Biutiful – um outro nome para a beleza
por Ney Ferraz Paiva
Bertolt Brecht, em “Aquele que diz sim, aquele que diz não”, argumenta, na introdução da peça, provocador como sempre: “O mais importante de tudo é aprender a estar de acordo. Muitos dizem sim, mas sem estar de acordo. Muitos não são consultados, e muitos estão de acordo com o erro. Por isso: O mais importante de tudo é aprender a estar de acordo...” Na verdade, o personagem de Brecht quer dizer que nada pior que estar de acordo, nada pior que balançar a cabeça e se acomodar. Não ser intercessor entre os que pensam e falam. Vivemos em boa parte das ocasiões e situações esse contexto de engolfamento e esvaziamento. Sobretudo por uma característica que nos uni, estarmos todos praticamente exilados nas cidades modernas, qualquer uma. Aí as pessoas se matam, seja na província de Salzburgo de Thomas Bernhard, seja na Salgueiro de Raimundo Carrero, sertão central nordestino. A cidade é uma máquina perversa com seus grupos familiares, amigos, vizinhos, e suas leis e regras infames. Mesmo a vida subterrânea e clandestina em Barcelona. Porque agora não se está de volta a um poema de João Cabral, idos de 1950, em plena e farta modernidade urbana, mas a um filme recente de Yñárritu, “Biutful”, em que o lugar da individualidade, da singularidao qde em face ao crescimento da pressão social em todos os cantos do mundo contemporâneo é mais que asfixiante e nada celebratória. “Papai, como se escreve biutiful?” São 20:10 de uma noite suspensa e superficial , uma noite qualquer que se perderia não fosse o afeto, porque ali o tempo é outro como é outra a língua. O pai tenta arrumar o cabelo da filha. Sabe-se o que acontece quando as mulheres arrumam o cabelo. Mas ali, nos escombros daquela noite quase impossível, nada acontece. Pai e filhos são aspirados pela conformidade de esvtar num lugar que não pode ser casa nem lar para eles. Pouco importa se imaginem comer juntos o menu improvável das praças de alimentação dos grandes shoppings. Se ao saírem pela manhã – ele para o “trabalho” e os filhos para a escola, nada acontecerá, que para eles nada está reservado, a não ser o verniz da indiferença no centro da metrópole. Nada lhes assegura nada. Nenhum evento ou rotina é capaz de arremessa-los para dentro da realidade regulada pelos mecanismos do capital. Assim dissuadidos, nenhum está, sequer tecnicamente, uma vez que ilegais, sob a proteção do Estado. Diga-se: de nenhum de seus mecanismos de proteção. Amanhecer ali à volta do bairro, na remota periferia, é desenterrar-se para logo em seguida sucumbir de vez. Senegaleses, chineses, mexicanos. Da rua para a cadeia e daí para a deportação. Ou: do galpão para o “trabalho” ilegal e daí para a morte. Não há saída, diz-se de novo. Yñárritu grita. Como na “Primeira Elegia de Duíno”, de Rilke: “Quem, se eu gritasse, me ouviria pois entre as ordens dos anjos? E dado mesmo que me tomasse um deles de repente em seu coração, eu sucumbiria ante sua existência mais forte. Pois o belo não é senão o início do terrível, que já a custo suportamos, e o admiramos tanto porque ele tranquilamente desdenha destruir-nos.” Sequer um Mundo Espiritual, uma mitologia, uma esperança – quem sabe o vínculo tênue da poesia com um mundo bárbaro, sinistro, obscuro, onde a palavra “biutiful”, suas redes e circuitos se conectem e se combinem com certa pronúncia ou sotaque, e a beleza volte a ter nome, um certo nome que não seja uma máquina de produzir vazio. E mais do que aprender a estar de acordo, possa se soletrar o ruído do mar, temer as coisas que vivem ali embaixo. E saber que quando as corujas morrem sai uma bola de pelo de seu bico...
domingo, 15 de janeiro de 2012
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
[Minha família não era rica], era uma família tradicional. Não tive infância luxuosa. Aqueles luxos que certos escritores atribuem ao engenho devem ter sido no princípio da Colônia. Nenhum dos engenhos de meu pai tinha luz elétrica, de modo que, quando começava a escurecer, as empregadas punham todos os candeeiros sobre a mesa, iam acendendo um por um e levando para diferentes cantos para pendurar. Eu fiquei no engenho do Poço do Aleixo antes de me alfabetizar. Então meu pai foi morar no Recife, e nós tínhamos uma professora, a dona Natália, para mim e meu irmão. Depois que nós estávamos suficientemente alfabetizados, entramos para o Colégio Marista. A gente passou a ir ao engenho apenas nas férias. Nessa época, os empregados compravam os folhetos e levavam para eu ler. Eu ficava sentado num carro de boi velho e todos ficavam em volta, sentados no chão, ouvindo.
João Cabral de Melo Neto
João Cabral sai de uma esfera familiar tradiconal de Pernambuco, uma esfera pacata, empobrecida, sem ligações com as classes dominantes do estado e do Nordeste. Menino de engenho como quase todos os demais, daí atravessa para o mundo da escrita e da leitura. Penso mesmo que João Cabral teve entre os poetas modernos um dos mais intensos relacionamentos com a leitura, a grande leitura - tentar achar os grandes autores, ao passo que escrevia a grande poesia de que foi capaz. Autor não por acaso de um dos mais fascinantes poemas escrito em nossa língua, "O cão sem plumas". A que todos devíamos amar e conhecer. Políticos, professores, alunos, educadores ambiental, engenheiros de todas as marcas e utilidades, garis, lavadeiras, jornalistas, médicos, jogadores de futebol, amantes, aventureiros, namorados, porteiros, policiais, motoristas, empregadas doméstica. Um teste de selação a qualquer coisa, emprego, por exemplo, era saber de cor um trecho do poema. Ter a rua João Cabral de Melo Neto bem na beira do imponente rio da cidade. E no sertão, a rua da praça principal, onde se escutaria nas missas o poema reunir o povo. "O cão sem plumas" é o Nordeste com uma das menores expectativas de vida do mundo, 27 anos. Menos ainda que a Índia, Bangladesh, Haiti. É esse o dado inaugural do poema escrito em Barcelona em 1950. O estômago sem vida do Nordeste. É a esse Nordeste que João Cabral retorna quase que num tratado social. Um Nordeste que o impressiona porque está dentro dele desde sempre, nunca apartado pelos outros temas - para que não perdesse tudo ao desprender-se do que já possuía. Grande lição de coisa aos nordestinos. Lufadas de vento morno, ardente. Tantas são as coisas definitivamente nossas das que não se pode abrir mão, presas e atadas ao corpo, tatuadas na memória. A cidade, o caminho, o rio...
Aquele rio
está na memória
como um cão vivoestá na memória
dentro de uma sala.
Como um cão vivo
dentro de um bolso.
Como um cão vivo
debaixo dos lençóis,
debaixo da camisa,
da pele.
Ney Ferraz Paiva & Juliete Oliveira
imagem: Maryana Carvalho, Rio São Francisco, Cabrobó-PE
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
De qualquer maneira, o poder é um engodo, a verdade é um engodo. Tudo está no atalho fulgurante onde se encerra um ciclo inteiro de acumulação, ou um ciclo de poder, ou um ciclo de verdade. Nunca de inversão, nem de subversão: o ciclo deve se completar. Mas pode completar-se instantaneamente. É a morte que está em jogo neste atalho.
Nenhuma eficácia há no choro da nobre senhora, por conseguinte ele perpetua-nos a um histórico em que milhares de pessoas mantêm-se desprovidas de dignidade e, portanto desse choro não poderá resultar sequer os afagos midiáticos e publicitários estimados pelos marqueteiros de plantão. Se escorresse uma lágrima sequer de reivindicação em seus gemidos, outra não seria a da integração, da manutenção do poder e dos privilégios de uma política de exclusão. Não se trata de outorgar uma partilha, é claro, isso arruinaria o sistema estabelecido, que repousa, como se sabe, na superexploração de todos, seja de que quadrante for. Daí que Fafá, como Jesus (este por outros motivos), chorou. Certamente que os sinos da basílica de Nazaré, não dobram, nem nunca dobraram pela população do sul e sudeste do Pará e que Fafá de Belém não chorou pelas vidas que são desperdiçadas, amesquinhadas nessa região pela mais absoluta ausência de atuação política. Região a que já se chamou de “almoxarifado do estado”. Um estado que se faz representar apenas para receber no fim do mês os seus honorários, ainda que sempre falte: saúde, educação, segurança pública, estradas, moradia, condições de vida, justiça, enfim. Não percamos tempo com litanias estéreis ou mimetismos nauseabundos.
Jean Baudrillard
Por quem os sinos dobram? Por quem chora Fafá de Belém? Ninguém acredite que se trate de um testemunho pungente que não diferencie e até mesmo estigmatize os habitantes do sul do Pará e futuro estado do Carajás. Quando Donne escreveu “Meditações”, colocou a sua verve a serviço da indignação de ver irmãos massacrar irmãos. Foi um lamento a que o mundo se referiu a partir de então pela potência do relato. Quando Fafá de Belém chora o que está em jogo é a imprevisível partilha de poder, jamais outra coisa, que sempre se deu no território paraense; e ela o faz munida da mesma mesquinharia característica daqueles aos quais sempre interessou manter a condição feudal do estado e que de imediato resulta no abandono das regiões que pelteiam a divisão.
Nenhuma eficácia há no choro da nobre senhora, por conseguinte ele perpetua-nos a um histórico em que milhares de pessoas mantêm-se desprovidas de dignidade e, portanto desse choro não poderá resultar sequer os afagos midiáticos e publicitários estimados pelos marqueteiros de plantão. Se escorresse uma lágrima sequer de reivindicação em seus gemidos, outra não seria a da integração, da manutenção do poder e dos privilégios de uma política de exclusão. Não se trata de outorgar uma partilha, é claro, isso arruinaria o sistema estabelecido, que repousa, como se sabe, na superexploração de todos, seja de que quadrante for. Daí que Fafá, como Jesus (este por outros motivos), chorou. Certamente que os sinos da basílica de Nazaré, não dobram, nem nunca dobraram pela população do sul e sudeste do Pará e que Fafá de Belém não chorou pelas vidas que são desperdiçadas, amesquinhadas nessa região pela mais absoluta ausência de atuação política. Região a que já se chamou de “almoxarifado do estado”. Um estado que se faz representar apenas para receber no fim do mês os seus honorários, ainda que sempre falte: saúde, educação, segurança pública, estradas, moradia, condições de vida, justiça, enfim. Não percamos tempo com litanias estéreis ou mimetismos nauseabundos.
Dividir o território talvez seja a única objetividade fluente em defesa das populações de todo o Pará, a se possibilitar aos dois extremos a estrutura social, os equipamentos e serviços a que se pode ansiar e pretender. Já que há décadas, que em nome de uma suposta manutenção do território, vem se asfixiando a quase totalidade deste. Todos sabem, e não é preciso acrescentar o “fantasma” dos dados disto que significa manter atrelado ao estado estas terras – sabe-se que vale muito aos parlamentares sediados em Belém, sobretudo pela impressionante “reserva” eleitoral, os eleitores expostos nas mesas de negociação; os milhares de hectares a se repartir entre os pares e ainda os recursos naturais (leia-se recurso como unidade monetária, moeda de troca) em condições de preservação que poderão garantir ao Pará a manutenção de seu posto como unidade representativa da Amazônia, um dos maiores invernistas de boi (Vida de gado!).
Significa sobretudo a manutenção de um estado de exceção, pela ineficácia, incompetência e descaso do poder público, da fome, da violência e da morte, já que sabemos que um território nunca é homogêneo e desde já ultrapassado na mais segura fronteira, e que por ele transitam e se deixam ficar cada vez mais populações subjugadas; uns tantos que adquiriram uma oscilante independência econômica, mas sempre minoritária, a arruinar os mais próximos; outros, bem poucos, que se organizam e se revoltam e intentam conquistar a soberania, a justiça, um tanto da alegria de viver, simplesmente... Onde as velhas e emperradas oligarquias cessem (inclusive seu choro e lamento) e se possa começar a começar...
Juliete Oliveira
Juliete Oliveira
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
JOÃO PRIMO, irmão, amigo, companheiro
... Clandestino, enterrei teu corpo.
Na cova minúscula – e livre – do meu poema
Teu nome aceso no vermelho, latejando,
Fazendo nascer a manhã sob as pedras.
(Gelson de Oliveira)
O município de Altamira, no Pará, é o maior do mundo em extensão territorial. Localiza-se na maior reserva de biodiversidade do mundo, a floresta amazônica. A região será impactada por um dos maiores empreendimentos hidroelétricos do mundo, a usina de Belo Monte. Em números absolutos tudo ali é gigantesco! É gigantesca também a injustiça social que devora a vida no estado do Pará. Sete são os palmos da terra enlutada pelas centenas de trabalhadores rurais assassinados no estado - só este ano, sete é a soma desses corpos. “Esta cova em que estás, com palmos medida/É a conta menor que tiraste em vida” (João Cabral). Para os movimentos de luta pela terra e pela biodiversidade a questão ultrapassa os coeficientes numéricos: ao longo dos últimos 40 anos se perdeu, inexoravelmente se perdeu: lideranças, oportunidades, justiça social e energia humana.
Na semana passada foram julgados os dois últimos assassinos de uma chacina ocorrida há 26 anos, em São João do Araguaia. Essa soma de anos eu a multiplico pelo assombro de ter visto as fotos dos corpos, inclusive de crianças, durante um encontro de jovens ocorrido um anos depois em Marabá. Na época a chacina foi denunciada com um número maior de mortos do que o divulgado pela polícia militar - e as fotos confirmavam a visão terrível. Ainda bem jovem, muita coisa eu não compreendia, contudo a injustiça e a impunidade impostas à região pelos idos de 1985 fez-me desenhar uma trajetória de inconformismo e um senso de justiça que me conduzem até hoje. Em “Breve Meditação sobre um Retrato de Che Guevara" Saramago diz: “Che Guevara é só o outro nome do que há de mais justo e digno no espírito humano. O que tantas vezes vive adormecido dentro de nós. O que devemos acordar para conhecer e conhecer-nos, para acrescentar o passo humilde de cada um ao caminho de todos”.
João Primo, irmão, amigo, companheiro da terra, assassinado no último sábado em Miritutuba, município de Itaituba-PA, era mais um defensor da natureza que alinhava seus passos e ações ao pensamento moderno do coletivo, do sustentável, do ecológico (no sentido mental e ambiental) na Amazônia. Seu nome agora se soma aos que no passado e no presente honram a mesma bandeira: Gabriel Pimenta, Chico Mendes, Paulo Fonteles, Família Canuto, Manuel Gago, Brás, Expedito, Dorothy, os 19 da fazenda Macaxeira, José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo. Mortos por conta do descaso e omissão do poder público. A luta pela terra na Amazônia deixa ainda rastros de sangue por tantos caminhos. São os passos ativos da coragem, da ousadia, das ações em defesa da comunidade, do território, da justiça e da vida. E eles prosseguem.
Juliete Oliveira
Salgueiro – PE, 31 de outubro de 2011
imagem: Ricardo Rezende
imagem: Ricardo Rezende
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
CAI MAIS UM MINISTRO EM BARRELA, A REPÚBLICA SUJA
PACO – (bem nervoso) Eu não roubei! Eu não roubei! Eu não roubei! (começa a chorar) Não roubei! Porra, nunca fui ladrão! Nunca roubei nada! Juro! Juro! Juro que não roubei! Juro!
Plínio Marcos, Dois perdidos numa noite suja
PACO – (bem nervoso) Eu não roubei! Eu não roubei! Eu não roubei! (começa a chorar) Não roubei! Porra, nunca fui ladrão! Nunca roubei nada! Juro! Juro! Juro que não roubei! Juro!
Plínio Marcos, Dois perdidos numa noite suja
Ministro do Esporte desde maio de 2006, quem não lembra da tapioca comprada por Orlando Silva com cartão do governo - o episódio chegou a ser mencionado na CPI dos Cartões Corporativos. Só agora o ministro recebe cartão vermelho por roubo de dinheiro público.
Diga-se de passagem, essa antiga modalidade de esporte, meter a mão no dinheiro público, é a que terá maior número de atletas duranate as preparações da copa de 2014: ministros, governadores, secretários, prefeitos, partidos, banqueiros, empresários - todos muito dedicados e habituados à prática do jogo sujo!!!
Em toda essa situação, uma ou duas questões ficam bem evidentes: os partidos são os "donos" dos Ministérios. É através deles que os apoios e ajudas de campanha são saldados à juros altíssimos pagos pela população. Todo partido de olho nos milhões de reais de cada Ministério. E não tem puta pobre nesse rolo.
Aldo Rebelo, que até outro dia se desdobrava para atuar na defesa e aprovação de "seu" Código Florestal, é na verdade, político polivalente e de dotes "excepcionalmente" atléticos na relação entre o fazer, o ser, o ver e o dizer. Logo, longe está do PCdoB e do próprio Aldo a falsidade e o caráter pernicioso da indicação e do que se propõe com o "novo" nome ilibado a que rapidinho se chegou.
Que todo político da República de Barrela é duplo, não é novidade. Todos senpre muito dispostos a fazer duas coisas ao mesmo tempo. É próprio da "natureza" dos políticos de Barrela. Você nunca sabe do que são capazes - sabe que são capazes de tudo.
Em certo sentido, isso diz tudo: em Barrela só se é político pela impossibilidade de se fazer outra coisa. Ele sabe que ficará "encarcerado" em Brasília, a capital federal de Barrela, mesmo assim aceita o martírio. Transitando entre a Esplanada e o apezinho básico das superquadras, ele se manterá ocupado aí até o fim do mandato.
A grande cena pública da política de Barrela é o político ser pêgo com a mão na butija. Ele sabe que essa nunca será uma cena comum. Terá tempo para explicar-se, e se sua atuação não convencer, jamais será preso, jamais terá que devolver um único centavo. Sai no lucro e disposto e cotado a outro cargo.
Em Barrela - ninguém mais nocivo, periculoso e desprovido de alma. Até a alma negociam. Mas reparem, com licitação. Em Barrela nada é mais sério, cívico e civilizado que a burocracia. Aldo Rebelo tem tudo para "bater" um bolão...
Ney Ferraz Paiva
Ney Ferraz Paiva
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
Expedito em busca de outros nortes
Gloria Regina Amaral
Uma obra sobre poesia e luta, é assim que se pode definir o filme Expedito em busca de outros nortes, dirigido por Aída Marques e Beto Novaes. É a história de Expedito Ribeiro de Souza, um brasileiro de Minas Gerais que, como muitos outros, saiu de sua cidade em busca de terra e trabalho. O filme conta, através da história de vida e morte deste poeta trabalhador, uma parte da história do país que não é ensinada nas escolas.
Ainda no governo militar, na década de 70, Expedito trabalhava em Goiás quando ouviu no rádio a promessa de reforma agrária na Amazônia. Uma população composta de pessoas das mais diversas origens e com diferentes intenções, movidas pela necessidade ou pela ambição, se deslocou para o sudeste do Pará. Expedito foi, com parte da família, tentar a vida lá... Poesia, trabalho e luta social, não necessariamente nesta ordem, eram o motor da vida de Expedito, que chegou a Presidente do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Rio Maria substituindo João Canuto, que fora assassinado em 1985. Segundo Beto Novaes, um dos diretores do filme, Expedito participou do congresso de fundação do Departamento Nacional de Trabalhadores Rurais da CUT, em outubro de 1990, quando denunciou as ameaças que vinha sofrendo. Em seu discurso Expedito anunciava a própria morte que viria a se concretizar em fevereiro de 1991.
Expedito em busca de outros nortes resgata a vida, a luta e a morte desse poeta, mas também a sua poesia... Na voz de ninguém menos que Chico Buarque alguns poemas seus são declamados no filme, que teve sua pré-estréia no Rio de Janeiro, no dia 23 de julho e também já foi apresentado no Espírito Santo, para os parentes de Expedito, e em Rio Maria, onde ele militava.
Os diretores foram convidados a pré-lançar o filme no Rio como parte de uma programação de eventos que aconteceram na cidade por ocasião do 13º aniversário da Chacina da Candelária. A organização do evento levou 100 familiares de pessoas vitimadas pela violência da polícia e do crime organizado e 200 estudantes de cursos pré-vestibulares para carentes para assistirem a exibição do filme. Houve um debate com a participação de uma sobrinha de Expedito, Maria Pereira, fundadora do Sindicato das Empregadas Domésticas do Estado do Espírito Santo. O público geral também teve acesso à sessão.
Segundo Beto Novaes a intenção é de que o filme ocupe não apenas as salas de exibição de cinemas, mas também salas de aulas nas escolas e universidades para que os estudantes brasileiros conheçam, através da história de Expedito, um pouco da verdadeira história dos conflitos e assassinatos que ocorrem ainda hoje na região amazônica. Para tanto será lançado também um DVD que, além do filme, trará os discursos de Expedito no Congresso de fundação do Departamento Nacional de Trabalhadores Rurais da CUT e também músicas da região do Araguaia, apresentadas por artistas do Centro de Cultura de Conceição do Araguaia que teve Expedito como um de seus fundadores.
Gloria Regina Amaral
terça-feira, 5 de julho de 2011
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"E não sou mulher?" ("Ain't I A Woman?")
Discurso feito de improviso pela ex-escrava Sojourner Truth. Pouco depois de conquistar a liberdade em 1827, tornou-se uma conhecida oradora abolicionista. O discurso foi proferido na Women's Convention em Akron, Ohio, em 1851.
Trecho:
“Bem, crianças, onde há muita confusão deve haver algo de errado. Penso que entre os negros do Sul e as mulheres do Norte, todos falando sobre direitos, os homens brancos vão muito em breve ficar num aperto. Mas sobre o que todos aqui estão falando?
Aquele homem ali diz que as mulheres precisam ser ajudadas a entrar em carruagens, e erguidas para passar sobre valas e ter os melhores lugares em todas as partes. Ninguém nunca me ajudou a entrar em carruagens, a passar por cima de poças de lama ou me deu qualquer bom lugar! E não sou mulher? Olhem pra mim! Olhem pro meu braço! Tenho arado e plantado, e juntado em celeiros, e nenhum homem poderia me liderar! E não sou uma mulher? Posso trabalhar tanto quanto e comer tanto quanto um homem - quando consigo o que comer - e aguentar o chicote também! E não sou uma mulher? Dei à luz treze filhos, e vi a grande maioria ser vendida para a escravidão, e quando eu chorei com minha dor de mãe, ninguém, a não ser Jesus me ouviu! E não sou mulher?...”
Sirvo-me do discurso ainda atual e coerrente de Sojourner para pensar os últimos números da violência contra a mulher no Estado mais populoso e rico do Brasil, São Paulo. Com base nas estatísticas de 11 fóruns regionais, uma pesquisa inédita mapeou pela primeira vez os índices de violência doméstica contra a mulher na cidade. O mapeamento revela a explosão de registros como se fosse este a amplidão dos avanços de serviços especializados para afalta de saúde da mulher, sua fragilidade e futilidade, seu corpo sempre a um passo de ser levado para a cama, seja para tratamentos médicos ou para o sexo - disto e para isto a mulher, bem dita e desdita mulher na sociedade comunicacional, sempre a se valer das pesquisas e estatísticas para se governar melhor o ingovernável. Eexemplo é o Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, primeira vara especializada criada há dois anos, no Fórum da Barra Funda. Quando o serviço iniciou, eram 49 casos. A vara fechou 2010 com 2.522 inquéritos e processos em andamento.
Contudo, nada disso cala fundo no imaginário coletivo, são apenas dados estatísticos e cálculos operacionais, deixam de ser avaliados como realidade num instante, e eis que vem outros e mais outros dados de tudo qe se nos furta e nos fica pior, e só temos a nos servir da imagem-televisão, a imagem-vídeo, a numérica, a síntese, as imagens sem negativo e, portanto também sem negatividade ou referência. Elas são virtuais – é Jean Baudrillard a nos dizer –, e o virtual é o que termina com toda negatividade, logo com toda referência à história ou ao acontecimento.
Não é a vida real, é uma telenovela sempre a apresentar novas cenas de uma mesma desgraça cotidiana. Um dia é Aline, no outro, Alice, Eloá, Eliza, Mônica, Sabrina, Vera, Vanessa, tantos nomes - se se tratasse só de nomes. Trata-se, antes, de um mesmo destino torpe: assassinadas, agredidas, subjugadas. A cada 2 minutos, 5 mulheres são espancadas no Brasil. A sociedade sequestra a si mesma ao manipular nossas mazelas na telinha, sequestra gerações inteiras que absorvem avidamente essa ficção/real e essa ficção travestida de informação – e acaba que temos todos a mesma responsabilidade que aqueles que a fomentam. Ou melhor, não há responsabilidade em parte algum. A questão da responsabilidade nem mesmo pode ser colocada.
Mas talvez nem tudo esteja perdido. Uma vez mais é o comunicacional da sociedade a nos advertir. Rejubilemos. A Fundação Perseu Abramo, num trabalho divulgado recentemente, aponta frágeis alterações numéricas para as diferenças sociais entre homens e mulheres no Brasil, a exemplo do trabalho “Percepção de ser mulher: machismo e feminismo”, entre os anos de 2000 e 2010, em que consta: Tanto mulheres como homens apontam o espaço público como locus das “principais diferenças entre homens e mulheres nos dias de hoje”, ressaltando as desigualdades no mercado de trabalho (de oportunidades e salários) e o machismo socialmente disseminado. Apenas uma em cada cinco mulheres (20%) e cerca de um em cada quatro homens (27%) não vê diferenças entre homens e mulheres.
Contudo, o dia a dia é perverso. As mulheres experimentam toda a sorte de preconceitos. Se decide não casar, é solteirona, encalhada; se casa e tem filhos não pode passar de dois, quando ultrapassa essa “cota” é vista como irresponsável, desajustada; se trabalha fora de casa é negligente com os filhos. No cenário profissional em uma disputa entre homens e mulheres por cargos, funções ou promoções a mulher sempre perde, ela desempenha as mesmas funções, quase sempre tendo que agregar outras, ainda assim ganha menos. Reza, reza, faz tabelinha, e por vezes nem pode gozar de tanta preocupação - tudo para não engravidar, uma vez que a licença maternidade é extremamente mal vista nas empresas.
Sojourner Truth, em sua simplicidade tinha razão, por vezes é melhor fingir não ser mulher, ou mesmo, se transvestir em pedra!
Juliete Oliveira, Salgueiro-PE, 05.07.2011
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