quarta-feira, 14 de julho de 2010

Um Código Florestal Paleontológico

A Sávio Drummond, o falcão peregrino




Ao nobre deputado Aldo Rabelo, recomendo a leitura do livro “Alfabetização Ecológica – A educação das crianças para um mundo sustentável” do físico e filósofo Fritjof Capra. Em que, este, menciona que, para entendermos os princípios organizacionais que os ecossistemas desenvolveram ao longo de bilhões de anos, temos que conhecer os princípios básicos da ecologia – a linguagem da natureza. A estrutura conceitual mais apropriada para se entender a ecologia hoje é a teoria dos sistemas vivos, que continua sendo desenvolvida e cujas raízes incluem a biologia organísmica, a psicologia gestalt, a teoria geral dos sistemas e a teoria da complexidade (ou dinâmica não-linear).

Essa dinâmica não-linear deveria em tempos de discussão calorosa sobre a natureza, orientar todos os que se dispõem sentar-se à mesa de discussão. Por que recomendo a leitura acima ao bom homem? Por que ele, como representante legal da sociedade, demonstrou indícios de que precisa entender melhor a questão, como tantos outros, e não apenas deixa-se levar pelo discurso roto do desenvolvimento. Muito embora não surpreenda tanto assim que essa proposta venha de alguém que nos tempos que correm tenha a má fé de se reclamar o dístico de comunista. Já que do comunismo restou-nos a todos uma vaga lembrança, e esta serve, sobretudo, para indicar um tempo que não quer passar de uma preocupação de biógrafos e que corresponde praticamente apenas a uma espécie de história externa, uma história para uso externo, para ser contada aos outros. As lembranças são imóveis, tanto mais sólidas quanto mais bem especializadas. (Gaston Bachelard, A Poética do Espaço).

Quanto à floresta, está sim, não tem como ser esquecida, relegada a um passado que não nos diz respeito, atada às paixões sem guia que esmorecem e definham na solidão. O homem, caro Senhor, precisa da floresta para gerir seu alter ego, lancemos mão da história, a de todos os homens, inclusive a sua e de seus pares, num breve relato: "I went into the woods because I wanted to live deliberately. I wanted to live deep and suck out all the marrow of life... to put to rout all that was not life; and not, when I came to die, discover that I had not lived." - Henry David Thoreau. "Eu fui à Floresta porque queria viver deliberadamente. Eu queria viver profundamente, e sugar a própria seiva da vida... expurgar tudo o que não fosse vida; e não, ao morrer, descobrir que não havia vivido".

E então Deputado, que dizer diante dessa voz que não cessa, imemorial, astuta, que decifra quem somos? Se o Senhor e os seus não mais a escutam, se certos aliados de última hora podem mudar o coração de um homem, talvez fosse melhor que o Senhor passasse uns dias com o meu amigo Sérgio Tembé na aldeia Tekoraw (aldeia nova), às margens do rio Gurupi – saberá ainda o Senhor os caminhos dos rios, dos bichos e das matas? Lá seria ainda possível (enquanto seu mal fadado código não for posto em prática por grileiros, madeireiros e todos os empreendedores do desastre e da morte da floresta) sua Senhoria resolver anos de ausência de estudo sobre a psicologia gestalt, sobre entomologia, o vôo dos pássaros – para não chamar de ornitologia – lá os índios não tratam por esse nome, mas nem por isso amam menos a vida. E será sempre por isso, Excelência, que eles poderão enumerar quantos motivos houver que fragilizam a vida e a sustentabilidade com a aprovação do pavoroso “novo/velho” Código Florestal, obra de sua lavra, que nada gera de vida, senão de cifras.


Entendo a dificuldade que o pensamento velho tem para se desvencilhar do que lhe é próprio, ainda que aos olhos não seja belo e ao estômago seja azedo, já que este comprometimento com o que passou, é uma antiga lástima que permeia a cultura política a que o Senhor parece se adequar e penso que assim continuará sendo, uma vez que os modelos do passado são ainda tão potentes que a crítica de uma sociedade e seu desejo de mudança perecem diante desses modelos. Mas creia o “novo sempre vem”. E é acreditando no novo, meu bom Senhor, que o poder público deverá se ocupar da conservação e reconhecer o seu Calcanhar de Aquiles, denominado Gestão/Fiscalização, e não instituir topo de morro como área não protegida, já que omissão não evita erosão, não obstrui o fausto mercado da especulação a que o Senhor, por certo ignora que exista e prospere, empurrando os pobres das cidades e do campo direto pro abismo, como recentemente ocorreu em Santa Catariana na zona rural, no coração do Rio de Janeiro, junto a um vasto complexo turístico, em dois ou três estados do Nordeste. E o que se configurou ali, nobre Deputado, não precisa ser especialista para responder. Mas vamos lá. E este eu também recomendo a leitura, para pensar a cidade e a floresta, para desobstruir as conexões com o novo e o belo. Jean Baudrillard em O crime perfeito, (não veja no título uma tentativa de ofensa, meu bom homem, não foi minha intenção, nem do Baudrillard), pois bem, ele tece uma projeção desesperançada para o nosso futuro, e nos pergunta, num certo gracejo ou chiste: Talvez mais tarde existam vestígios fósseis do real como existem das eras geológicas passadas? Um culto clandestino dos objetos reais, venerados como fetiches e que de repente adquirirão um valor mítico? Adaptando para sua proposta de Código Florestal, no mundo de relações que o Senhor ali defende, eu acrescentaria que talvez a floresta venha a ser, a partir desse código só paleontologia. E aí, meu Senhor, por que os saberes não se esgotam no que é velho e seus ranços de dor, penso que um conjunto de atitudes se encontra em processo de mudança, e é fácil perceber o mecanismo de cercar-as-apostas, de fazer prevalecer nas disputas de poder e de ideias, nas correlações de força e nos lances finais dos discursos o que é justo e bom. Que justifique e defenda a vida.

Juliete Oliveira
Palmas, 14 de julho de 2010

terça-feira, 29 de junho de 2010

O sertão vai virar mar



O sertão vai virar mar / Dói no coração / O medo que algum dia / O mar também vire sertão... (Sobradinho, Trio Nordestino). O sociólogo francês, Pierre Bourdieu, escreveu certa vez que a competência de um discurso — sua razão de ser e sua eficácia — não reside simplesmente no seu aspecto linguístico de propriedade e correção, mas, antes: no «lugar» socialmente definido a partir do qual ele é proferido. (Bourdieu, 1982:174). Quem entre nós, não se lembrou dos versos acima, nos últimos dias? Antes de ser um paradoxo – o sertão virar mar – é algo que se verificou, pode acontecer, um mar de lama, um mar de desolação, tristeza e lágrimas de tantos que perderam o pouco que tinham.

E esse discurso? Deve-se fixar onde? O “lugar”, o nordeste brasileiro. Isto impõe a necessidade de se instituir uma crítica histórica, ou seja, uma avaliação das motivações subentendidas nos processos locutórios, que atribuem ao discurso — polissêmico de per se — um sentido unívoco ao longo de um período ou em uma determinada época. A época é essa, pré eleitoral, cibernética, em tempo real. Perguntemos, pois, aos moradores de Palmares e municípios adjacentes que são obrigados a transportar alimentos no lombo do jegue, pela inexistência total de outra possibilidade de transporte, qual o sentido desse tempo? E qual seria o verdadeiro sentido do discurso? A não ser aquele que justifica os últimos acontecimentos pelos meios naturais. Choveu o equivalente a “trocentos” milímetros, o esperado para todo o mês, em algumas horas. Ou ainda, o desmatamento, a ocupação irregular – do minúsculo ao incomensurável

O nordeste teve por algumas décadas um órgão chamado SUDENE / Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste – desta nos lembramos –, não pelos resultados alcançados pela instituição, que era responsável por orientar um desenvolvimento dentro de padrões de segurança e bem estar social. Essa instituição esteve atrelada aos principais ministérios: planejamento, ciência e tecnologia, do interior (hoje integração nacional), agricultura, entre outros. Temos no Brasil muitos anos de pesquisa para o desenvolvimento social, para a produção agrícola e pelo menos uns vinte anos de pesquisa para o desenvolvimento sustentável.

Por que ainda, temos que emprestar nossos ouvidos para esse tipo de explicação? Pelo mesmo motivo que temos ainda que suportar propagandas eleitorais, enganosas, promessas arquitetadas nas sombras. Isto impõe também, uma denúncia dos estrategistas, isto é, os especialistas que garantem aos grupos que exercem o poder a eternização do provisório, ou, em outras palavras, a solidez ideológica através da qual estes grupos definem como corretas e normais suas formas de organização, pensando, assim, justificar suas ações práticas.

É o provisório que deve ser sólido, em matéria de discurso, por que fazer algo planejado de fato, duradouro, sustentável, obra dá voto, precisamos construir o país. O desenvolvimento deverá justificar tudo! Por quanto tempo? O tempo até o próximo desastre, porque o tempo muito embora seja um artifício dos gestores públicos, para justificar uma licitação, por exemplo, para o nordestino pode ser o intervalo entre uma safra e outra, uma seca e outra e ainda, entre uma enchente e outra.

Tempo suficiente sabemos, para o planejamento, a construção, o zoneamento, para se afastar os riscos e proteger quem precisa de proteção. Cuidar da polis é um exercício do homem. Marx e Engels em O Dezoito Brumário de Luiz Bonaparte fizeram uma análise coerente desse exercício. A história não faz nada, “não possui uma riqueza imensa”, “não dá combates”, é o homem, o homem real e vivo que faz tudo isso e realiza combates; estejamos seguros de que não é a história que se serve do homem como de um meio para atingir — como se ela fosse um personagem particular — seus próprios fins; ela não é mais do que a atividade do homem que persegue os seus objetivos. (Marx & Engels, apud Fernandes, 1983:48). Pensemos assim do tempo, para que ele cesse de ser mar.




Juliete Oliveira

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Palmas é uma Barrela (cidade de 3ª classe)


O título da peça de Plínio Marcos cai como uma luva na mão dos gestores pelo que vamos vivendo nesta cidade nos últimos anos. Abandonados à própria sorte. Tal o estado das coisas. Azedo, envelhecido, apequenado. Dias e dias que são uma noite de sordidez. O esculacho. Do buraco abismal das ruas às desorbitadas, senão amalucadas, desvairadas decisões do poder público – uma vez que desconectadas com os interesses do cidadão. O sistema de transporte de Palmas é o mais descarado exemplo. Desde o primeiro mês de sua imposição à sociedade de Palmas (não dá pra dizer que uma coisa lastimável como essa foi “implantada”) que vêm recebendo críticas desfavoráveis e muito corretas dos usuários. É deveras preocupante que um prestador de serviço público de uma cidade inteira, atuando sozinho no mercado, avilte o interesse maior de ir-e-vir de toda uma população. Pouco importando se esse direito está assegurado na Constituição. Quanta impunidade! O usuário do transporte público hoje em Palmas - apertado feito animal - é um marginalizado social. A ele ônibus velhos e empoeirados, desconfortáveis, fora dos horários, lotados nos horários concorridos, demorados a não mais poder nos demais períodos. E as tais estações? Um tormento total, um purgatório. O sistema apenas favorece o empresário. Diminui custo-aumenta lucratividade. O motorista que acula a função de cobrador recebe irrisórios R$ 16,27 (dezesseis reai e vinte sete centavos)! Ainda assim esta semana a tarifa subiu para (pasmem!) R$ 2,20 (dois reais e vinte centavos). Em todo esse desmando inconcebível numa democracia vai impresso a verdadeira face dos políticos da cidade. Que se sentem acima da lei, senão os donos dela. Não é preciso estar possuído por nenhum espírito pra se fazer previsões catastróficas acerca do futuro da cidade. Que acaba de completar 21 anos, mas já tão envelhecida. Nos costumes, hábitos e culturas. Acionados e inspirados, todos, pela indiferença indisfarçável dos políticos. Sob o repetitivo refrão nos palácios “to nem aí, to nem aí...”. O caos se estabelecendo irrefreável: ambiental, social, político, ético, cultural. No filme Os Simpsons, eles se encontram a ponto de fugir para o Alasca. E nós, que temos a fazer? Fugir? Sim, eu vos digo, o tolo vivente, fugir sempre!




ney ferraz paiva
imagem: O Vagão da Terceira Classe, de Honoré Daumier (1808-1879)
Os tempos não mudaram, nem os políticos!

terça-feira, 15 de junho de 2010

A desgraçada profissão de economista, por James Galbraith




Sr. Presidente, Srs. Membros do Subcomité, como antigo membro da assessoria do Congresso é um prazer submeter esta declaração à vossa consideração.


Escrevo-lhes vindo de uma profissão desgraçada. A teoria económica, como é amplamente ensinada desde a década de 1980, fracassou miseravelmente no entendimento das forças que estão por trás da crise financeira. Conceitos que incluem "expectativas racionais", "disciplina de mercado" e a "hipótese dos mercados eficientes" levaram economistas a argumentar que a especulação estabilizaria preços, que os vendedores actuariam para proteger as suas reputações, que se podia confiar no caveat emptor [1] e que portanto a fraude generalizada não podia ocorrer. Nem todos os economistas acreditaram nisto – mas a maior parte sim.

Consequentemente, o estudo da fraude financeira recebeu pouca atenção. Não existe praticamente nenhum instituto de investigação; a colaboração entre economistas e criminólogos é rara; nos principais departamentos há poucos especialistas e muito poucos estudantes. Os economistas minimizaram o papel da fraude e todas as crises que examinaram, incluindo a derrocada das Caixas Económicas (Savings & Loans), a transição russa, o colapso asiático e a bolha das dot.com. Eles continuam a minimizar até hoje. Numa conferência patrocinada pelo Levy Economics Instituto, em Nova York, a 17 de Abril, o mais perto que um antigo sub-secretário do Tesouro, Peter Fischer, chegou a esta questão foi utilizar a palavra "travessuras" (naughtiness"). Isto foi no dia em que a Securities and Exchange Comission (SEC) acusou a Goldman Sachs de fraude.

Há excepções. Um famoso artigo de 1993 intitulado "Saqueio: bancarrota para o lucro" ("Looting: Bankruptcy for Profit"), de George Akerlof e Paul Romer, baseava-se excepcionalmente na experiência de reguladores que entendiam de fraude. O criminólogo-economista William K. Black, da Universidade de Missouri-Kansas City é o nosso principal analista sistemático do relacionamento entre crime financeiro e crise financeira. Black destaca que a fraude contabilística é uma coisa segura quando você pode controlar a instituição em que entrou: "o melhor meio de roubar um banco é possuí-lo". A experiência da crise das Caixas Económicas foi de empresas capturadas com o propósito explícito de depená-las, de sangrá-las até secarem. Isto foi estabelecido em tribunal: havia mais de um milhar de condenações por crime na sequência daquela derrocada. Outras crónicas úteis da moderna fraude financeira incluem "Cova de ladrões" (Den of Thieves) , de James Stewart, sobre a era Boesky-Milken, e "Conspiração de loucos" (Conspiracy of Fools) , de Kurt Eichenwald, sobre o escândalo Enron. Mas subsiste um vasto fosso entre esta história e a análise formal.

A análise formal conta-nos que o controle de fraudes segue certos padrões. Elas crescem rapidamente, relatando alta lucratividade, certificada por firmas de contabilidade de topo. Elas pagam excessivamente bem. Ao mesmo tempo, elas reduzem padrões radicalmente, construindo novos negócios em mercados anteriormente considerados demasiado arriscados para negócios honestos. No sector financeiro, isto assume a forma de descontraídas – não, estripadas – subscrições, combinadas com a capacidade de passar o último tostão para o louco maior. Na Califórnia, na década de 1980, Charles Keating percebeu que um alvará de Caixa Económica era uma "licença para roubar". Nos anos 2000, a origem das hipotecas sub-prime foi em grande parte a mesma coisa. Dada uma licença para roubar, os ladrões começam a trabalhar. E porque o seu desempenho parece tão bom, eles rapidamente vêm a dominar os seus mercados; os maus jogadores expulsam os bons.

A complexidade do sector hipotecário-financeiro antes da crise destaca uma outra marca característica da fraude. No sistema desenvolvido, os documentos originais da hipoteca jazem enterrados – quando permanecem – nos registos dos originadores do empréstimo, muitos deles extintos desde então ou tomados por terceiros. Aqueles registos, se examinados, revelariam a extensão da documentação em falta, das práticas abusivas e da fraude. Até agora, temos apenas uma evidência muito limitada sobre isto, notavelmente um estudo de 2007 da Fitch Ratings sobre uma amostra muito pequena de RMBS [2] altamente taxadas, as quais descobrem "fraude, abuso ou documentação omissa em virtualmente todo ficheiro". Esforços feitos um ano atrás pelo deputado Doggett para persuadir o secretário Geithner a examinar e informar a fundo a extensão da fraude nos registos subjacentes às hipotecas foram totalmente torneados.

Quando hipotecas sub-primes foram empacotadas e titularizadas, as agências de classificação deixaram de examinar a qualidade do empréstimo subjacente. Ao invés disso substituíram [o exame] por modelos estatísticos, a fim de gerar classificações que fariam as RMBS resultantes aceitáveis para os investidores.

Quando alguém assume que os preços sempre subirão, segue-se que um empréstimo titularizado pelos activos sempre pode ser refinanciado; portanto a condição real do tomador do empréstimo não importa. Aquela projecção é, naturalmente, apenas tão boa como a suposição subjacente, mas neste mercado concebido de forma perversa aqueles que pagam pelas classificações não têm razões para se importarem com a qualidade das suposições. Enquanto isso, agora os originadores de hipotecas têm uma fórmula para oferecer empréstimos aos piores tomadores que pudessem encontrar, seguros de que neste Lake Wobegon [3] invertido nenhuma criança seria considerada abaixo da média embora todas estivessem. A qualidade do crédito entrou em colapso porque o sistema foi concebido para ir para o colapso.

Um terceiro elemento na mixórdia tóxica foi um simulacro de "seguro", proporcionado pelo mercado em credit default swaps. Estes são instrumentos do juízo final num sentido preciso: eles geram fluxo de caixa para o emissor até que ocorra o evento de crédito. Se o evento for suficientemente grande, o emissor então falha, ponto em que o governo enfrenta chantagem: ele deve intervir ou o sistema entrará em colapso. Os CDS propagam as consequências de uma baixa nos preços das habitações por todo o sector financeiro, por todo o globo. Eles também proporcionam os meios para provocar curto-circuito no mercado de títulos apoiados por hipotecas residenciais, de modo que os maiores jogadores poderiam virar as costas e apostar contra os instrumentos que haviam previamente estado a vender, pouco antes de o castelo cartas entrar em crash.

Nos tempos actuais a teoria económica das finanças é cega a tudo isto. Ela necessariamente trata acções, títulos, opções, derivativos e assim por diante como títulos cujas propriedades podem ser aceites amplamente pelo seu valor facial e quantificadas em termos de retorno e de risco. Aquela quantificação permite o cálculo do preço, utilizando fórmulas padrão. Mas tudo na fórmula depende de os instrumentos serem o que são representados para ser. Pois se não o forem, então que fórmula poderia possivelmente aplicar-se?

Uma tendência mais antiga da teoria económica institucional entendia que um título é um contrato legal. Ele só podia ser tão bom quanto o sistema legal que estava atrás dele. Alguma fraude é inevitável, mas num sistema em funcionamento ela deve ser rara. Ela deve ser considerada – e correctamente – um problema menor. Se a fraude – ou mesmo a percepção da fraude – chega a dominar o sistema, então não há fundamento para um mercado de títulos. Eles tornam-se lixo. E mais profundamente, do mesmo modo as instituições responsáveis por criá-los, classificá-los e vendê-los. Incluindo, enquanto falhar em responder com a força apropriada, o próprio sistema legal.

Fraudes controladas sempre falham no fim. Mas o fracasso da firma não significa que a fraude tenha falhado: os perpetradores muitas vezes fogem ricos. Em algum momento, isto exige subverter, subornar ou vencer a lei. É aqui que o crime e os políticos se interceptam. No seu cerne, a crise financeira foi uma ruptura da regra da lei na América.

Perguntem-se a si próprios: será possível para originadores de hipotecas, agências de classificação, subscritores, seguradores e agências de supervisão NÃO terem sabido que o sistema financeiro de habitação tornara-se infestado de fraudes? Todo indicador estatístico de prática fraudulenta – crescimento e lucratividade – sugere o contrário. Até agora todo exame dos registos sugere o contrário. A própria linguagem em uso: "empréstimos mentirosos", "empréstimos ninja", "empréstimos neutrões" e "lixo tóxico" diz-lhe que as pessoas sabiam. Também ouvi a expressão "IBG,YBG", o significado desse código era: "Eu darei o fora, você dará o fora" ("I'll be gone, you'll be gone").

Se dúvidas subsistissem, a investigação dentro das comunicações internas das firmas e agências em causa pode esclarecê-las. Os emails são reveladores. O governo já possui pegadas documentais críticas – aquelas da AIG, Fannie Mae de Freddie Mac, o Departamento do Tesouro e a Reserva Federal. Esses documentos deveriam ser investigados, completamente, pela autoridade competente e também divulgados, quando apropriado, ao público. Por exemplo: será que intencionalmente a AIG emitiu CDSs contra instrumentos que a Goldman havia concebido em nome do sr. John Paulson para fracassar? Se assim for, por que? Ou outra vez: Será que a Fannie Mae e o Freddie Mac apreciaram a fraca qualidade das RMBSs que estavam a adquirir? Será que assim o fizeram sob a pressão do sr. Henry Paulson? Se assim for, será que o secretário Paulson sabia? E se o fez, por que ele actuou assim? Num documento recente, Thomas Ferguson e Robert Johnson argumentam que a "Opção Paulson" foi destinada a adiar uma crise inevitável para depois das eleições. Será que os registos internos confirmam esta visão?

Vamos supor que a investigação que estão prestes a começar confirme a existência de fraude generalizada, envolvendo milhões de hipotecas, milhares de avaliadores profissionais, subscritores, analistas e os executivos das companhias nas quais eles trabalhavam, bem como responsáveis públicos que a isso assistiam fechando os olhos. O que será a resposta apropriada?

Alguns parecem acreditar que a "confiança nos bancos" pode ser reconstruída por uma nova rodada de boas notícias económicas, pela ascensão dos preços das acções, pelas novas promessas de altos responsáveis – e pelo não olhar demasiado atentamente para a evidência subjacente de fraude, abuso, engano e burla. Ao prosseguirem vossas investigações, minarão, e acredito que possam destruir, tal ilusão.

Mas você tem de actuar. A alternativa verdadeira é uma fracasso a estende-se ao longo to tempo do sistema económico ao político. Da mesma forma como muitos poucos previram a crise financeira, pode ser que muito poucos estejam hoje a falar francamente acerca de onde um fracasso em tratar das consequências pode levar.

Nesta situação, deixem-me sugerir que o país enfrenta uma ameaça existencial. Ou o sistema legal deve fazê-lo funcionar. Ou o sistema de mercado não pode ser restaurado. Deve haver uma limpeza completa, transparente, efectiva e radical do sector financeiro e também daqueles responsáveis públicos que traíram a confiança pública. Aos financeiros deve-se fazê-los sentir, nos seus ossos, o poder da lei. E o público, o qual vive de acordo com a lei, deve ver muito claramente e sem ambiguidades que isto é o caso.

Muito obrigado.

18/Maio/2010

[1] caveat emptor: regra nas leis dos contratos determinando que o vendedor não garante a qualidade de sua mercadoria sem um compromisso especificado.
[2] RMBS: Residential mortgage-backed security

[3] Lake Wobegon : cidade fictícia no estado do Minnesota.
Texto de declaração escrita apresentada pelo autor ao Comité Judiciário do Senado dos Estados Unidos.

"Retirado do Blogspot pimentanegra"

terça-feira, 25 de maio de 2010

a compu (ta) linguagem

Um filósofo e sua mulher num jantar... Sua ambição é determinar, com o uso de máquinas elétricas de computação, a estrutura básica da linguagem. Os valores e as evocações das palavras podem ser determinadas, ele me diz, pelos equipamentos, e assim poemas de qualidade podem ser escritos por máquinas. Portanto, retornamos à absolescência dos sentimentos. Penso na minha maneira de sentir a linguagem, sua intimidade, seus mistérios, seu poder de evocar, numa pronúncia catarral, os ventos marítimos que sopram sobre Veneza ou, num A mais duro, o maciço para além de Kitzbühel. Mas isso, ele me diz, é apenas sentimentalismo. A importância dessas máquinas, sua tendência para legislar, para calibrar palavras como “esperança”, “coragem”, todos os termos que usamos para alimentar o espírito.

John Cheever escreveu esse texto lá pelos anos de 1950, muito antes de os computadores terem se tornado apenas mais um acessório doméstico, e mesmo antes de terem ganhado um nome específico. A arrogância reducionista do filósofo e a resposta indignada do autor são reações contrapostas a uma verdade simples, que ainda hoje é válida: escrita informativa e escrita criativa são formas diferentes de conhecimento, exigindo diferentes habilidades e relações com a linguagem totalmente diferentes.

A. Alvares, A voz do escritor

sexta-feira, 7 de maio de 2010

O que tem a Gisele com a floresta em pé?


Triste de quem é feliz.
Fernando Pessoa


A governamentalidade passa, dentre outras estratégias de subjetivação-dessubjetivação, por encarnar a função que o gozo decepcionante das sociedades espetaculares e de consumo não podem encampar completamente: uma máquina de fazer sorrir. A isto atribuímos a presença da Mega, Ultra, Super Top Model Gisele Bündchen‎ na Comissão Especial do Código Florestal. Desde os gregos, a felicidade foi convertida em tarefa da política, mas a felicidade sem possibilidade de pensamento não pode ser mais que um gozo, um sentimento reativo: não pode nada, senão permanecer no continuum desse gozo. A felicidade, aferida segundo as formas de vida governamentais, normais ou desviantes – pouco importa – implica, em verdade, uma das realizações finais da biopolítica: separando a vida da forma de vida, sacraliza-se não apenas a vida, mas também a forma que essa vida pode assumir; interdita-se o próprio acesso à política, à comunidade, à felicidade.


Discutir o Código Florestal passou a ser tarefa das beldades muito acima dos mínimos padrões que costumam guiar a vida das pessoas “normais” – é preciso ter porte, elegância e um grau de consumo altíssimo – e mais, muito mais: influenciar esse consumo, trabalhar em favor da máquina de produção de felicidade capitalista! Tudo a favor do modelo de Estado de bem-estar social (Welfare State), uma incumbência das políticas governamentais. Propiciar e zelar pelo bem-estar psicológico, a satisfação e conforto em relação à própria vida, é tarefa política, mas não deixa de ser uma das mais atuais estratégias de subjetivação-dessubjetivação dos governos e dos grupos de poder. A despeito de qualquer coisa a engrenagem não pode parar e o índice que mede a felicidade deve ser mantido, o FIB (Felicidade Interna Bruta). Mas felicidade de quem?


Certamente que não aqueles que terão o seu local de vivência, moradia, produção e reprodução dessa subjetividade, franqueado por um Código escrito por estrelas de constelações estranhas ao mundo real. O que saberá a rica Top das quebradeiras de coco do cerrado brasileiro? Da colheita diária do açaí e da piaçava na aurora amazônica? Com certeza pouco, muito pouco. Ainda que se venha discutindo exaustivamente a participação dos principais interessados nas questões que envolvem a floresta em pé, quase nada vem acontecendo na prática – talvez porque os principais interessados de que o Código Florestal não passe de uma receita de cosmético prescrita para “embelezar” o assombro do desmatamento sejam, finalmente, os grandes proprietários de terra, o agronegócio, as mineradoras e todos os que movimentam a bufunfa e riscam a floresta do mapa.


Juliete Oliveira

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Ne me quitte pas



Ne me quitte pas Não me deixes,
Il faut oublier É preciso esquecer
Tout peut s'oublier Tudo se pode esquecer
Qui s'enfuit déjà o que já se foi ( para trás ficou trás)
Oublier le temps Esquecer o tempo
Des malentendus dos mal-entendidos
Et le temps perdu E o tempo perdido
À savoir comment a querer saber como
Oublier ces heures Esquecer essas horas,
Qui tuaient parfois Que de tantos porquês
À coups de pourquoi Por vezes matavam (a golpes de porquês)
Le coeur du bonheure o coração da felicidade
Ne me quitte pas (x4) Não me deixes
Moi je t'offrirai Te oferecerei
Des perles de pluie Pérolas de chuva
Venues de pays Vindas de países
Où il ne pleut pás onde nunca chove
Je creuserai la terre eu cruzarei a terra
Jusqu'après ma mort Até depois da morte,
Pour couvrir ton corps para cobrir teu corpo
D'or et de lumière de ouro e luzes
Je ferai un domaine Eu farei um domínio(Criarei um país)
Où l'amour sera roi onde o amor será rei
Où l'amour sera loi onde o amor será lei
Où tu seras reine onde tu serás rainha
Ne me quitte pas Não me deixes

Ne me quitte pás Não me deixes
Je t'inventerai Eu inventarei
Des mots insensés palavras insentatas
Que tu comprendras que tu compreenderás
Je te parlerai Eu te falarei
De ces amants là desses amantes
Qui ont vu deux fois que viram,duas vezes
Leurs coeurs s'embrasser seus corações se abraçarem
Je te raconterai Eu te recontarei
L'histoire de ce roi a história desse rei
Mort de n'avoir pás morto por não ter
Peu te rencontrer podido te reencontrar
Ne me quitte pas (x4) Não me deixes

On a vu souvent Onde se viu
Rejaillir le feu reacender o fogo
De l'ancien volcan do velho vulcão
Qu'on croyait trop vieux que se acreditava ser muito velho
Il est paraît-il Até parece
Des terres brûlées de terras queimadas
Donnant plus de blé produzindo mais trigo
Qu'un meilleur avril que o melhor abril
Et quand vient le soire e quando vem a tarde
Pour qu'un ciel flamboie para que o céu flambe
Le rouge et le noir o vermelho e o negro
Ne s'épousent-ils pás se casam
Ne me quite pas (x4)

Ne me quite pas
Je ne veux plus pleurer eu não vou mais chorar
Je ne veux plus parler eu não vou mais falar
Je me cacherai là eu me esconderei
À te regarder para te olhar
Danser et sourire dançar e sorrir
Et à t'écouter e te escutar
Chanter et puis rire cantar e depois rir
Laisse-moi devenir deixe-me tornar
L'ombre de ton ombre a sombra de tua sombra
L'ombre de ta main a sombra de tua mão
L'ombre de ton chien a sombra do teu cão
Ne me quitte pas não me deixes

Compositor(es): Jacques Brel/Louigy/Gilbert Becaud/Charles Aznavour/Pierre Delanoë/Francoise Dorin/Edith