sexta-feira, 8 de março de 2013

O que me sussurraram as mulheres do sertão


Ao aportar no nordeste brasileiro, propriamente no sertão em um bioma bem conhecido denominado de caatinga o que para as terminologias ambientais e climáticas é em grande parte semiárido, tive uma relação muito próxima com as mulheres, elas me ensinaram que mesmo, em que pese todo o julgo de ser minoria política a alegria e a autoestima são simbologias fulgurantes em seus espíritos.


Tive a partir dessa convivência uma experiência axiomática, me liguei cartograficamente a esse território, eu desterritorializada que sou. Comparando-se com o que foi pensado até hoje sobre o feminino, tanto pela psicanálise, quanto pela filosofia, veremos que estas duas áreas do saber tentam até hoje desvendar essa figura que fenomenologicamente se coloca à frente do masculino como um mistério. A relação com as árvores sempre visceral / mulheres se ligam inexoravelmente ao vegetal / relações de vizinhança sempre importante / o lugar, meu lugar, minha vida / eu me ligo ao outro pelo que não vejo / o fluxo da memória é tudo o que eu tenho/ Lembranças / a proximidade do outro, agora é separado / o que povoa a vida são os elementos da natureza / sabemos as árvores, todas as árvores pelo nome / a casa, sempre a casa / no meio rural a casa é o que mais importa / as minhas historias se ligam à natureza / o que imagino pode ser a minha verdade, nem sempre a do outro / as historias são breves, objetivas, das mulheres distendidas / As mulheres se derramam, lembram pequenos detalhes / as flores entram na fala / lágrimas fáceis / essa água que mina na cacimba e eu tenho que esperar, o tempo de uma infância / a reza de olhos fechados, a reza do sono no caminho / mulheres tiram uma história da outra, sem perder o fio / homem a palavra difícil. (falas recortadas das mulheres durante o trabalho de campo para a construção da cartografia social do vasto e inesgotável São Francisco, que a todos se oferece, seja de perto ou de longe)

Essa cartografia, eu a chamo pelo nome de amor, um pequeno filete de rio que irriga agora o que sou. Não foram poucas as tentativas de saber o que deseja uma mulher, ou o que ela representa para o mundo masculino. Sabe-se que essas tentativas, muitas vezes vazias, de tentar configurar o desejo feminino, pela via do masculino, podem muito bem construir um feminino que queira somente ser e ter os mesmos preceitos anteriormente  decodificados e impostos pelo  masculino.

Construí um mapa, a minha carta afetiva ficou mais rica, meus tesouros da imanência eu os guardo sob uma pele muito fina, tênue recurso a que lanço mão para amealhar alegrias em dias longos. A proposta de falar de uma identidade feminina, da mulher, e também de seu par opositivo, ou seja, do homem, do masculino, tem como imposição geralmente falar do que define estas duas categorias. E o que nos define? Senão o que nos recorta, poeira estrelar na cumeeira em manhã de abril. Lembrando a Florbela:

Gosto de ti, ó chuva, nos beirados,
Dizendo coisas que ninguém entende!
Da tua cantilena se desprende
Um sonho de magia e de pecados
.

Juliete Oliveira
Imagem: Picasso

Para: Eva, Jeane, Janete, Francinete, Tarsila Estrela, Veza Manuela, Fátima Lucatelli, Rosinete (LoLó), Dorinha, Raquel Acásio, Sandra Letícia, Autalina Martins, Deyse, Miriam Guedes, Ana Paula Guedes, Palmina Guedes, Consuelo Sales, Teresinha, Cristiane Melo, Cristiane Mello, Katyucia  Carvalho, Elianeiva Odíssio, Renata Acásio, Edna Miranda, Wayla Luiza, Marinete, Marinha, Sandra Campos, Eliane do Valle, Mary Veras, Michelle Medeiros, Eliana Pareja, Driele, Helena, Maryana Carvalho, Graziele Reis, Adriana Damaceno, Giovana Lobo, Pati Lucatelli, Ana Maria Cortes, Joana Cabral, Jezebel  Andreoni Lílian Marckezani, Verônica Bittencout, Ana Angélica, Carol Bueto, Rosilene, Marina Gontijo, Emília, Poliana Silva, Lenimara do Vale, Patrícia Lopes, Cassiana Moreira, Celly dos Santos,  Janaina Neide Herculano, Luca Lucatelli ... Tantas outras amigas irmãs.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Corpo holograma


No mesmo dia em que uma chuva de meteorito atingiu a terra ferindo algumas pessoas, o que pode ser considerado um fato raríssimo, assisti acidentalmente a um fato que no caso da Amazônia não é de maneira nenhuma raro, o que é raro, é assistir a uma batida policial em um local de possível exploração sexual de menores! Estava almoçando ao contemplar a cena, e foi impossível continuar a degustar o delicioso almoço aos moldes nordestino que era servido no momento. Estou no olho do furacão! Em Altamira/PA, que hoje se constitui um dos principais locais de migração de mão-de-obra, de todas as espécies no território nacional.



Ver um objeto é ou possuí-lo à margem do campo visual e poder fixá-lo, ou então corresponder efetivamente a essa solicitação, fixando-o. Quando eu o fixo, ancoro-me nele, mas esta ‘parada’ do olhar é apenas uma modalidade de seu movimento: continuo no interior de um objeto a exploração que, há pouco, sobrevoava-os a todos, com um único movimento fecho a paisagem e abro o objeto.” Merleau-Ponty. O objeto aqui é o corpo da menina, que também é o meu, o da minha filha, o da minha mãe, seria o objeto que me habita e que é habitado por mim. Doeu, dói. As meninas sendo recolhidas em uma ambulância da secretaria municipal de saúde. Denotou doença, falta de sanidade, enfermidade. Estamos, somos enfermas todas as mulheres quando o nosso corpo é alvo do prazer mórbido do outro, quando a violência invade e profana entranhas tão jovens e por vezes inocentes.

A violência contra a mulher não arrefece. Quando se oferece oportunidade de trabalho no Brasil, com a abertura ainda colonial de frentes de serviços, oferece-se sexo, carne barata, ou até gratuita, oferece-se fome, descontrole, ant-desenvolvimento e um manancial de sofrimento que pode se perpetuar por inúmeras gerações após o fato. Com todo o discurso que temos hoje na ponta da língua, em torno da sustentabilidade, erramos sempre, quando o ativo envolvido é o corpo.

Holograma é a fantasia de captar a realidade ao vivo que continua – desde Narciso debruçado sobre a sua fonte. Suspender o real a fim de o imobilizar, suspender o real no mesmo momento que o seu duplo. Debruçamo-nos sobre o holograma como Deus sobre a sua criatura. “A Polícia Civil desarticulou, na noite de ontem, uma casa de prostituição que funcionava por meio de um esquema de tráfico interno de pessoas para exploração sexual, na zona rural de Vitória do Xingu, oeste do Pará. No local, cinco pessoas eram mantidas em cárcere privado – uma travesti, três mulheres adultas e uma adolescente – todas da região Sul do Brasil. O gerente e um funcionário do local foram presos em flagrante e encaminhados para a sede da Superintendência da Polícia Civil na Região do Xingu, em Altamira, para lavratura dos procedimentos policiais. O crime foi denunciado por uma adolescente de 16 anos, que fugiu ontem (13) do estabelecimento. A prática criminosa foi confirmada, por volta de 22 horas, durante operação policial deflagrada pela Polícia Civil sob a coordenação do superintendente regional, delegado Cristiano Marcelo do Nascimento”. (http://www.policiacivil.pa.gov.br/?q=content%2Fpol%C3%ADcia-civil-desarticula-esquema-de-tr%C3%A1fico-de-pessoas-em-vit%C3%B3ria-do-xingu)



Juliete Oliveira
Foto: Takeshi Mano
Altamira/PA, 15 de fevereiro de 2013

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Dentro da noite sem cor

DENTRO DA NOITE SEM COR


Patchwork livro para teatro de André Queiroz (Multifoco, 2011) é como o título quer: uma mixórdia, contudo tem o cheiro ocre das velas acessas em uma cerimônia fúnebre; todos os recortes escolhidos por Queiroz levam inevitavelmente à morte  perdidos & abismados fragmentos/emissários alados da morte (Ney Ferraz Paiva). Relaciono-me com a escrita desse autor há pelo menos doze anos, tomando parte muitas vezes da cozinha dele, dos bastidores de sua biblioteca, das conversas, vendo-o para além do distendimento que a escrita produz.
Certa vez ao ler um de seus romances tive reações cardíacas que não me agradaram, e me afastei por um tempo da sua produção ficcional; detive-me aos ensaios. Encaro agora quase como um atrevimento escrever sobre este livro, do qual ouvi falar muito antes de publicado, para encontrar outras bifurcações para o título, gosto de chamar de nome, penso que personifica a obra; e dessa vez tive de consultar a tradução, uma vez que inevitavelmente me remetia aos interessantes panos de prato que minha mãe confecciona. E foi com grata surpresa que percebi que André também teve esse delicado olhar sobre o cotidiano, o doméstico, o que está dentro, o que im-porta (em atenção à raiz da palavra importância).

te escrevo hoje porque fiquei sabendo que estás por estes lados. Recolheram a ti como a mim. Ironia do destino este quase encontro de que padecemos! Como estás? Soube que Ângela ainda te habita a alma?”

No jogo do tarô a carta XIII, a Morte, é a que mais provoca receios aos consulentes, mas de acordo com os textos antigos sobre a arte da adivinhação, a morte se tornou o símbolo que evidencia a inutilidade de toda a riqueza, poder ou vaidade. Por isso, esta carta simboliza a transformação que destrói as coisas para que possam ser reconstruídas depois. É uma transformação inevitável ou mesmo um rejuvenescimento. Em Patchwork a morte se dá muitas vezes como uma lembrança embotada do que não se viveu, do que por muito se esperou, ou como um devir, muito próximo a quem se consegue inclusive sentir o cheiro, como é o caso de O grito na suspensão da morte, em que um já espectro se coloca diante de soldados em um – não muito claro – campo de extermínio. E dali, daquela posição pouco confortável se põe como um vidente a imaginar as ínfimas possibilidades de vacilo do atirador, quando tem absoluta certeza que não existe nenhuma chance para outro desenlace.

O livro é para o teatro, mas poderia ser para tocar no rádio, ouvir em praça pública, em movimento e dança, essa cartografia de memórias recapituladas, sem algum apelo paisagístico, como bem disse Deleuze: No Ocidente a árvore plantou-se nos corpos, ela endureceu e estratificou até os sexos. Corpo-livro não estratificado no qual tudo se possibilita em tantas e tamanhas direções, fluxos, pensamentos. Daí o transcurso de Queiroz ir além da filosofia: Se eu fosse mulher cada poema de Álvaro de Campos seria um alarde para a vizinhança. Mas sou homem – e nos homens a histeria assume principalmente aspectos mentais. Assim tudo acaba em silêncio e poesia. Fernando Pessoa.

O mundo tornou-se caótico, mas o livro permanece sendo a imagem do mundo  sábia organização maquínica do pensamento. Quantos mundos cabem em Patchwork? Cabem o mundo da razão e des-razão, da vida e da morte, da tristeza e da alegria, da amizade e da rivalidade. Um dos homens mais sábios que existiu, disse que “a certeza da morte poderia adoçar cada vida com uma gota perfumada de leveza...” Friedrich Nietzsche. Queiroz trata a morte com a urgência cadente de quem nasce: ... as pernas o caminho, tem sede os olhos saltam para fora, quais os que vejo nessa aflição da hora empanturrada na morte de cá, senão os dela, a outra na descostura da pele – de dentro pra fora, o lance da vida em força, os olhos saltitantes em festa, são distantes os olhos no tempo a se fazer, será que duro este remendo. (“A criança breve”).

“- A gente não vai para o céu. É o oposto: o céu é que nos entra, pulmões adentro. A pessoa morre é engasgada em nuvem.” Mia Couto. A morte sempre rende e renderá boas histórias; nosso escritor não é imune a essa compreensão, sempre tocando as extremidades da vida com enorme delicadeza, com o sentido de que coisas frágeis demais podem ser rompidas, dependendo de como inclusive são olhadas. A literatura a que Queiroz se entrega em Patchwork tem um suave cheiro de morte como um bosque de eucaliptos após a chuva de verão. Não é uma leitura que de início fascine pela trama elaborada, depende de certo esforço, é um corredor apertado e pouco confortável que oferece ao principiante certa dificuldade, tem um ritmo próximo do rock & roll, uma batida psicodélica e imagética; posso estar falando de algo distante, estranho ao texto, mas compreendo que a literatura tem esse poder de reverberar de maneira diversa por cada ouvido.

Juliete oliveira
Imagem: Giovanni Segantini
Salgueiro-PE, 02 de abril de 2012

sábado, 7 de julho de 2012

América Latina (latindo a solidão?)



É com assombro que leio a recente declaração do analista Juan Carlos Monedero, ex-conselheiro do presidente Hugo Chaves: “a salvação do planeta está na América Latina”. Carta Maior, Sábado, 07 de Julho de 2012.

Muito mais do que uma constatação isso nos remete a uma sentença. Como assim? Novamente teremos, “nós os latinos americanos” que salvar algo? Sendo que sequer nos recuperamos de ter salvo vários países europeus via mercantilismo – mesmo tendo se passado alguns séculos, vivemos ainda à sombra da hecatombe que provocou o desaparecimento de nações inteiras e gerou a cultura escravocrata da qual não conseguimos nos livrar, sem falar no aniquilamento da possibilidade de se conhecer e fortalecer as culturas eliminada.

O argumento de Monedero se ancora na impossibilidade da Europa, frente aos problemas financeiros e sociais iniciados na última década, no desinteresse da China e incapacidade total da África, por razões que nem precisam ser citadas. “A sociedade pode executar as suas próprias ordens, e executa-as de fato: e se emite ordens incorretas em vez de corretas, ou se emite ordens em relações e assuntos em que não devia interferir, exerce uma tirania social mais alarmante do que muitos tipos de opressão política, dado que deixa menos meios de escapar”. John Stuart Mill. E mesmo que estas não sejam impostas através de punições extremas, podem penetrar muito mais profundamente nos pormenores da vida, escravizando a alma.

O que a América Latina, tem a oferecer nesse momento para a voracidade do mercado que se quer verde? Poderemos agora mesmo está sendo cooptados por um discurso encantador e nos deixando comprar pelo discurso uníssono, sem perceber que isso pode ser uma espécie de “tirania da maioria”. Ora, se a China pode se dar o luxo de ligar o botão do “F”, sendo ela uma das nações que mais atola o mundo com bugigangas muitas delas desnecessárias, produzidas sem levar em consideração o impacto gerado na extração de matéria prima; se a Europa mais uma vez vai levantar a sua cabeça e se manter acima da situação, ditando regras, as quais ela não se inclui como parte arrolada no cumprimento; se os Estados Unidos se mantêm como aquele a qual todo o resto do mundo deve prestar contas, devendo sempre ser servido. O que tem mais uma vez a América Latina com isso?

Sendo que, no que pese a aparente resolução de problemas relativos à democracia – neoliberal é verdade. Essa parte do continente ainda regurgita problemas primários que tendem cada vez mais eliminar parcelas da sociedade. “Sem uma crítica da racionalidade ocidental dominante pelo menos nos últimos duzentos anos, todas as propostas apresentadas pela nova análise social, por mais alternativas que se julguem, tenderão a reproduzir o mesmo efeito de ocultação e descrédito.” Boaventura de Sousa Santos.

E é exatamente o que se reproduz hoje em matéria de pensamento político, sob o folheado de esquerda que assumiu a América Latina, na visão dele ela traduz hoje um exemplo de modernidade a ser seguindo justamente pelo enfraquecimento disfarçado do capitalismo, sem esquecer é claro o camaleão que este é. Devemos passar a vista nas diferentes configurações nacionais de composição desta América Latina: Brasil desponta como um dos mais promissores mercados e galgou o lugar de a 6ª. economia do mundo, internamente apresenta números lastimáveis para saúde e educação, no quesito distribuição de renda se compara aos mais paupérrimos do planeta; Argentina vem se arrastando nas últimas décadas para conseguir se reerguer de um período nebuloso que alternou militarismos e neoliberalismo que aterraram o país minando quase que completamente as chances de colocar nos eixos novamente a economia interna dos hermanos; Cuba talvez hoje a maior expressão dos equívocos do comunismo como sistema de governo, claro que não exclusivamente pela atuação do povo cubano e sim pela exclusão propiciada pelo resto mundo a esse país que escolheu peitar o vizinho rico e poderoso; Bolívia se consome nas próprias questões étnicas, as quais não tem conseguido resolver mesmo diante da boa vontade de grande parte do continente após a eleição de Evo Molares; Colômbia e o seu escancaramento que permite que uma das pernas do país esteja sob o jugo Norte Americano e a outra ainda entregue aos narcostraficantes e às guerrilhas marxistas-leninistas das Farc; Peru do presente é determinado por sua condição histórica periférica (dependências de investimentos estrangeiros e rigidez de recursos) agravada pela não incorporação de parte considerável da população indígena à política e ao próprio Estado. Chile, uma nação que tem Fujimori na sua história não se recupera fácil dessa presença, talvez seja o que mais padeceu durante o regime militar e ainda hoje tenta se reerguer dos escombros e enterrar os fantasmas do período. Os demais países nem é necessário citar, tamanha é a dificuldade que encontram para se manterem como nação soberana e minimamente cumprirem os seus deveres como estado.
 
É esse o cenário que se desenha como o salvador do planeta! Há uma América Latina plural, diversa e que nunca poderá se manter em bloco com uma política hegemônica e planificada, há uma América Latina com problemas sociais bem próximos aos da África – exclusão social, políticas públicas equivocadas, privilégio de grupos (minorias), sem saneamento básico, e há uma América Latina rica em recursos naturais renováveis ou não, minérios, água, sol, florestas, culturas e todo um mosaico de encher os olhos de países velhos, cansados, exploradíssimos e com o olho comprido lá onde o novo é possível. Essa América Latina pode até ser o elemento considerado como salvaguarda do mundo, contudo corre o imenso risco de não salvar nem a si mesmo!

Juliete Oliveira
Belém-PA, 08 de julho de 2012

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Da educação mercadoria à certificação vazia



Enquanto não houver uma mudança radical, o próprio sentido de educação estará comprometido, posto que seu fim mais elementar não é atingido: em vez de promover a emancipação humana, produz lucro para o capital que só enxerga as camadas sociais C, D e E quando estas se apresentam como potencial mercado consumidor.

O ensino superior, público e privado, no Brasil passou por grandes transformações nas últimas décadas. Essas mudanças – travestidas de democratização, por favorecerem o acesso – visaram atender a uma proposta de privatização e barateamento da educação.
O Ministério da Educação (MEC) alardeia números, sobretudo para organismos internacionais – que obrigam o país a se enquadrar em padrões estipulados por eles na competição do mercado de consumo, trabalho e pesquisa –, que demonstram o crescimento do acesso ao ensino superior, ainda que distantes daqueles objetivados pelo Plano Nacional de Educação (PNE) (o acesso é de apenas 13,8% dos jovens, entre 18 e 24 anos). Porém, esse suposto processo de inclusão tem facilitado, para além do aceitável, um crescimento vertiginoso das instituições de ensino superior (IES) privadas, com desdobramentos que passam pela precarização do trabalho docente e pela formação duvidosa que essas empresas têm oferecido aos alunos por ela formados.
A predominância de objetivos economicistas em detrimento dos pedagógicos nas IES privadas permitiu um fenômeno relativamente novo no Brasil: a formação de conglomerados educacionais, grandes empresas, de capital aberto e com forte participação de grupos estrangeiros em seu quadro de acionistas. A autorização para funcionamento dessa espécie de oligopólio do setor educacional tem intensificado a visão mercantil da educação superior no Brasil. Os exemplos mais representativos desse modelo de organização empresarial na educação ficam por conta dos grupos educacionais Kroton-Pitágoras, Estácio de Sá, SEB (Sistema Educacional Brasileiro) e Anhanguera Educacional. Esta última, com a recente aquisição da Uniban, passou a ser o maior grupo educacional do país, atendendo aproximadamente 400 mil alunos em campi espalhados por diversos estados brasileiros. Além disso, manteve sua projeção de crescimento de atingir 1 milhão de estudantes em cinco anos, segundo matéria do Valor Econômico de 17 de novembro de 2011.
A alteração no padrão de financiamento das IES privadas promoveu uma mudança significativa no modelo de gestão: o papel que antes era predominantemente exercido por mantenedoras, de caráter familiar ou religioso, hoje passou a ser de responsabilidade de bancos ou fundos de investimentos que contratam executivos como seus representantes, padronizam procedimentos de relações de trabalho nos departamentos de recursos humanos e prestam contas ao fundo de ações. Decorre daí um perfil de gestão alinhavado com a lógica empresarial, sob responsabilidade de executivos, e muito distante dos objetivos educacionais que sempre foram sustentados por professores e pesquisadores.
Abandono do Estado
Tomado pela óptica do lucro, o setor educacional privado tem se valido, oportunamente, do abandono do Estado na oferta de vagas públicas para a formação superior. Dessa forma, as IES privadas, cuja existência deveria ter um caráter complementar, acabaram predominando e se consolidando em grupos que formulam e ditam as regras de seu interesse para a (des)regulamentação do setor, regras essas beneficiadas pelas chamadas políticas de parcerias público-privadas, as quais são alicerçadas sobre o princípio da transferência de dinheiro público para a iniciativa privada com a finalidade de que esta última cumpra o papel que o Estado se nega a exercer. No caso do ensino superior, essas transferências se dão predominantemente por meio do Programa Universidade para Todos (ProUni) e do Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (Fies), além dos programas de benefícios de isenção fiscal oferecidos pelo BNDES. Nesse ponto, o discurso falacioso do Estado e o do setor privado convergem: trata-se de iniciativas e proposições que manifestam concretamente a preocupação com a formação do brasileiro e com o desenvolvimento do país!
De modo geral, a consolidação da mercantilização da educação e a formação de oligopólios educacionais têm ocorrido com base na incorporação de princípios e fundamentos do setor empresarial, ou seja, na otimização dos recursos. Como afirma Marilena Chauí (2001), “a Universidade está estruturada segundo o modelo organizacional da grande empresa, isto é, tem o rendimento como fim, a burocracia como meio e as leis do mercado como condição”. Essa fórmula – clássica do neoliberalismo – consiste na diminuição das despesas para o consequente aumento dos lucros. Assim, com vistas a assegurar um perfil rentável − à empresa, é claro −, torna-se necessária a precarização das relações de trabalho: redução de salários, perda de direitos, ameaças e cobranças pelo desempenho da instituição nas avaliações externas promovidas pelo MEC são alguns traços da rotina de professores das IES privadas.
Ao mesmo tempo, concorre para intensificar os contornos dramáticos desse quadro a expansão da modalidade EaD (educação a distância), que em 2010 fechou o ano com 973 mil alunos matriculados, o que corresponde a 30% de todos os universitários em instituições privadas. Nesse caso, a educação mediada pela tecnologia, que deveria servir para aproximar os extremos sociais, acaba por aprofundá-los. Contudo, para os empresários, o aliciamento desse recurso é tomado como mais uma vantagem mercadológica capitalista, sobretudo por potencializar sua capacidade de lucro.
Na outra ponta, os salários praticados nas IES privadas são – via de regra – aviltantes, o que obriga muitos profissionais a lecionar em várias instituições, seja para compor a renda, seja para se prevenir das demissões, muitas vezes arbitrárias. Nesse contexto, os professores se veem impedidos de desempenhar tarefas diretamente ligadas à sua função (e ao ensino superior, ou seja, ensino, pesquisa e extensão), absorvidos que estão por uma jornada de trabalho extenuante. No entanto, paralelamente a isso, ocorre um processo silencioso de captura da subjetividade dos docentes com objetivo de estabelecer uma competição interna, cuja face mais alarmante é a perda da autonomia. Como toda competição tem exigências, impõe-se que esses profissionais – para terem condição de competir – sejam aguerridos, “pró-ativos”, competentes e indiferentes às questões coletivas, o que os leva a um distanciamento de seus sindicatos e associações e permite, muitas vezes, que sejam – deliberadamente – vistos como mão de obra manipulável pelos patrões.
Precarização e intimidação
Se de um lado temos a perda da autonomia dos professores como uma ameaça à própria noção de função docente, de outro notamos que, por parte dos empresários da educação, a oferta de uma formação aligeirada tem exigido profissionais cada vez menos críticos e progressivamente mais alienados da prática educativa. Não é raro o relato de professores do ensino superior que têm seus conteúdos – planos e ementas de cursos –, bem como suas avaliações, elaborados por um terceiro que nunca sequer esteve em uma sala de aula. Essa tentativa, por parte dos patrões, de padronizar a prática pedagógica para garantir um rendimento mínimo nas avaliações externas evidencia de maneira cabal seu propósito de controle absoluto sobre a mercadoria que vendem.
Dessa forma, a reação e a resistência a essa prática de mercantilização da educação impõem grandes desafios. No estado de São Paulo, que acompanhamos mais de perto, tem sido cada vez mais difícil o enfrentamento com os patrões do ensino superior nas campanhas salariais organizadas por nossa federação, a Fepesp (Federação dos Profissionais de Educação do Estado de São Paulo), pois há um evidente conflito nas pautas apresentadas para negociação. Do lado de lá, a ofensiva é para subtrair direitos historicamente conquistados e que, vistos com a luneta do capital, representam entraves normativos à expansão dos lucros. Em razão disso, questões como plano de carreira, regulamentação da EaD e aumento real são deliberadamente ignoradas pelos patrões, que, por sua vez, promovem lobbiesjunto ao Poder Legislativo, a fim de que as regras do setor continuem a beneficiá-los.
Entretanto, a predominância de valores empresariais na organização das IES e a falta de regulamentação efetiva por parte do MEC têm imposto uma permanente ameaça, ainda que velada, que é o desemprego. Assim, os professores insatisfeitos com salários e condições de trabalho incorporam a responsabilidade incutida pelo patrão, de que o mercado funciona assim: os insatisfeitos que se mudem. A aceitação dessa ideia leva a um comportamento defensivo, porque nos faz crer que nada pode ser feito e, por isso mesmo, qualquer iniciativa coletiva deve ser vista como prejuízo ao próprio trabalhador.
Há também que se ressaltar a necessidade urgente de que o debate sobre a educação seja tomado como fundamento para um crescimento qualitativo e efetivo do Brasil, sobretudo para a população que ainda anseia conhecer na prática a longo prazo esse crescimento. Para validarmos o princípio democrático do direito à educação, sem, contudo, ignorar que o mercado do ensino privado não arrefecerá a curto prazo, precisamos assegurar o investimento de 10% do PIB na educação pública – que estimamos universal e de qualidade –, a fim de que ela seja o referencial para o setor privado, e não o contrário.
Enquanto não houver uma mudança radical nesse quadro, o próprio sentido de educação estará comprometido, posto que seu fim mais elementar não é atingido: em vez de promover a emancipação humana, produz lucro para o capital que só enxerga as camadas sociais C, D e E quando estas se apresentam como potencial mercado consumidor.
A forte presença do controle corporativo em um setor essencial como a educação provoca sérias fissuras na malha social, na medida em que os desdobramentos da transferência tácita da responsabilidade do Estado para a iniciativa privada têm autorizado o funcionamento de fábricas de diplomas com certificação vazia, para uma população que, embriagada pela democratização do acesso, ainda não se sabe enganada.

* Andrea Harada Souza é Professora de literatura, presidente do Sinpro Guarulhos e membro da coordenação estadal da CSP-Conlutas.
** Publicado originalmente no site Le Monde Diplomatique.
(Le Monde Diplomatique)
Imagem: Gordon Matta Clark

sexta-feira, 6 de abril de 2012

De queijo, impunidade e outros odores sujos da lei
por Juliete Oliveira

Tribunais podem cheirar a queijo, instalados numa venda do Mississippi rural numa história contada por William Faulkner. Outros podem exalar odores menos palatáveis, ainda que sediados numa corte suntuosa e com localização nobre numa capital federal. O mau cheiro da sentença – a um só tempo técnica e política, ética e jurídica da ministra do Superior Tribunal de Justiça Maria Thereza de Assis Moura contra vítimas de estrupo. Três meninas de 12 anos. O mau cheiro e a vergonha assinalam o horizonte extenso dessa questão. Os desastres que expõem. Quem estará resguardado no ambiente refinado dos tribunais, se aí se fabricam histórias a partir de realidades falsas, alucinadas, para lá de ficcionais? Prostitutas, meninas ou adultas, desde então com culpa permanente no cartório, a se validar o senso comum e o preconceito das ruas na interpretação de uma corte de justiça. Tal seria a condição da prostituta, a culpa? Prostituta, no Brasil, não teria defesa? Seria este o crime preferencial, verdadeiro? Ou bem ao contrário do que supõe a ministra, sua alegação se fundamentaria numa visada arcaica, muito antiga mesmo, constituída por uma instância de autoridade contra outro que sequer tem o corpo para se defender? Até mesmo o Estado patriárquico pode sentir aí o cheiro nauseabundo do preconceito e da impunidade. A determinação da ministra, ou seria mais correto dizer, seu discurso, incorpora a cifragem da censura e do recalcamento meramente moralista e retrocede a uma sociedade em que as desigualdades prosperam, sobretudo porque as vítimas “tomam o lugar” do réu nos tribunais. Com efeito, um parecer de “justiça” que vê em meninas prostituídas tamanha periculosidade – “as vítimas, à época dos fatos, lamentavelmente, já estavam longe de serem inocentes, ingênuas, inconscientes e desinformadas a respeito do sexo”, não corresponde a nenhuma das “mudanças sociais” operadas na sociedade brasileira, antes, ao retrocesso das mutações, às viragens próprias do poder. Ou ainda mais, remete a uma autoridade publicamente reconhecida que diverge da obtenção legal e consensual de que a infância deve ser protegida, sobretudo da exploração sexual e suas variantes. Uma vez que meninas não vêm ao mundo para ser prostitutas. São crianças, e se tão logo estão “longe de serem inocentes”, esse é um desiquilíbrio que cabe à sociedade e à justiça restabelecerem. Que meninas de 12 anos possam ser consideradas nocivas por conta da experiência dramática em que vivem, podendo inclusive ser penalizadas pela vulnerabilidade da sua inocência, torna irredutível o desenrolar de uma sessão na corte e do seu registro escabroso: uma juíza do Supremo Tribunal de Justiça conflituar os termos experiência (“conhecimento”) e inocência (“ser não nocivo”) em defesa de um estuprador, libidinoso e patético. Por que Faulkner teria instalado uma sessão da corte numa venda de arrabalde? Talvez porque os produtos ali expostos, todos de baixa qualidade e possivelmente fora do prazo de validade, se equiparam aos pronunciamentos e decisões tomadas – “chegando em intermitentes lufadas, momentâneas, breves, por entre o outro cheiro, constante, o cheiro e o senso, de medo...” Crianças que desde tenra idade se vendem por alguns trocados nas ruas das cidades Brasil afora, atravessam enfileiradas de uma ponta à outra na imagem desolada destas três meninas que, ao que parece, ao que tudo indica, foram vendidas agora, sob o abrigo da lei e da justiça, uma vez mais.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

O que aprendi com as nuvens

                                                                                         Para o VII Fórum Brasileiro de Educação Ambiental


Ao sobrevoar Salvador numa aeronave pequena advinda do sertão pernambucano, tive dois insights, o primeiro: as cidades, quando vistas do alto, por maiores que sejam se constituem de pequenos pontos, quase que como pontinhos que alteram a continuidade da paisagem da terra. O segundo: o parcelamento do solo pode ser razoavelmente compreendido quando se tem em mente essa perspectiva da geografia lá em baixo. 

Mas o que se sabe mesmo com extrema clareza, é que essa partilha obedece a fatores outros que não se filiam única e exclusivamente à alternativa locacional justa, para quase todos os ambientes. Jean Baudrillard em seu “simulacros e simulações” versa sobre a distribuição aérea dos hipermercados: Há que ver como centraliza e redistribui toda uma região e uma população, como concentra e racionaliza horários e percursos, práticas – criando um imenso movimento vaivém. Contudo, ele vai mais além, denuncia que os abjetos expostos nesses ambientes não são mais mercadorias e sim testes, que nos interrogam e somos intimados a responder e que a resposta está incluída na pergunta. Uma mensagem dos media.


O que me levava a Salvador buscava discutir também esses pontos, talvez por isso a percepção das nuvens envolvessem tais aspectos. O VII Fórum Brasileiro de Educação Ambiental se constituiria num espaço “livre” para fazer voar o pensamento. Muito mais do que as condições climáticas, bióticas, hídricas do ambiente lá esteve em discussão o sujeito, como uma instância não evidente a se restabelecer: não basta pensar para ser, como proclamou Descartes, já que inúmeras outras maneiras de existir se instauram fora da consciência, ao passo que o sujeito advém no momento em que o pensamento se obstisna em apreender a si mesmo e se põe a girar como um peão enlouquecido, sem enganchar em nada dos territórios reais da existência, os quais por sua vez derivam uns em relação aos outros, como placas tectônicas sob a superfície dos continentes.


Descobrimos no Fórum a necessidade de qualificar a nossa participação nos processos decisórios, e que devemos enxergar o projeto de desenvolvimento ao qual o Brasil se atrela e que isso faz parte de um projeto mundial que não leva em consideração subjetividades e singularidades comunitárias, uma recusa que nos adoece imensamente. “Trata-se, na verdade, de fazer que intervenham saberes locais, descontínuos, desqualificados, não legitimados (pelo olhar estrangeiro). Contra a instância teórica unitária que pretende filtrá-las, hierarquizá-las, ordená-las em nome de um conhecimento verdadeiro, em nome dos direitos de uma ciência que seria possuída por alguns.” Salienta Michel Foucault.


Estando ali e aprendendo uns com os outros fomos além: o saber empossando a vida toda, em um curso apaixonado e imprevisível próprios dos saberes que não são amarrados por convenções e estão dispostos como uma xícara de café oferecida ao amigo em um dia qualquer.


Juliete Oliveira

Salgueiro-PE, 02 de abril de 2012.