segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012


Belo Monte: “O capital fala alto, é o maior Deus do mundo”


“Todas as informações estão sendo dominadas por essa democracia ditatorial, que nunca pensei que pudesse existir. Ela é ainda pior que a militar, porque é enganosa, porque diz ser uma coisa e é outra”, afirma a religiosa.

Há 35 anos, Irmã Ignez Wenzel deixou as atividades que desenvolvia no Colégio São João, em Porto Alegre, onde trabalhava junto aos Lassalistas, para abraçar a causa dos colonos que migraram para o Pará em função da construção da Rodovia Transamazônica (BR-230). Em Medicilândia (PA) e Altamira (PA), iniciou os trabalhos pastorais, visitando mais de 80 comunidades, onde pôde observar de perto o abandono do Estado e os problemas sociais que se arrastam há anos na região.
Atualmente, ela vive em Altamira (PA), e está engajada com o Movimento Xingu Vivo para Sempre na luta contra a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte. Em visita ao Rio Grande do Sul, Irmã Ignez recebeu a IHU On-Line no Convento Monte Alverne, onde concedeu a entrevista a seguir. Por trás da voz tranquila, encontramos uma mulher incansável, que conhece as mazelas do interior paraense e está disposta a continuar lutando em defesa da vida, a exemplo de São Francisco de Assis. Depois de conviver mais de três décadas do outro lado do país, ela é enfática: “O que mais me indigna é a incompetência, a incapacidade do povo do Sul e do Centro de julgar a situação do povo do Norte”, referindo-se à intolerância e ao descaso do governo federal com as populações que dependem do Rio Xingu para sobreviver. Na entrevista a seguir, ela explica quais são as contradições da usina hidrelétrica de Belo Monte e critica o posicionamento de alguns cristãos, que não se manifestam em relação aos problemas sociais e ambientais da região. “A voz maior é a do bispo, Dom Erwin Kräutler, e muitos já se sentem contemplados com a fala dele. É uma lástima. Nem todas as religiosas estão engajadas com estas questões”, lamenta.
Irmã Ignez também denuncia as artimanhas do governo e da Norte Energia, empresa responsável pela construção, operação e manutenção da hidrelétrica de Belo Monte, para cooptar indígenas e ribeirinhos que estavam engajados com as manifestações contra a hidrelétrica, e a postura da Advocacia Geral da União (AGU), que solicitou o afastamento do procurador da República Felício Pontes Jr. dos processos que envolvem a construção de usinas hidrelétricas. “Ele era nosso grande líder, estava ao nosso lado, era coerente, de pé no chão. O governo está nos tirando o último fio que nos esquentava na solidão, a nossa força legal, Felício Pontes”, afirma.
Ignez Wenzel é graduada em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e em Teologia pela Pontíficia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS). É religiosa da Congregação das Irmãs Franciscanas da Penitência e Caridade Cristã.
Confira a entrevista.


IHU On-Line – Desde quando a senhora vive em Altamira, no Pará? Pode nos contar um pouco da sua trajetória?
Ignez Wenzel – Estou em Altamira há 35 anos. Fui morar no Pará porque Dom Eurico Kräutler, tio de Dom Erwin, veio a Porto Alegre pedir socorro para a Igreja da cidade. Ele queria que enviassem irmãs, irmãos e padres para Altamira porque, em função da construção da Rodovia Transamazônica, milhares de famílias de colonos migraram para a região e não havia padres que pudessem assistir essas pessoas e tampouco escolas para as crianças. Três congregações foram enviadas para lá: os Lassalistas, as Irmãs Escolares de Nossa Senhora, nós, Irmãs Franciscanas da Penitência e Caridade Cristã, e três padres diocesanos. As Irmãs Escolares de Nossa Senhora abriram escolas em Brasil Novo (PA), nós nos instalamos em Medicilândia (PA), os Lassalistas, em Uruará (PA), e os padres diocesanos atuaram nas três regiões, atendendo o povo e organizando as comunidades. O projeto de colonização visava a dividir os imigrantes de acordo com a sua origem, para que o povo brigasse entre si e não com o governo. A ideia era dividir para dominar. Então, a Igreja católica foi o centro das atenções no sentido de dar apoio a esse povo inseguro e abandonado, por meio das Comunidades Eclesiais de Base. Em 1987, surgiram os primeiros municípios na região e as comunidades passaram a ter autonomia e a se organizar como estrutura política e social de defesa da própria comunidade. Eu morei durante treze anos em Medicilândia, onde trabalhava diretamente com o povo e visitava cerca de 80 comunidades, onde formávamos lideranças. Quando mudei para Altamira, ajudei a articular os movimentos sociais com as pastorais.


Luta


Hoje moro em Altamira, e participo da luta contra a construção de Belo Monte, um projeto que se estende desde a década de 1980. Em 1989, nós participamos de uma grande mobilização contra a construção da hidrelétrica: mais de 800 indígenas do Brasil e de outros países participaram. Na ocasião, o governo federal pleiteou um empréstimo no Banco Mundial para construir a hidrelétrica, mas os organismos sociais conseguiram barrar este empréstimo e a discussão acerca da construção da hidrelétrica ficou adormecida. Depois dos anos 2000, o debate reacendeu e começamos a discutir a questão novamente. Em 2007, realizamos um encontro com todos os caciques indígenas e foi nesta ocasião que adotamos o nome Xingu Vivo para Sempre, após um dos caciques gritar: “Nós queremos o Xingu vivo para sempre”. Percebemos aí uma filosofia de vida e desde então nos tornamos o Movimento Xingu Vivo para Sempre. Nesta ocasião, os indígenas pediram para organizarmos uma grande mobilização envolvendo a sociedade civil a fim de discutir as implicações da construção de Belo Monte. Reunimos cerca de cinco mil pessoas. Os indígenas coordenaram parte do evento onde todo mundo teve direito de fala, inclusive o governo e os representantes da Eletrobrás. Durante a explanação do representante da Eletrobrás, os indígenas começaram a dançar, demonstrando que não estavam satisfeitos com os argumentos dele. Ao manifestar que também não concordava com os indígenas, o representante da Eletrobrás caiu no meio deles e sofreu um pequeno corte no braço. Algumas pessoas ainda respondem processo com a alegação de terem armado os indígenas. Mas não foi isso que aconteceu. Essas pessoas apenas possibilitaram os ornamentos necessários para uma manifestação digna da cultura deles. Em função desse incidente, nós entramos em crise e acabamos cancelando uma passeata que ia ocorrer na cidade. Porém, não cancelamos o evento.


IHU On-Line – Como a população que reside em Altamira reage diante da construção de Belo Monte? Os moradores participam das manifestações e demonstram um posicionamento em relação ao projeto da hidrelétrica?
Ignez Wenzel – O governo sempre consegue intimidar a população com ameaças. Muitas pessoas são contra a construção da hidrelétrica, mas dizem que não podem fazer nada em relação à decisão de construí-la. A maioria do povo é contra a barragem, mas não tem condições psicológicas de reagir. A Norte Energia e o governo têm estratégias: eles estudam as lideranças para depois cooptá-las. Agiram assim com os ribeirinhos e fizeram o mesmo com os indígenas. Recentemente, nós (civis, movimentos do Brasil inteiro e indígenas) estávamos acampados em cima de um canteiro de obras de Belo Monte, quando, de repente, as lideranças indígenas desapareceram e, ao voltarem, o cacique ordenou que recolhessem suas coisas e fossem embora. Ninguém entendeu esta atitude. Quando eles chegaram no município de Conceição do Araguaia (PA), o cacique fez várias compras. O que aconteceu? A Norte Energia os chamou, deu dinheiro e nos deixou com as “calças na mão”. Na semana passada, fizemos um protesto por causa do início das obras da hidrelétrica, barrando uma região do Xingu. Levamos duas faixas: uma de 40 e outra de 15 metros de comprimento, onde dizíamos que não queremos Belo Monte. Barramos por uma hora e não deixamos os caminhões passarem porque Belo Monte é contra a lei, contra a Constituição.


IHU On-Line – Como a senhora se sente quando vê os casos de cooptação dos indígenas e ribeirinhos que estavam engajados nesta luta?
Ignez Wenzel – Eles serão prejudicados, ficarão sem as terras, sem a sua cultura, e serão os futuros “beirantes de estradas”. Sentimos uma indignação que quase não conseguimos expressar. Os ribeirinhos são ainda mais frágeis do que os indígenas, porque eles moram sozinhos e não têm um clã. Um ribeirinho ganhou R$ 900 mil pelo seu lote e arrastou mais 12 pessoas com ele. Eles vão viver em uma terra seca. O rio vai secar mais ou menos 140 quilômetros. Apesar de tudo isso, continuamos a nossa luta e temos vários centros de Xingu Vivo espalhados pelo Brasil, nas cidades de Belém, São Paulo, Santa Catarina, São Leopoldo. A índia Sheila Juruna e Antônia Melo já foram para os Estados Unidos e para a Europa, conseguimos entrar com uma ação na Corte Interamericana, mas o governo brasileiro disse que isso era uma banalidade e que nada do que estamos falando era verdade. Notamos que os governos Lula e Dilma têm a seguinte filosofia: “Acolham todo mundo, mas toquem para frente, não parem”. Pessoalmente, estou muito aflita porque o Xingu fica no meio da Amazônia, onde está prevista a construção de mais de 300 barragens até 2050. O que vai sobrar do ecossistema? Os colonos não podem derrubar uma árvore, e os envolvidos com Belo Monte desmataram uma área enorme. Essa madeira está parada e será utilizada para outros fins.


Dilemas sociais

O sistema econômico nos explora. Desde a construção da Rodovia Transamazônica, milhares de pessoas migraram para Altamira e a cidade continua com os mesmos hospitais, a mesma infraestrutura. As pessoas que trabalham em torno de Belo Monte sempre têm prioridade nos atendimentos hospitalares. A população já fez manifestos contra isto, mas nada acontece porque a prefeitura é dirigida pela Norte Energia. As escolas, as estradas e os postos de saúde prometidos ainda não foram construídos. O fedor das ruas continua o mesmo de 20 anos atrás. Em um determinado momento da construção de Belo Monte, Altamira vai receber 18 mil trabalhadores e em torno de cem mil habitantes. Hoje os universitários que chegam do interior dormem em cima de colchonetes, têm de procurar comida e geralmente não encontram nada para comprar. O preço dos aluguéis aumentou mais de 300%, enquanto que os chefes de Belo Monte moram em apartamentos que têm custo alto e são pagos pela Norte Energia.


IHU On-Line – A Igreja continua engajada na busca de solução para esses problemas, como estava há 35 anos? Como os membros da Igreja se posicionam diante de Belo Monte e desses dilemas sociais?
Ignez Wenzel – Alguns estão atuando junto com o movimento Xingu Vivo para Sempre, mas dentro da Igreja também tem pessoas que sentem medo. A voz maior é a do bispo e muitos já se sentem contemplados com a fala dele. É uma lástima. Nem todos estão engajados com estas questões.


IHU On-Line – Dom Erwin está à frente como bispo, mas terá de deixar o cargo ao completar 75 anos. Quem poderá assumir o cargo dele? Como ficará a luta contra a construção da usina, considerando que ele é visto como referência hoje?
Ignez Wenzel – Ainda não tivemos tempo de pensar na saída de Dom Erwin, mas talvez ele seja substituído por um bispo de fora. Devido às circunstâncias, certametamente haverá mudanças. A nossa prelazia começa no Mato Grosso e termina em Macapá, no Estado do Amapá, no outro lado do Rio Amazonas. É uma extensão muito grande e não há como atender a todos. Este ano, Dom Erwin completará 73 anos, e aos 75 tem de avisar ao Papa que está na hora de deixar o cargo, mas nem sempre o Papa atende logo. Portanto, poderá ficar mais alguns anos ou poderá sair em seguida. Mesmo deixando o cargo, não deixará de lutar; talvez disponha de mais tempo. De toda maneira, não deixará de ser uma liderança nossa. Liderança não se prende.


IHU On-Line – Ele continuará sendo influente nesta luta?
Ignez Wenzel – Sim, porque será sempre o bispo do Xingu. Quando se aposentar, ele será “emérito”, e aí vão dizer que ele tem muito mérito. (Risos)


IHU On-Line – A senhora percebeu alguma mudança no debate sobre Belo Monte após a saída de Ana Júlia Carepa (PT) e a entrada de Simão Jatene (PSDB) no governo estadual?
Ignez Wenzel – Não gosto do partido atual porque ele não tem uma postura solidária, mas, por outro lado, foi ele quem deu o grito de que o governo federal do PT desrespeita a lei do Estado.
Em função do PT, o movimento Xingu Vivo para Sempre ficou dividido. Nós trabalhávamos dentro da Fundação Viver, Produzir, Preservar e fomos expulsos. Pedimos ajuda ao bispo, para termos um espaço para reunir as pessoas e não sermos manipulados. Dói muito ver que os mesmos companheiros e colegas que lutaram para conseguir melhorias sociais não estão mais do nosso lado. Em relação à Ana Júlia, posso dizer que não fez quase nada.


IHU On-Line – Como a mídia paraense atua em relação a Belo Monte?
Ignez Wenzel – A mídia paraense aparece quando os veículos de outros estados pedem informação. A TV Cidade Livre, da Prelazia, tem um jornal diário de 30 minutos e é favorável à luta contra Belo Monte. Somente as rádios comunitárias divulgam informações, as demais estão fechadas para esta questão. Todas as informações estão sendo dominadas por essa democracia ditatorial, que nunca pensei que pudesse existir. Ela é ainda pior que a militar, porque é enganosa, porque diz ser uma coisa e é outra.


IHU On-Line – O que mais lhe causa indignação?
Ignez Wenzel – O que mais me indigna é a incompetência, a incapacidade do povo do Sul e do Centro para julgar a situação do povo do Norte. A presidente Dilma declarou o seguinte, recentemente: “Nós vamos tirar esse povo que vive em palafita da miséria”. Há dois erros nessa afirmação: o povo não vive na miséria; vive na pobreza, pois eles estão cuidando da alimentação; e palafita é um tipo de construção necessária na Amazônia, onde, em determinados meses, as casas próximas ao rio ficam debaixo d’água caso não sejam construídas no alto. A fala dela demonstra a falta de compreensão do que é a Amazônia. O governo também não entende o que é a floresta e a biodiversidade. Há comentários de que o interesse do governo não é a construção da hidrelétrica e, sim, o minério que tem na região. No período de estiagem, provavelmente, a hidrelétrica não vai gerar energia. Para que gastar R$ 31 bilhões com uma coisa que não funciona? Quando a Irmã Dorothy esteve no Canadá, disse que em uma reunião foi dito que Belo Monte é necessário para viabilizar os trabalhos na mineração, ou seja, ao secar o rio, a água deixará de ser um incômodo.


IHU On-Line – Qual a situação das comunidades que vivem em Tucuruí? A vida delas mudou após a construção da hidrelétrica?
Ignez Wenzel – A hidrelétrica de Tucuruí foi construída há 25 anos e os pobres vivem debaixo da linha de alta tensão, sem acesso à energia. Tucuruí é pobre, miserável. Muitos moradores foram expulsos de lá e mudaram para Altamira, de onde serão expulsos novamente. Em função de Belo Monte, Altamira vai enfrentar um problema gravíssimo de consumo de drogas e exploração sexual de meninas e adolescentes. Altamira não foi preparada para as transformações geradas pela Rodovia Transamazônica. Vi colonos passarem fome colhendo quinhentos sacos de arroz, porque não tinham como trazer o alimento para a cidade. O jeito de eles sobreviverem é encostar-se na cidade para, pelo menos, deixar os meninos estudarem e dar um jeito vendendo picolé, engraxando sapatos. A cidade inchou, já tem mais de cem mil pessoas, e apenas 6% das casas têm água encanada.


IHU On-Line – Além do medo de as pessoas manifestarem opinião, a que atribui o aumento desses problemas sociais e a falta de mobilização?
Ignez Wenzel – Na época da ditadura, todo mundo calava com medo de ser preso. Os poucos que falaram foram mortos. De modo geral, a população não tem estudo. As nossas escolas são tão fracas, que passam todos os alunos para frente. Parece que o governo não quer povo culto; quer gente de cabresto. Por isso, nós fomos contra a divisão do Pará, pois caso o Estado fosse dividido, teríamos mais ladrões. Com essa discussão, poderíamos ter feito uma boa reflexão, mas nenhum partido político fez isso.


IHU On-Line – A Igreja estava dividida em relação à divisão do Pará?
Ignez Wenzel – Nós não falamos muito sobre isso porque estamos mais preocupados com a situação do Xingu. De todo modo, éramos contra a divisão. Organizamos um debate e um seminário na universidade, mas poucas pessoas participaram. O povo não estava muito interessado.


IHU On-Line – Qual é o desafio dos movimentos sociais? Como interpreta o Fórum Social Mundial e o engajamento de alguns partidos nesse projeto?
Ignez Wenzel – Os movimentos e os partidos fizeram uma associação, “contanto que a fatia maior seja para mim”, conforme dizem. Nós participamos do Fórum Social Mundial, realizado em Belém, levamos sete ônibus lotados, e na ocasião disseram que nunca um Fórum Social teve tantos pobres como aquele. Naquele tempo, nós tínhamos esperança, mas depois foram cortando todos os naipes.


IHU On-Line – Vocês estão preparando alguma atividade para lembrar a memória da Irmã Dorothy, sete anos depois do seu assassinato? Como está a questão dos conflitos na região?
Ignez Wenzel – A região está pior do que antes, porque os fazendeiros voltaram e, como o prefeito de lá é do PT, ele é safado como os outros. Então, não se pode esperar nada. Dia 12 de fevereiro será realizado um grande encontro e uma celebração. À tarde irão até a sepultura dela, que fica no meio da mata, onde ela pediu para ser enterrada. Hoje, muitos militantes que participavam do movimento da Irmã Dorothy estão do outro lado. O capital fala alto, é o maior Deus do mundo.


IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?
Ignez Wenzel – Eu quero dizer que ainda tem treze ações no Supremo Tribunal Federal, as quais devem ser julgadas, mas eles não têm coragem de julgá-las. Não sei como está a situação do procurador Felício Pontes, que foi impedido de desempenhar suas funções em defesa de populações atingidas por projetos hidrelétricos no Pará. Ele era nosso grande líder, estava ao nosso lado, era coerente, de pé no chão. O governo está nos tirando o último fio que nos esquentava na solidão, a nossa força legal, Felício Pontes. Mas nossa esperança de vida do Xingu vivo continua.

Por Patricia Fachin, Thamiris Magalhães e Luana Nyland, do Adital
Publicado originalmente no site IHU- Online e retirado do Adital e Revista Envolverde.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

 Pensar as cidades – habitá-las

A casa lutava bravamente... a princípio ela se queixava. Gaston Bachelard


Um dos mais importantes eventos nas últimas duas décadas envolvendo coletividade e discurso comum para a transfomação social – o Fórum Social Mundial, encerrou suas discussões no último domingo. Nesta versão, o temário girou em torno da vida urbana, “Uma nova cidade é possível”, entre a afirmação e a pergunta, teve-se a cidade, inclusive a grande métropole, como o lócus de um redirecionamento do olhar sobre o meio, ou seja, em todas as direções, para o alto e nas grandes extensões, pensar a cidade. Uma vez que a questão ambiental esteve tomada por quase meio século de um olhar quase biologizante sobre o meio. Um olhar estremamente preocupado em promover a preservação de espécies e mobilizar modos para que se produzisse alimentos da forma mais sustentável possível, e uma infinita parcela de recursos e esforços fosse dispensada para tanto, sem lograr êxito.

Revelador que algo tão importante como as noções ecológicas levadas a tramar a urbanidade, não tenham sido consideradas ao longo desse processo de criação de protocolos, em que o pensamento sobre o meio ambiente artificial se fortaleceu no plano do discurso e das convesões escritas e não na prática, sobretudo como atitude liberadora capaz de  gerar práticas de liberdade. Enquanto isso, as cidades fervilham como cárcere estatal – sem estruturas necessárias, equiamentos, serviços, a  propalada qualidade de vida. Nos anos iniciais do novo milênio viu-se a ocorrência de sinistros há bem pouco tempo inimagináveis, como o furacão em Santa Catarina, enquanto os boletins climáticos e as previssões de mudanças para o clima se tornavam “apenas” cada vez mais alarmistas. Não sem razão. Quem poderá prever para quem trabalha a máquina da verdade midiática? A quem interessa o extermínio de vasta parcela da população?

O indivíduo está para a cidade hoje, como um elemento, um pequeno ponto em um estado constante de guerra. Fracassando sempre, perdendo para o saneamento inexistente, as doenças que decorrem do descaso político, para o trânsito sempre incentivado pela propaganda cada vez mais neurotizante do último modelo de veículo automotor, que jamais  assume a parcela de responsabilidade de pensar as estruturas espaciais adequadas ao trânsito, e para o estado constante de violência que o cerca por todos os lados, motivada pelas desgraças individuais e pelas posições coletivas inflacionadas pela ausência de jurisprudência.

Em meio século as populações urbanas cresceram, claro que isso também favoreceu cada vez mais a concentração fundiária de territórios rurais, nada foi executado sem se pensar que os que lucram sempre, devem lucrar ainda mais com a situação. Contudo, politicamente – partidariamente falando, no caso do Brasil – são incentivadas a ocupação de áreas consideradas frágeis a esse destino: encosta de morros, matas ciliares, áreas de vazantes de rio, locais conhecidos de drenagem natural. E a natureza se transformou em um problema, assim como as populações.

Há cerca de 40 anos atrás Belém do Pará, considerada uma das metrópoles da Amazônia, era ainda uma cidade provinciana, com vastas áreas verdes a cercar o núcleo, mas bastaram duas décadas de política neoliberal para a cidade se transformar em um verdadeiro barril de pólvora – altíssimos índices de violência e morte atreladas à todas as situações anteriormente descritas. Como uma bomba relógio, Belém se transformou um lugar indesejável, concentrando em suas imensas áreas de invasão um gigantesco problema social – áreas doadas ou liberadas por governos corruptos no exercício pleno da insaciável barganha pelo voto. Como Belém, as grandes cidades brasileiras se tornaram imensas periferias. Populações inteiras entregues à própria sorte em territórios controlados pelos fora-da-lei sob a proteção dos que se dizem cumprir a lei, numa relação de poder em que a única regra que vale é o vale tudo.

No Fórum se fez ouvir lados opostos – a presidente Dilma lá esteve com seu discurso sem simbiose e aliança, discurso frágil como um ovo. Mas quem fez a omelete foi o Sociólogo e professor Boaventura de Sousa Santos. A certa altura, ele afirmou que "o grande desafio do direito à memória é que é o direito ao futuro, mas também ao passado e ao presente". Diferenciou o direito à memória do direito à história. "O direito à história é o direito às histórias silenciadas pelo saber e pelo poder oficial. São aquelas histórias que aprendemos nas escolas e que vigoram como sendo a verdade dos tempos. A isso chamo de sociologia dos ausentes", disse. É o silêncio em relação aos oprimidos, discriminados até pela forma de seu sofrimento, seja a miséria, a fome, a doença, a droga, o desespero, a loucura. Sofrimentos que são engendrados cotidianamente nas vértebras das cidades.

"O direito à memória é outra coisa. É o direito a vivências e experiências pessoais que constituíram a subjetividade [de indivíduos], e que eles têm que lembrar e serem respeitados por isso", explicou. Segundo Boaventura de Sousa Santos, a verdade histórica existe para essas pessoas, mas a subjetividade dessa memória permite apenas o seu conhecimento, jamais sua transmissão. "A verdade para eles está inscrita nos seus corpos, no seu sofrimento. Essa memória é intransmissiva porque as dimensões do sofrimento nunca se pode transmitir, mas pode ser reconhecida." O silenciamento, neste caso, também "torna impronunciável a revolta".

No dia em que mais um bueiro explode no centro do Rio de Janeiro, entre tantos mais que irão explodir, como resultado de um progresso improvável e sua lógica imoral, vê-se o quanto essa fala é coerente, já que há muito os direitos às vivências sociais na cidade foram suprimidos, não apenas neste caso, mas de forma coextensiva ao caso dos três prédios que ruíram no centro da cidade maravilhosa, com seus vinte e tantos mortos, e mais aquele, e outro e tantos mais na contabilidade perversa do descaso, da indiferença? Pinheirinho, em São Paulo, com as centenas de famílias arrancadas de suas frágeis residências, que apenas por cinismo político da municipalidade deviam considerar como lar. Mas aqui se pode desconstruir Boaventura, nesse caso a memória de sofrimento se transmite biologicamente aos seus descendentes, pela permanente falta de acesso, ampliada centenas de vezes, elevada ao cubo. Uma conta que os governos não assumem e se negam a pagar e que promove o desespero sempre renovado – Em nossas casas grudadas umas às outras, temos menos medo (Gaston Bachelard) – até quando?

Juliete Oliveira

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012


Boaventura de Sousa Santos no Fórum Social Mundial/2012
Se o papel da crise é apontar a necessidade de refletir, o discurso sobre a crise deve ultrapassar sua própria constatação, sob pena de ser apenas um apelo sem eco, sem ressonância e, ao contrário, acabar por afirmar que não há saída; ou seja: imobilizar o próprio movimento crísico. Esta saída não é a solução ou a utopia, mas aquilo que é vital para a existência em seu devir, que é primeiro continuar vivo existindo. Para além da vontade asfixiante de uma democracia de classes, que preserva o que há de mais grotesco e desumano em nome do conforto de meia dúzia de bem nascidos!

sábado, 21 de janeiro de 2012


                                                 a haroldo de campos, sem poder ir mais longe


chegou a hora


você & ele sabiam – últimos a saber talvez
livros não dizem nem cartomantes gregas
agamenon ou ésquilo não deram prova
sinal realmente claro – pista ou rasura
lacrado em sigilo todo destino
o tempo rigorosíssimo omitiu
saber é preparar-se pro engano
viver: areia transe rastro exílio

ney ferraz paiva
imagem: agnnes donnadieu

domingo, 15 de janeiro de 2012

Biutiful – um outro nome para a beleza

por Ney Ferraz Paiva

Bertolt Brecht, em “Aquele que diz sim, aquele que diz não”, argumenta, na introdução da peça, provocador como sempre: “O mais importante de tudo é aprender a estar de acordo. Muitos dizem sim, mas sem estar de acordo. Muitos não são consultados, e muitos estão de acordo com o erro. Por isso: O mais importante de tudo é aprender a estar de acordo...” Na verdade, o personagem de Brecht quer dizer que nada pior que estar de acordo, nada pior que balançar a cabeça e se acomodar. Não ser intercessor entre os que pensam e falam. Vivemos em boa parte das ocasiões e situações esse contexto de engolfamento e esvaziamento. Sobretudo por uma característica que nos uni, estarmos todos praticamente exilados nas cidades modernas, qualquer uma. Aí as pessoas se matam, seja na província de Salzburgo de Thomas Bernhard, seja na Salgueiro de Raimundo Carrero, sertão central nordestino. A cidade é uma máquina perversa com seus grupos familiares, amigos,  vizinhos, e suas leis e regras infames. Mesmo a vida subterrânea e clandestina em Barcelona. Porque agora não se  está de volta a um poema de João Cabral, idos de 1950, em plena e farta modernidade urbana, mas a um filme recente de Yñárritu,  “Biutful”, em que o lugar da individualidade, da singularidao qde em face ao crescimento da pressão social em todos os cantos do mundo contemporâneo é mais que asfixiante e nada celebratória. “Papai, como se escreve biutiful?” São 20:10 de uma noite suspensa e superficial , uma noite qualquer que se perderia não fosse o afeto, porque ali  o tempo é outro como  é outra a língua. O pai tenta arrumar o cabelo da filha. Sabe-se o que acontece quando as mulheres arrumam o cabelo. Mas ali, nos escombros daquela noite quase impossível, nada acontece. Pai e filhos são aspirados pela conformidade de esvtar num lugar que não pode ser casa nem lar para eles. Pouco importa se imaginem comer juntos o menu improvável das praças de alimentação dos grandes shoppings. Se ao saírem pela manhã – ele para o “trabalho” e os filhos para a escola, nada acontecerá, que para eles nada está reservado, a não ser o verniz da indiferença no centro da metrópole. Nada lhes assegura nada. Nenhum evento ou rotina é capaz de arremessa-los para dentro da realidade regulada pelos mecanismos do capital. Assim dissuadidos, nenhum está, sequer tecnicamente, uma vez que ilegais, sob a proteção do Estado. Diga-se: de nenhum de seus mecanismos de proteção. Amanhecer ali à volta do bairro, na remota periferia, é desenterrar-se para logo em seguida sucumbir de vez. Senegaleses, chineses, mexicanos. Da rua para a cadeia e daí para a deportação. Ou: do galpão para o “trabalho” ilegal e daí para a morte. Não há saída, diz-se de novo. Yñárritu grita. Como na “Primeira Elegia de Duíno”, de Rilke: “Quem, se eu gritasse, me ouviria pois entre as ordens dos anjos? E dado mesmo que me tomasse um deles de repente em seu coração, eu sucumbiria ante sua existência mais forte. Pois o belo não é senão o início do terrível, que já a custo suportamos, e o admiramos tanto porque ele tranquilamente desdenha destruir-nos.” Sequer um Mundo Espiritual, uma mitologia, uma esperança – quem sabe o vínculo tênue da poesia com um mundo bárbaro, sinistro, obscuro, onde a palavra “biutiful”, suas redes e circuitos se conectem e se combinem com certa pronúncia ou sotaque, e a beleza volte a ter nome, um certo nome que não seja uma máquina de produzir vazio. E mais do que aprender a estar de acordo, possa se soletrar o ruído do mar, temer as coisas que vivem ali embaixo. E saber que quando as corujas morrem sai uma bola de pelo de seu bico...

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

AQUELE RIO SEM PLUMAS

[Minha família não era rica], era uma família tradicional. Não tive infância luxuosa. Aqueles luxos que certos escritores atribuem ao engenho devem ter sido no princípio da Colônia. Nenhum dos engenhos de meu pai tinha luz elétrica, de modo que, quando começava a escurecer, as empregadas punham todos os candeeiros sobre a mesa, iam acendendo um por um e levando para diferentes cantos para pendurar. Eu fiquei no engenho do Poço do Aleixo antes de me alfabetizar. Então meu pai foi morar no Recife, e nós tínhamos uma professora, a dona Natália, para mim e meu irmão. Depois que nós estávamos suficientemente alfabetizados, entramos para o Colégio Marista. A gente passou a ir ao engenho apenas nas férias. Nessa época, os empregados compravam os folhetos e levavam para eu ler. Eu ficava sentado num carro de boi velho e todos ficavam em volta, sentados no chão, ouvindo.

João Cabral de Melo Neto


João Cabral sai de uma esfera familiar tradiconal de Pernambuco, uma esfera pacata, empobrecida, sem ligações com as classes dominantes do estado e do Nordeste. Menino de engenho como quase todos os demais, daí atravessa para o mundo da escrita e da leitura. Penso mesmo que João Cabral teve entre os poetas modernos um dos mais intensos relacionamentos com a leitura, a grande leitura - tentar achar os grandes autores, ao passo que escrevia a grande poesia de que foi capaz. Autor não por acaso de um dos mais fascinantes poemas escrito em nossa língua, "O cão sem plumas". A que todos devíamos amar e conhecer. Políticos, professores, alunos, educadores ambiental, engenheiros de todas as marcas e utilidades, garis, lavadeiras, jornalistas, médicos, jogadores de futebol, amantes, aventureiros, namorados, porteiros, policiais, motoristas, empregadas doméstica. Um teste de selação a qualquer coisa, emprego, por exemplo, era saber de cor um trecho do poema. Ter a rua João Cabral de Melo Neto bem na beira do imponente rio da cidade. E no sertão, a rua da praça principal, onde se escutaria nas missas o poema reunir o povo. "O cão sem plumas" é o Nordeste com uma das menores expectativas de vida do mundo, 27 anos. Menos ainda que a Índia, Bangladesh, Haiti. É esse o dado inaugural do poema escrito em Barcelona em 1950. O estômago sem vida do Nordeste. É a esse Nordeste que João Cabral retorna quase que num tratado social. Um Nordeste que o impressiona porque está dentro dele desde sempre, nunca apartado pelos outros temas - para que não perdesse tudo ao desprender-se do que já possuía. Grande lição de coisa aos nordestinos. Lufadas de vento morno, ardente. Tantas são as coisas definitivamente nossas das que não se pode abrir mão, presas e atadas ao corpo, tatuadas na memória. A cidade, o caminho, o rio...

Aquele rio
está na memória
como um cão vivo
dentro de uma sala.
Como um cão vivo
dentro de um bolso.
Como um cão vivo
debaixo dos lençóis,
debaixo da camisa,
da pele.
 
Ney Ferraz Paiva & Juliete Oliveira
imagem: Maryana Carvalho, Rio São Francisco, Cabrobó-PE

terça-feira, 6 de dezembro de 2011


De qualquer maneira, o poder é um engodo, a verdade é um engodo. Tudo está no atalho fulgurante onde se encerra um ciclo inteiro de acumulação, ou um ciclo de poder, ou um ciclo de verdade. Nunca de inversão, nem de subversão: o ciclo deve se completar. Mas pode completar-se instantaneamente. É a morte que está em jogo neste atalho.
Jean Baudrillard

Por quem os sinos dobram? Por quem chora Fafá de Belém? Ninguém acredite que se trate de um testemunho pungente que não diferencie e até mesmo estigmatize os habitantes do sul do Pará e futuro estado do Carajás. Quando Donne escreveu “Meditações”, colocou a sua verve a serviço da indignação de ver irmãos massacrar irmãos. Foi um lamento a que o mundo se referiu a partir de então pela potência do relato. Quando Fafá de Belém chora o que está em jogo é a imprevisível partilha de poder, jamais outra coisa, que sempre se deu no território paraense; e ela o faz munida da mesma mesquinharia característica daqueles aos quais sempre interessou manter a condição feudal do estado e que de imediato resulta no abandono das regiões que pelteiam a divisão.

Nenhuma eficácia há no choro da nobre senhora, por conseguinte ele perpetua-nos a um histórico em que milhares de pessoas mantêm-se desprovidas de dignidade e, portanto desse choro não poderá resultar sequer os afagos midiáticos e publicitários estimados pelos marqueteiros de plantão. Se escorresse uma lágrima sequer de reivindicação em seus gemidos, outra não seria a da integração, da manutenção do poder e dos privilégios de uma política de exclusão. Não se trata de outorgar uma partilha, é claro, isso arruinaria o sistema estabelecido, que repousa, como se sabe, na superexploração de todos, seja de que quadrante for. Daí que Fafá, como Jesus (este por outros motivos), chorou. Certamente que os sinos da basílica de Nazaré, não dobram, nem nunca dobraram pela população do sul e sudeste do Pará e que Fafá de Belém não chorou pelas vidas que são desperdiçadas, amesquinhadas nessa região pela mais absoluta ausência de atuação política. Região a que já se chamou de “almoxarifado do estado”. Um estado que se faz representar apenas para receber no fim do mês os seus honorários, ainda que sempre falte: saúde, educação, segurança pública, estradas, moradia, condições de vida, justiça, enfim. Não percamos tempo com litanias estéreis ou mimetismos nauseabundos.

Dividir o território talvez seja a única objetividade fluente em defesa das populações de todo o Pará, a se possibilitar aos dois extremos a estrutura social, os equipamentos e serviços a que se pode ansiar e pretender. Já que há décadas, que em nome de uma suposta manutenção do território, vem se asfixiando a quase totalidade deste. Todos sabem, e não é preciso acrescentar o “fantasma” dos dados disto que significa manter atrelado ao estado estas terras – sabe-se que vale muito aos parlamentares sediados em Belém, sobretudo pela impressionante “reserva” eleitoral, os eleitores expostos nas mesas de negociação; os milhares de hectares a se repartir entre os pares e ainda os recursos naturais (leia-se recurso como unidade monetária, moeda de troca) em condições de preservação que poderão garantir ao Pará a manutenção de seu posto como unidade representativa da Amazônia, um dos maiores invernistas de boi (Vida de gado!).

Significa sobretudo a manutenção de um estado de exceção, pela ineficácia, incompetência e descaso do poder público, da fome, da violência e da morte, já que sabemos que um território nunca é homogêneo e desde já ultrapassado na mais segura fronteira, e que por ele transitam e se deixam ficar cada vez mais populações subjugadas; uns tantos que adquiriram uma oscilante independência econômica, mas sempre minoritária, a arruinar os mais próximos; outros, bem poucos, que se organizam e se revoltam e intentam conquistar a soberania, a justiça, um tanto da alegria de viver, simplesmente... Onde as velhas e emperradas oligarquias cessem (inclusive seu choro e lamento) e se possa começar a começar...


Juliete Oliveira