve ter falado. Não deve ter falado de sua decisão. Não. Deve ter dito alguma coisa em lugar disso, em lugar de sua decisão, e que, para ela, era seu equivalente e ficaria sendo seu equivalente para todas as pessoas que ficassem sabendo da história. Talvez fosse uma frase sobre o calor. Ela teria ficado sagrada.
É nesses momentos que a linguagem atinge sua máxima potência. Seja o que for que ela disse à proprietária do restaurante, suas palavras diziam tudo. Aquelas três palavras, as últimas que precederam o empreendimento da morte, eram o equivalente do silêncio daquelas pessoas durante sua vida. Essas palavras, ninguém as guardou.
Isso acontece todos os dias do mesmo jeito na vida, no momento de uma partida, de uma morte, de um suicídio que as pessoas não imaginam. As pessoas esquecem o que foi dito, o que precedeu e deveria tê-las alertado.
Os quatro foram se deitar sobre os trilhos do T.G.V. defronte da estação, cada um com um filho nos braços, e esperavam um trem. O Cortador de água não teve nenhum problema.
Acrescento à história do Cortador de água que aquela mulher – que diziam retardada –, seja como for, sabia alguma coisa de modo definitivo: é que ela nunca mais poderia, assim como nunca tinha podido, contar com quem quer que fosse para tirá-la da situação em que estava com a família. Que estava abandonada por todos, por toda a sociedade, e que só tinha uma coisa a fazer, morrer. Ela sabia disso. É um conhecimento terrível, muito sério, muito profundo, que ela tinha. Portanto, mesmo o retardamento dessa mulher, a partir desse suicídio, seria algo a considerar, caso se falasse dela alguma vez, coisa que jamais se fará.
Sem dúvida é aqui, pela última vez, que sua memória será evocada. Eu ia dizer o nome dela, mas não sei qual é.
O caso foi arquivado.
Fica na cabeça a sede fresca e viva de uma criança no verão quente demais a poucas horas da morte e o andar em círculos da jovem mãe retardada à espera da hora.
____________________________________
* trem de grande velocidade
Marguerite Duras, A vida material, Tradução Heloísa Jahan, Editora Globo, 1989.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Lavoura de muitas covas, tão cobiçada?

"A colheita é geral, o capinar é sozinho"
João Guimarães Rosa


Segundo Eisenstein, o primeiro movimento vai da imagem ao pensamento, do preceito ao conceito. A imagem-movimento (célula) é essencialmente múltipla e divisível, conforme os objetos, que são suas partes integrantes e entre os quais ela se estabelece. É exato esse movimento que se introduz quando se visualiza a região amazônica. Sim falo dela como de uma região pela consciência que tenho das partes que a constituem. Nascer e crescer no estado do Pará, o segundo maior em extensão territorial do Brasil, pode ser um privilégio ou um sofrimento, no meu caso, encaro como responsabilidade e oportunidade para falar de afeto, troca, coletividade, intensidade, experimentação, desterritorialização.

Foi esse exercício de sair, viajar, deixar o território que me possibilitou as armas visuais e conceituais para reforçar a amizade em detrimento da fraternidade pelo Pará e em extensão pela Amazônia. Pois, esse modo de relacionamento inventa a alteridade e se distancia do fraterno que, por sua vez, implica num processo de homogeneização, suprimindo as diferenças e não permitindo a fusão antropofágica das singularidades – revela-se uma força exterminadora do indivíduo. E nesse ponto empreenderemos curso para falar de algo pouco discutido quando se fala na Amazônia. O povo, a população – considerada apenas como densidade demográfica. O que pensa essa parte da paisagem sobre tanta singularidade?

Viver em um território alvo de cobiça, as mais variadas, não é algo acalentador. Ser considerado responsável por uma das maiores riquezas de biodiversidade da terra, não é algo corriqueiro. Viver dentro do pulmão, fígado, estômago e intestino dos outros é algo que sufoca. Possuir uma das maiores bacias hidrográficas do planeta – água doce, potável, pode ser asfixiante, matar de sede. Ser acusado pelo mundo de grilagem, pistolagem, biopirataria e os cambaus, o tempo todo é desafiador. Ser visto como alguém incapaz de cuidar do próprio quintal é amesquinhador.

Esse efeito dinâmico das imagens que recorrem desse território atravessa o mundo, gera polêmicas, pelo simples fato que, além de a Amazônia ser responsável em parte pelo “equilíbrio” da terra ela, também é um enorme “celeiro”, uma quase inesgotável fonte de recursos naturais, e quando o que está em jogo é o metal – ouro, ferro, manganês, agora industrializados pelas inúmeras siderúrgicas que povoam Marabá/PA, o que menos importa são os laços de amizade. Foi assim quando o então governador do Pará, Almir Gabriel, mandou desobstruir a rodovia PA-150, levando para o local 155 policiais militares – nenhum possuía identificação durante o ato, o que resultou na morte de 19 sem terra. Ora, sem terra?

De quem é a Terra? No Pará a terra não é definitivamente de quem mora nela! Ela é do latifúndio. Talvez soe anacrônico esse adjetivo, mas é assim. No Pará a terra é de quem tem bala, não na agulha, mas no cano do três oitão, como dizem por lá. No Pará a terra é da União – devoluta. Quando ouço esse termo meus ouvidos voltam-se aos anos oitenta: o Pará era área de segurança nacional e a palavra “posseiro” era proibida, falada quase num sussurro. E então a imagem que a expressão DEVOLUTA sucitava, é exatamente a que o trocadilho aponta sem nenhuma conotação poética – “devo o luto”. O luto de tantas mulheres, mães, filhas, esposas, viúvas. E ainda: no Pará hoje a terra é do gado, da soja, da exploração da madeira – não se deixem enganar pelos números de desmatamento reduzido, recém publicado. O que se saberá a partir desses números (tantas vezes maquiados) sobre os trabalhadores do transporte da madeira? E este é apenas um dos inúmeros itens da ilegalidade que o Estado promove na Amazônia. Esses homens cortam centenas de quilômetros floresta adentro para recolher toras de madeira. E eles, o que sabem do potencial de biomassa e do seqüestro de carbono existente ali? E ainda: da quantidade de fármacos existentes nas tenras folhas das árvores e nos arbustos amazônicos? Números imprecisos e anônimos que mais embotam do que elucidam e que a floresta engole e regurgita.

No Pará o IDH é pelo menos 20% abaixo do estabelecido pelos organismos internacionais. O índice de analfabetismo é singular, a criminalidade altíssima. E o fosso que separa riqueza e pobreza é mais fundo. As estradas tantas vezes asfaltadas – no papel e nos orçamentos, não levam às belas cidades, ao paraíso que se difunde. Levam, ao contrário, à mais descaso, abandono, falência pública, pobreza. Isso tudo não é como um filme de Godard, Salve-se quem puder (a vida), quando se aborda a visão dos agonizantes (“não estou morto, pois minha vida não passou ante meus olhos”)? Nesse caso seria preciso seguir a direção contrária. Dilatar a imagem em vez de contrair. Descrer dos números e escutar, escutar as vozes de uma outra configuração que os povos da floresta propõem ao mundo: o uso coletivo, ecológico, afetivo, imanente, ativo das riquezas da Amazônia.

Juliete Oliveira
Salgueiro-PE

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Destruição dos rios: ameaça é crescente


Por Lúcio Flávio Pinto*

Desde as primeiras letras aprendemos que a bacia do rio Amazonas é a maior do mundo. Ninguém nunca duvidou que ele era o mais caudaloso do planeta, mas se questionava essa primazia quanto ao seu comprimento. Hoje a controvérsia está esclarecida: com 6.937 quilômetros de extensão, o Amazonas supera em 140 quilômetros o Nilo, que perdeu essa liderança multissecular.

Qualquer número em relação ao "rio-mar" (ou o "mar doce" dos espanhóis, os primeiros europeus a navegá-lo) é grandioso. Ele lança, em média, 170 milhões de litros de água por segundo no Oceano Atlântico. Suas águas barrentas podem avançar 100 quilômetros além da barreira de águas salgadas e projetar seus sedimentos em suspensão no rumo norte, até o litoral da Flórida, nos Estados Unidos. São milhões de toneladas de nutrientes, arrastados desde a cordilheira dos Andes, onde nasce o grande rio, e engrossados por seus afluentes, que também se posicionam entre os maiores cursos d’água que existem.

Essas grandezas têm servido de inspiração para o ufanismo nacional, mas não para tratar melhor os nossos gigantes aquáticos. Nenhum brasileiro -ou mesmo o nativo- dá ao Amazonas a importância que os egípcios conferem ao Nilo. O Egito não existiria sem a faina incansável do seu grande rio, a fertilizar suas margens, cercadas por desertos hostis, e civilizar o país. Por isso, é considerado sagrado.

Os brasileiros parecem acreditar que, por ser monumental, abrangendo 7 milhões de quilômetros quadrados do continente sul-americano (quase dois terços em território brasileiro), a bacia amazônica foi blindada pela mãe natureza contra as hostilidades do homem. Já está na hora de se pôr fim a essa ilusão, acabando com a insensibilidade geral, que se alimenta do desconhecimento e da desinformação. O Amazonas está sob ameaça.

Não uma, mas várias. Um dos capítulos mais recentes está sendo travado diante da maior cidade da Amazônia, Manaus, a capital do Estado do Amazonas, com seus 1,7 milhão de habitantes (2 milhões com as duas cidades vizinhas). No dia 5, o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) decretou o tombamento do encontro das águas do Amazonas com o Negro, um dos seus principais tributários da margem esquerda.

O desavisado pode até achar que o ato é de significado museológico, para efeito acadêmico. O processo do tombamento, porém, se arrastou durante dois anos. Deveria ser simples: a área de 30 quilômetros quadrados, o polígono de terra e água onde ocorre a junção dos dois enormes rios, é cenário para o maior de todos se encontrar com o maior rio de águas negras do mundo. Na margem direita, o barrento Solimões pressiona o rio ao lado, que ganhou seu nome pela inusitada cor das suas águas, num entrevero que pode se estender por 10 quilômetros lineares nas duas direções.

É um encontro ciclópico. A vazão do Solimões nesse ponto (onde justamente muda pela última vez de nome, passando a ser Amazonas) é de 135 milhões de litros de água por segundo. A do Negro, que chega ao fim do seu percurso de 1.700 quilômetros, a partir da Venezuela, é de 50 milhões de litros. Encorpado, o Amazonas segue em frente até a foz, dois mil quilômetros abaixo. Não sem antes oferecer o espetáculo das duas cores líquidas em paralelo ou em fusão tumultuada, para a admiração ou o espanto de uma crescente legião de turistas.

O problema é que no ponto de encontro dos rios está Manaus, com 60% da população e 90% da riqueza de todo Estado do Amazonas, o maior do Brasil, com 20% do território nacional. Desde quase meio século atrás, Manaus deixou de ser o produto do Amazonas para ser o efeito da Zona Franca, um entreposto comercial e um núcleo industrial que só se tornaram possíveis pela renúncia da União a recolher o imposto sobre a importação das empresas instaladas na remota paragem.

Hoje, Manaus é a origem do maior fluxo de contêineres do país. Motocicletas, computadores, geladeiras e muitos outros produtos são mandados para o sul do país, principalmente São Paulo, e espalhados para outros destinos. O velho porto flutuante, que os ingleses construíram no início do século XX para atender a exportação de borracha (que chegou a ser responsável por 40% do comércio exterior brasileiro), não serve para essa demanda nova.

A pressão é tão forte que alguns terminais privados, legais ou não, surgiram na orla da cidade. O maior deles, o Porto Chibatão, foi parcialmente arrastado, no mês passado, pelas águas do Negro, a apenas três quilômetros do seu encontro com o Amazonas, com mortes e a perda de diversos contêineres. Qualquer ribeirinho sabia que o local era contra-indicado para o fluxo de carga que o precário terminal movimentava.

Um novo, muito maior e mais adequado, está sendo projetado para uma área de 100 mil metros quadrados, na qual poderão ser estocados 250 mil contêineres. Antes desse mega-terminal, porém, uma subsidiária da mineradora Vale (o nome privatizado da Companhia Vale do Rio Doce, quando estatal) começou a construir seu próprio porto, com investimento de 220 milhões de reais. Nele deverá operar seu novo navio cargueiro, com capacidade para 1.500 contêineres, e outros cinco já encomendados, por algo como meio bilhão de reais, multiplicando sua capacidade de transporte.

Esses números pareciam muito mais importantes do que a localização do porto, na província paleontológica das Lages, próximo de uma tomada de água para 300 mil habitantes da cidade e de um lago, o último do rio Negro, importante para milhares de moradores de um bairro que se formou em torno dele.

O processo que levou ao desmoronamento do Porto Chibatão seguiria sua lógica malsã se não tivesse surgido a iniciativa de tombar o encontro das águas. Ninguém se aventura a dizer-se contra o tombamento, mas ele provocou uma batalha judicial que chegou a Brasília, com vitórias e derrotas, protelações e pressões, até que, no dia 5, finalmente o Iphan assumiu a tutela sobre o encontro das águas.

Qualquer novo projeto que a partir de agora se fixe na área do polígono terá de ser submetido ao instituto, além de obter a licença ambiental. Certamente haverá quem se indigne com o fato: o raciocínio automático é de que a razão (ou anti-razão) econômica prevaleça sobre qualquer outro tipo de consideração - e sempre com vantagens para o investidor.

A decisão do Iphan, que ainda vai sofrer questionamento judicial, não bloqueia a evolução dos empreendimentos produtivos na região, mas talvez ajude o país a se dar conta de que destruindo os recursos naturais, em especial aqueles que representam uma grandeza única, é a Amazônia que estão destruindo. Substituem a galinha dos ovos de ouro por um cavalo de Tróia. Na mitologia ou na realidade, sabemos qual será o desfecho.

*Jornalista paraense. Publica o Jornal Pessoal (JP)

(Envolverde/Adital)

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Um comediante mid


Um comediante midiático



As máquinas desejantes são máquinas binárias, de regra binária ou regime associativo; uma máquina está sempre ligada a outra. A síntese produtiva, a produção de produção, tem uma forma conectiva: «El», «e depois»... É que há sempre uma máquina produtora de um fluxo e uma outra que se lhe une, realizando um corte, uma extração de fluxos (o seio/a boca). (Gilles Deleuze e Félix Guattari, O anti-édipo - capitalismo e esquizofrenia).

Lendo o texto de Ladislau Dowbor, publicado na revista eletrônica “Envolverde” a 25/10/2010, fui tocada por uma irresistível vontade de me enredar nas impressões expostas no texto e por uma daquelas coincidências impagáveis, havia tecido o seguinte comentário sobre a figura que abre o texto de Ladislau: Arnaldo Jabor. Discorri em torno da aparente unanimidade que o jornalista desfruta entre os pseudo-mídiaticos informados, aqueles que utilizam da ferramenta mais democrática que temos em mão (não é do voto que estou falando, mas de uma verdadeira máquina de guerra) – para se tornarem cada vez menos informados, ou deformados.



Arnaldo Jabor sempre a serviço do capital com um discurso disfarçado de dissonante, algo que leva ao riso, à ridicularização de temas muitas vezes relevantes, bloqueando com isso o debate, a reverberação e mobilização social em torno de temas caros à democracia. Contudo, o que poderia dizer Jabor desse “seio/boca” pensado por Deleuze/Guattari? E quem melhor alimentou as máquinas desejantes produtoras de fluxos? Junto com a resposta quase automática nós podemos pensar o Brasil como um enorme seio, belo e provocador, que deverá nos alimentar (não só aos bem nascidos, as tantas elites deste país) de todas as formas: doméstica, intelectual/científica, cultural, afetiva, artística, para o jogo, o prazer o deleite, a felicidade.


Não tivemos em muitos anos de estado democrático algo nem perto do que acontece hoje, em que a “palavra liberdade foi expulsa do pântano enganoso das bocas”, para se transformar em “algo transparente e vivo como o fogo, ou um rio”. E o que nos fornece essa liberdade? E aí penso não apenas na liberdade verborrágica, mas em algo ainda mais correlato, como a garantia do direito de ir e vir, o direito de ter acesso, o direito de trabalhar e não apenas trabalhar como um escravo da vontade e do poder do outro, mas trabalhar sob um sistema que garanta direitos fundamentais, como auxílio doença, creche, transporte etc.


Querendo ou não, foi sob esse governo que tivemos a aprovação da Lei Maria da Penha, a instituição da Secretaria Nacional de Igualdade Racial, a expansão dos auxílios aos estudantes, as Conferências de meio ambiente, de cultura, de segurança pública, de saúde, de educação e até do livro e biblioteca. Nesse governo de Luis Inácio Lula da Silva nos sentimos livres, debatemos, pensamos, tivemos apoio para criar. Aconteceu de termos ministros negro, acreano e, claro, ficamos sujeitos aos cortes de fluxos, aos enganos, à corrupção – prática defendida e aceita de forma corriqueira pela justiça, já que para crimes de colarinho branco não há punição. Para a sociedade resta se virar e compreender que a síntese produtiva se faz também dos desacertos e dos atos falhos. É o que teme Jabor?


A ele o espaço midiático para singelas teorizações. Cada um faz o que pode, embora se possa reparar de soslaio quem o contrata e a quem ele defende. Agora, sem essa de tentar colocar o país no divã, arranjar a todos essa culpa: ter votado no Lula. Ser o pai desrespeitado a nos passar um carão. E nos provar, num tortuoso comentário, que Lula é apenas um caso de dissidência das políticas do PSDB, com as quais aliciou a todos nós tanto quanto Édipo ainda é capaz de levar no papo as virgens sonhadoras. Lula chegou a 82% de aceitação isto graças aos serviços de FHC – quais mesmo estes serviços e a quem ele prestou? O que se sabe, ou melhor, o que a sociedade não quer mais rever (e que talvez tenha reduzido de vez nos créditos o nome desse senhor a uma sigla, enquanto Lula acrescentou mais este a seu emblemático nome) são os velhos capítulos de um dramalhão político, já que os avanços sociais protagonizados pelo governo Lula não admitem levantar audiência com reprises, quando muito, resgatar incautos saudosistas ou desatentos, que podem ver em Serra, dado a um tal efeito técnico, o personagem de uma boa anedota. Essa que Jabor não cessa de contar.


Juliete Oliveira

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

DAS COISAS QUE SE ARREMESSAM NOS POLÍTICOS

Esta é a fase do espetáculo em que o público, não aguentando mais o ator, começa a arremessar toda sorte de objetos, por vezes até dejetos, em cima dele. Significa que não há reviravoltas possíveis, nem atos de heroísmo nem de pura covardia, nada resgatará o espetáculo de seu final pífio. O Político, talvez até mais do que o artista, adora palcos, e também tribunas, palanques, plataformas. Por mais desagradável que seja o cenário, por mais grotesco que seja o enredo, aí ele encena o melhor dos mundos. Apenas a alguns centímetros do chão, ele se acredita numa torre de marfim. Refugiado da carência, fraqueza, impotência diante da vida. Sobem com ele aí toda burocracia e jurisdição. Juntos falam melhor do progresso social e econômico que promovem. Dos grandes avanços da Indústria e do Mercado. Das notáveis contribuições do Partido na grande cidade que governam. Daí para o resto do país, sobre o palco, anuncia-se a melhor das escolas, não porque indivíduos mais educados tornam-se mais produtivos, mas porque o público “sonha” com essa escola. Ela vai bater á sua porta todas as manhãs e todas as noites que o filho sair para estudar sem saber se ele voltará vivo. Todos humilhados aí nesse pesadelo em que também é incerto toda sorte de direito: saúde, emprego, comida. Infelizmente o “respeitável” público não tem como passar sem isso. Daí que todas essas coisas não deixam de ser implacavelmente anunciadas, recapituladas, de punhos erguidos, como maravilhas de um mundo iminente, com a condição, é verdade, de serem mais uma vez repetidas amanhã, como forma de reativar os ânimos e dissuadir os pessimistas. Vida e bem-estar social só se opõem do ponto de vista dos políticos. Para eles se está sempre nas etapas antecedentes do desenvolvimento. O melhor dos mundos nunca é efetivo. Se crianças ainda morrem de fome no Norte e Nordeste, se o tráfico de drogas domina cidades inteiras, se não há médico, remédio, salário, vergonha na cara – eles brandem tudo isso, porque tudo está prestes a melhorar... Enquanto nada acontece, eles se distraem com o grande público. Riem da corrupção, da ineficiência, dos altos impostos. Pelas mesmas razões estúpidas a que sempre recorrem, conclamam o público a votar. Tudo a um passo de acontecer. A escola, a saúde, o emprego, a comida. Só que por um descuido, uma falha da produção do espetáculo, ou talvez animado pelas pesquisas ou pelas benesses delirantes do cargo que disputa, ou ainda, por amor ao bom público, um deles desce do palco e, longe dos holofotes, com passos que se revelam trôpegos, se põe a andar entre as pessoas; e ali, de súbito, tudo começa a dar errado: a tentativa de proximidade não surte efeito, os gestos resultam falsos, e todos começam a perceber os signos de um triste desenlace. Que o enredo é falho, a fala é de um clown e a maquiagem esconde a face de um ator ruim. O público se depara com um espetáculo que já deu, se esgotou, saturou a todos. A esse ator só resta fugir, partir pra outra. É a fase do espetáculo em que o público começa a arremessar toda sorte de objetos... Assunto encerrado, cortina!


Ney Ferraz Paiva
Salgueiro - PE 22 de outubro 2010