sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Lavoura de muitas covas, tão cobiçada?

"A colheita é geral, o capinar é sozinho"
João Guimarães Rosa


Segundo Eisenstein, o primeiro movimento vai da imagem ao pensamento, do preceito ao conceito. A imagem-movimento (célula) é essencialmente múltipla e divisível, conforme os objetos, que são suas partes integrantes e entre os quais ela se estabelece. É exato esse movimento que se introduz quando se visualiza a região amazônica. Sim falo dela como de uma região pela consciência que tenho das partes que a constituem. Nascer e crescer no estado do Pará, o segundo maior em extensão territorial do Brasil, pode ser um privilégio ou um sofrimento, no meu caso, encaro como responsabilidade e oportunidade para falar de afeto, troca, coletividade, intensidade, experimentação, desterritorialização.

Foi esse exercício de sair, viajar, deixar o território que me possibilitou as armas visuais e conceituais para reforçar a amizade em detrimento da fraternidade pelo Pará e em extensão pela Amazônia. Pois, esse modo de relacionamento inventa a alteridade e se distancia do fraterno que, por sua vez, implica num processo de homogeneização, suprimindo as diferenças e não permitindo a fusão antropofágica das singularidades – revela-se uma força exterminadora do indivíduo. E nesse ponto empreenderemos curso para falar de algo pouco discutido quando se fala na Amazônia. O povo, a população – considerada apenas como densidade demográfica. O que pensa essa parte da paisagem sobre tanta singularidade?

Viver em um território alvo de cobiça, as mais variadas, não é algo acalentador. Ser considerado responsável por uma das maiores riquezas de biodiversidade da terra, não é algo corriqueiro. Viver dentro do pulmão, fígado, estômago e intestino dos outros é algo que sufoca. Possuir uma das maiores bacias hidrográficas do planeta – água doce, potável, pode ser asfixiante, matar de sede. Ser acusado pelo mundo de grilagem, pistolagem, biopirataria e os cambaus, o tempo todo é desafiador. Ser visto como alguém incapaz de cuidar do próprio quintal é amesquinhador.

Esse efeito dinâmico das imagens que recorrem desse território atravessa o mundo, gera polêmicas, pelo simples fato que, além de a Amazônia ser responsável em parte pelo “equilíbrio” da terra ela, também é um enorme “celeiro”, uma quase inesgotável fonte de recursos naturais, e quando o que está em jogo é o metal – ouro, ferro, manganês, agora industrializados pelas inúmeras siderúrgicas que povoam Marabá/PA, o que menos importa são os laços de amizade. Foi assim quando o então governador do Pará, Almir Gabriel, mandou desobstruir a rodovia PA-150, levando para o local 155 policiais militares – nenhum possuía identificação durante o ato, o que resultou na morte de 19 sem terra. Ora, sem terra?

De quem é a Terra? No Pará a terra não é definitivamente de quem mora nela! Ela é do latifúndio. Talvez soe anacrônico esse adjetivo, mas é assim. No Pará a terra é de quem tem bala, não na agulha, mas no cano do três oitão, como dizem por lá. No Pará a terra é da União – devoluta. Quando ouço esse termo meus ouvidos voltam-se aos anos oitenta: o Pará era área de segurança nacional e a palavra “posseiro” era proibida, falada quase num sussurro. E então a imagem que a expressão DEVOLUTA sucitava, é exatamente a que o trocadilho aponta sem nenhuma conotação poética – “devo o luto”. O luto de tantas mulheres, mães, filhas, esposas, viúvas. E ainda: no Pará hoje a terra é do gado, da soja, da exploração da madeira – não se deixem enganar pelos números de desmatamento reduzido, recém publicado. O que se saberá a partir desses números (tantas vezes maquiados) sobre os trabalhadores do transporte da madeira? E este é apenas um dos inúmeros itens da ilegalidade que o Estado promove na Amazônia. Esses homens cortam centenas de quilômetros floresta adentro para recolher toras de madeira. E eles, o que sabem do potencial de biomassa e do seqüestro de carbono existente ali? E ainda: da quantidade de fármacos existentes nas tenras folhas das árvores e nos arbustos amazônicos? Números imprecisos e anônimos que mais embotam do que elucidam e que a floresta engole e regurgita.

No Pará o IDH é pelo menos 20% abaixo do estabelecido pelos organismos internacionais. O índice de analfabetismo é singular, a criminalidade altíssima. E o fosso que separa riqueza e pobreza é mais fundo. As estradas tantas vezes asfaltadas – no papel e nos orçamentos, não levam às belas cidades, ao paraíso que se difunde. Levam, ao contrário, à mais descaso, abandono, falência pública, pobreza. Isso tudo não é como um filme de Godard, Salve-se quem puder (a vida), quando se aborda a visão dos agonizantes (“não estou morto, pois minha vida não passou ante meus olhos”)? Nesse caso seria preciso seguir a direção contrária. Dilatar a imagem em vez de contrair. Descrer dos números e escutar, escutar as vozes de uma outra configuração que os povos da floresta propõem ao mundo: o uso coletivo, ecológico, afetivo, imanente, ativo das riquezas da Amazônia.

Juliete Oliveira
Salgueiro-PE

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Destruição dos rios: ameaça é crescente


Por Lúcio Flávio Pinto*

Desde as primeiras letras aprendemos que a bacia do rio Amazonas é a maior do mundo. Ninguém nunca duvidou que ele era o mais caudaloso do planeta, mas se questionava essa primazia quanto ao seu comprimento. Hoje a controvérsia está esclarecida: com 6.937 quilômetros de extensão, o Amazonas supera em 140 quilômetros o Nilo, que perdeu essa liderança multissecular.

Qualquer número em relação ao "rio-mar" (ou o "mar doce" dos espanhóis, os primeiros europeus a navegá-lo) é grandioso. Ele lança, em média, 170 milhões de litros de água por segundo no Oceano Atlântico. Suas águas barrentas podem avançar 100 quilômetros além da barreira de águas salgadas e projetar seus sedimentos em suspensão no rumo norte, até o litoral da Flórida, nos Estados Unidos. São milhões de toneladas de nutrientes, arrastados desde a cordilheira dos Andes, onde nasce o grande rio, e engrossados por seus afluentes, que também se posicionam entre os maiores cursos d’água que existem.

Essas grandezas têm servido de inspiração para o ufanismo nacional, mas não para tratar melhor os nossos gigantes aquáticos. Nenhum brasileiro -ou mesmo o nativo- dá ao Amazonas a importância que os egípcios conferem ao Nilo. O Egito não existiria sem a faina incansável do seu grande rio, a fertilizar suas margens, cercadas por desertos hostis, e civilizar o país. Por isso, é considerado sagrado.

Os brasileiros parecem acreditar que, por ser monumental, abrangendo 7 milhões de quilômetros quadrados do continente sul-americano (quase dois terços em território brasileiro), a bacia amazônica foi blindada pela mãe natureza contra as hostilidades do homem. Já está na hora de se pôr fim a essa ilusão, acabando com a insensibilidade geral, que se alimenta do desconhecimento e da desinformação. O Amazonas está sob ameaça.

Não uma, mas várias. Um dos capítulos mais recentes está sendo travado diante da maior cidade da Amazônia, Manaus, a capital do Estado do Amazonas, com seus 1,7 milhão de habitantes (2 milhões com as duas cidades vizinhas). No dia 5, o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) decretou o tombamento do encontro das águas do Amazonas com o Negro, um dos seus principais tributários da margem esquerda.

O desavisado pode até achar que o ato é de significado museológico, para efeito acadêmico. O processo do tombamento, porém, se arrastou durante dois anos. Deveria ser simples: a área de 30 quilômetros quadrados, o polígono de terra e água onde ocorre a junção dos dois enormes rios, é cenário para o maior de todos se encontrar com o maior rio de águas negras do mundo. Na margem direita, o barrento Solimões pressiona o rio ao lado, que ganhou seu nome pela inusitada cor das suas águas, num entrevero que pode se estender por 10 quilômetros lineares nas duas direções.

É um encontro ciclópico. A vazão do Solimões nesse ponto (onde justamente muda pela última vez de nome, passando a ser Amazonas) é de 135 milhões de litros de água por segundo. A do Negro, que chega ao fim do seu percurso de 1.700 quilômetros, a partir da Venezuela, é de 50 milhões de litros. Encorpado, o Amazonas segue em frente até a foz, dois mil quilômetros abaixo. Não sem antes oferecer o espetáculo das duas cores líquidas em paralelo ou em fusão tumultuada, para a admiração ou o espanto de uma crescente legião de turistas.

O problema é que no ponto de encontro dos rios está Manaus, com 60% da população e 90% da riqueza de todo Estado do Amazonas, o maior do Brasil, com 20% do território nacional. Desde quase meio século atrás, Manaus deixou de ser o produto do Amazonas para ser o efeito da Zona Franca, um entreposto comercial e um núcleo industrial que só se tornaram possíveis pela renúncia da União a recolher o imposto sobre a importação das empresas instaladas na remota paragem.

Hoje, Manaus é a origem do maior fluxo de contêineres do país. Motocicletas, computadores, geladeiras e muitos outros produtos são mandados para o sul do país, principalmente São Paulo, e espalhados para outros destinos. O velho porto flutuante, que os ingleses construíram no início do século XX para atender a exportação de borracha (que chegou a ser responsável por 40% do comércio exterior brasileiro), não serve para essa demanda nova.

A pressão é tão forte que alguns terminais privados, legais ou não, surgiram na orla da cidade. O maior deles, o Porto Chibatão, foi parcialmente arrastado, no mês passado, pelas águas do Negro, a apenas três quilômetros do seu encontro com o Amazonas, com mortes e a perda de diversos contêineres. Qualquer ribeirinho sabia que o local era contra-indicado para o fluxo de carga que o precário terminal movimentava.

Um novo, muito maior e mais adequado, está sendo projetado para uma área de 100 mil metros quadrados, na qual poderão ser estocados 250 mil contêineres. Antes desse mega-terminal, porém, uma subsidiária da mineradora Vale (o nome privatizado da Companhia Vale do Rio Doce, quando estatal) começou a construir seu próprio porto, com investimento de 220 milhões de reais. Nele deverá operar seu novo navio cargueiro, com capacidade para 1.500 contêineres, e outros cinco já encomendados, por algo como meio bilhão de reais, multiplicando sua capacidade de transporte.

Esses números pareciam muito mais importantes do que a localização do porto, na província paleontológica das Lages, próximo de uma tomada de água para 300 mil habitantes da cidade e de um lago, o último do rio Negro, importante para milhares de moradores de um bairro que se formou em torno dele.

O processo que levou ao desmoronamento do Porto Chibatão seguiria sua lógica malsã se não tivesse surgido a iniciativa de tombar o encontro das águas. Ninguém se aventura a dizer-se contra o tombamento, mas ele provocou uma batalha judicial que chegou a Brasília, com vitórias e derrotas, protelações e pressões, até que, no dia 5, finalmente o Iphan assumiu a tutela sobre o encontro das águas.

Qualquer novo projeto que a partir de agora se fixe na área do polígono terá de ser submetido ao instituto, além de obter a licença ambiental. Certamente haverá quem se indigne com o fato: o raciocínio automático é de que a razão (ou anti-razão) econômica prevaleça sobre qualquer outro tipo de consideração - e sempre com vantagens para o investidor.

A decisão do Iphan, que ainda vai sofrer questionamento judicial, não bloqueia a evolução dos empreendimentos produtivos na região, mas talvez ajude o país a se dar conta de que destruindo os recursos naturais, em especial aqueles que representam uma grandeza única, é a Amazônia que estão destruindo. Substituem a galinha dos ovos de ouro por um cavalo de Tróia. Na mitologia ou na realidade, sabemos qual será o desfecho.

*Jornalista paraense. Publica o Jornal Pessoal (JP)

(Envolverde/Adital)

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Um comediante mid


Um comediante midiático



As máquinas desejantes são máquinas binárias, de regra binária ou regime associativo; uma máquina está sempre ligada a outra. A síntese produtiva, a produção de produção, tem uma forma conectiva: «El», «e depois»... É que há sempre uma máquina produtora de um fluxo e uma outra que se lhe une, realizando um corte, uma extração de fluxos (o seio/a boca). (Gilles Deleuze e Félix Guattari, O anti-édipo - capitalismo e esquizofrenia).

Lendo o texto de Ladislau Dowbor, publicado na revista eletrônica “Envolverde” a 25/10/2010, fui tocada por uma irresistível vontade de me enredar nas impressões expostas no texto e por uma daquelas coincidências impagáveis, havia tecido o seguinte comentário sobre a figura que abre o texto de Ladislau: Arnaldo Jabor. Discorri em torno da aparente unanimidade que o jornalista desfruta entre os pseudo-mídiaticos informados, aqueles que utilizam da ferramenta mais democrática que temos em mão (não é do voto que estou falando, mas de uma verdadeira máquina de guerra) – para se tornarem cada vez menos informados, ou deformados.



Arnaldo Jabor sempre a serviço do capital com um discurso disfarçado de dissonante, algo que leva ao riso, à ridicularização de temas muitas vezes relevantes, bloqueando com isso o debate, a reverberação e mobilização social em torno de temas caros à democracia. Contudo, o que poderia dizer Jabor desse “seio/boca” pensado por Deleuze/Guattari? E quem melhor alimentou as máquinas desejantes produtoras de fluxos? Junto com a resposta quase automática nós podemos pensar o Brasil como um enorme seio, belo e provocador, que deverá nos alimentar (não só aos bem nascidos, as tantas elites deste país) de todas as formas: doméstica, intelectual/científica, cultural, afetiva, artística, para o jogo, o prazer o deleite, a felicidade.


Não tivemos em muitos anos de estado democrático algo nem perto do que acontece hoje, em que a “palavra liberdade foi expulsa do pântano enganoso das bocas”, para se transformar em “algo transparente e vivo como o fogo, ou um rio”. E o que nos fornece essa liberdade? E aí penso não apenas na liberdade verborrágica, mas em algo ainda mais correlato, como a garantia do direito de ir e vir, o direito de ter acesso, o direito de trabalhar e não apenas trabalhar como um escravo da vontade e do poder do outro, mas trabalhar sob um sistema que garanta direitos fundamentais, como auxílio doença, creche, transporte etc.


Querendo ou não, foi sob esse governo que tivemos a aprovação da Lei Maria da Penha, a instituição da Secretaria Nacional de Igualdade Racial, a expansão dos auxílios aos estudantes, as Conferências de meio ambiente, de cultura, de segurança pública, de saúde, de educação e até do livro e biblioteca. Nesse governo de Luis Inácio Lula da Silva nos sentimos livres, debatemos, pensamos, tivemos apoio para criar. Aconteceu de termos ministros negro, acreano e, claro, ficamos sujeitos aos cortes de fluxos, aos enganos, à corrupção – prática defendida e aceita de forma corriqueira pela justiça, já que para crimes de colarinho branco não há punição. Para a sociedade resta se virar e compreender que a síntese produtiva se faz também dos desacertos e dos atos falhos. É o que teme Jabor?


A ele o espaço midiático para singelas teorizações. Cada um faz o que pode, embora se possa reparar de soslaio quem o contrata e a quem ele defende. Agora, sem essa de tentar colocar o país no divã, arranjar a todos essa culpa: ter votado no Lula. Ser o pai desrespeitado a nos passar um carão. E nos provar, num tortuoso comentário, que Lula é apenas um caso de dissidência das políticas do PSDB, com as quais aliciou a todos nós tanto quanto Édipo ainda é capaz de levar no papo as virgens sonhadoras. Lula chegou a 82% de aceitação isto graças aos serviços de FHC – quais mesmo estes serviços e a quem ele prestou? O que se sabe, ou melhor, o que a sociedade não quer mais rever (e que talvez tenha reduzido de vez nos créditos o nome desse senhor a uma sigla, enquanto Lula acrescentou mais este a seu emblemático nome) são os velhos capítulos de um dramalhão político, já que os avanços sociais protagonizados pelo governo Lula não admitem levantar audiência com reprises, quando muito, resgatar incautos saudosistas ou desatentos, que podem ver em Serra, dado a um tal efeito técnico, o personagem de uma boa anedota. Essa que Jabor não cessa de contar.


Juliete Oliveira

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

DAS COISAS QUE SE ARREMESSAM NOS POLÍTICOS

Esta é a fase do espetáculo em que o público, não aguentando mais o ator, começa a arremessar toda sorte de objetos, por vezes até dejetos, em cima dele. Significa que não há reviravoltas possíveis, nem atos de heroísmo nem de pura covardia, nada resgatará o espetáculo de seu final pífio. O Político, talvez até mais do que o artista, adora palcos, e também tribunas, palanques, plataformas. Por mais desagradável que seja o cenário, por mais grotesco que seja o enredo, aí ele encena o melhor dos mundos. Apenas a alguns centímetros do chão, ele se acredita numa torre de marfim. Refugiado da carência, fraqueza, impotência diante da vida. Sobem com ele aí toda burocracia e jurisdição. Juntos falam melhor do progresso social e econômico que promovem. Dos grandes avanços da Indústria e do Mercado. Das notáveis contribuições do Partido na grande cidade que governam. Daí para o resto do país, sobre o palco, anuncia-se a melhor das escolas, não porque indivíduos mais educados tornam-se mais produtivos, mas porque o público “sonha” com essa escola. Ela vai bater á sua porta todas as manhãs e todas as noites que o filho sair para estudar sem saber se ele voltará vivo. Todos humilhados aí nesse pesadelo em que também é incerto toda sorte de direito: saúde, emprego, comida. Infelizmente o “respeitável” público não tem como passar sem isso. Daí que todas essas coisas não deixam de ser implacavelmente anunciadas, recapituladas, de punhos erguidos, como maravilhas de um mundo iminente, com a condição, é verdade, de serem mais uma vez repetidas amanhã, como forma de reativar os ânimos e dissuadir os pessimistas. Vida e bem-estar social só se opõem do ponto de vista dos políticos. Para eles se está sempre nas etapas antecedentes do desenvolvimento. O melhor dos mundos nunca é efetivo. Se crianças ainda morrem de fome no Norte e Nordeste, se o tráfico de drogas domina cidades inteiras, se não há médico, remédio, salário, vergonha na cara – eles brandem tudo isso, porque tudo está prestes a melhorar... Enquanto nada acontece, eles se distraem com o grande público. Riem da corrupção, da ineficiência, dos altos impostos. Pelas mesmas razões estúpidas a que sempre recorrem, conclamam o público a votar. Tudo a um passo de acontecer. A escola, a saúde, o emprego, a comida. Só que por um descuido, uma falha da produção do espetáculo, ou talvez animado pelas pesquisas ou pelas benesses delirantes do cargo que disputa, ou ainda, por amor ao bom público, um deles desce do palco e, longe dos holofotes, com passos que se revelam trôpegos, se põe a andar entre as pessoas; e ali, de súbito, tudo começa a dar errado: a tentativa de proximidade não surte efeito, os gestos resultam falsos, e todos começam a perceber os signos de um triste desenlace. Que o enredo é falho, a fala é de um clown e a maquiagem esconde a face de um ator ruim. O público se depara com um espetáculo que já deu, se esgotou, saturou a todos. A esse ator só resta fugir, partir pra outra. É a fase do espetáculo em que o público começa a arremessar toda sorte de objetos... Assunto encerrado, cortina!


Ney Ferraz Paiva
Salgueiro - PE 22 de outubro 2010

sábado, 16 de outubro de 2010

Se os homens engravidassem, o aborto seria um sacramento. (Florynce Kennedy, advogada e feminista americana, revista Ms., Março 1973).
Ao ser questionada por um amigo português sobre as eleições no Brasil, no primeiro dia após o primeiro turno, disse-lhe que a minha candidata infelizmente não conseguiu votos suficientes que a levassem ao segundo turno, ele por sua vez, perguntou-me qual era, pois, a minha opção para o segundo turno. Respondi que a outra candidata que permanecia na disputa, por duas razões: primeiro por ser mulher e segundo, por ser a continuidade do governo atual. Ele se disse surpreso, por eu tão naturalmente verbalizar isso. Disse-me que em Portugal a questão da violência contra a mulher é uma rotina, é colocada como algo aceito e pouco ou quase nada discutido.


Temos no Brasil uma equivalência entre homens e mulheres, e em alguns casos uma superioridade de números em relação à mulher: já temos hoje, um número maior para elas nas universidades, no ensino médio, a ocupar algumas áreas do mercado de trabalho como é o caso da educação, e ainda, em alguns estados e municípios o número de eleitores dividido por gênero, o maior é para o sexo feminino.


Em compensação, ou melhor, operando na contramão temos: Em dez anos, dez mulheres foram assassinadas por dia no Brasil, média que fica acima do padrão internacional. A motivação geralmente é passional. Estes são alguns dos resultados do estudo intitulado Mapa da Violência no Brasil 2010, realizado pelo Instituto Sangari, com base no banco de dados do Sistema Único de Saúde (DataSUS).


Esses não são os únicos números a ilustrar o mapa da barbárie no Brasil. Há ainda uma considerável perda de vidas femininas por razões outras, como é o caso do aborto, que virou a vedete das campanhas eleitorais, tanto da situação, quanto da oposição. Ora vejamos uma questão que diz respeito unicamente à mulher e o seu corpo é colocada na berlinda como algo responsável por decidir a vida da nação. O que está implicado nisto são as condições dada à mulher para que ela tome essa decisão, cabe à gestão pública garantir condições a ela para que no caso de decidir por levar a gravidez ou não à diante, o faça com segurança.


Até que ponto é possível se fazer uma leitura de seriedade diante destes fatos? Os nobres candidatados perdem uma oportunidade impar de mostrar inteligência, conhecimento e de se solidificar como alguém sério e realmente comprometido com a gestão pública, entornam o caldo ao se envolverem com questões religiosas e de cunho machista, nesse caso nenhum dos dois estão defendendo as mulheres, não estão pensando em nenhum momento na segurança e bem estar do grupo, estão apenas se aliando ao que existe de mais atrasado e preconceituoso nesse país.


Luta-se hoje pelas mulheres no poder político, nos lugares de tomada de decisão por ser necessário usufruir de poder para mudar o que está em desequilíbrio, ou tão só porque as mulheres existem e têm o direito de lá estar. Com os homens, em paridade. A democracia paritária parte desta assunção. Quem aí viu algum dos candidatos lembrarem os números da violência contra a mulher? Ou ainda recordar, mesmo que a título de lembrança que estamos completando um século de luta pelos direitos femininos?


“Eu tô grávida / Grávida de um beija-flor / Grávida de terra / De um liquidificador / E vou parir / Um terremoto, uma bomba, uma cor / Uma locomotiva a vapor / Um corredor... “ (Analdo Antunes).


Juliete Oliveira
imagem: Francesca Woodman
Salgueiro/PE

sábado, 18 de setembro de 2010

A vida nos livros

(de uma conversa com Kafka, Borges, Deleuze, Guattari)

                                                                                                                  
  Ao Lúcio Flávio Pinto


Os caminhos que encontro na página busco preenchê-los polifonicamente com Borges, que em nossa última conversa confessou: “certa vez planejei um exame dos precursores de Kafka. A princípio, considerei tão singular quanto à fênix dos elogios retóricos; depois de alguma intimidade, pensei reconhecer sua voz, ou seus hábitos, em textos de diversas literaturas e de diversas épocas”.

Assim penso reconhecer as diversas vozes dos meus pares, assombra-me, no entanto, que estas não cheguem aos livros. Em uma intensidade movediça a Odisséia registra que “os deuses tecem desgraças para que às futuras gerações não falte o que cantar”. Mallarmé trinta séculos depois concebe algo parecido para justificar a estatística dos males: o mundo existe para chegar aos livros.

Tudo isso tem a ver com o diálogo que se persegue aqui, para aquarelar uma sociedade que aviltou todas as propriedades e todos os valores: seus nomes, suas casas, suas famílias, origens natalinas e finalmente as suas crenças, algo como uma bastardia voluntária, não só desprezível, mas, muito além de qualquer justificativa e sempre, absolutamente sem chance de redenção. Nenhuma poesia a poderá isentar.

O que providenciamos agora em matéria de sociedade é paradoxalmente contrário à vida, um jogo infame das identidades e das semelhanças, disfarçado em discurso protecionista. Há muito rompemos qualquer parentesco com as coisas.

A despeito de uma existência pautada no global temos uma visão reduzida das coisas, inclusive da nossa bio-região, que seria nossa bandeira de lugar, nosso chão, em termos dos elementos naturais que em última instância nos sustenta, seja lá onde quer que estejamos. Nessa mesma conversa com Borges, após um charuto, ele revelou “que desde 1925, não há publicista que não opine que o fato inevitável e trivial de ter nascido num determinado país e de pertencer a uma determinada raça (ou uma boa mistura de raças) não seja um privilégio e um singular talismã.” Salutar meu caro Borges! Toda esfigênica questão ambiental padece desse sentimento de pertencimento territorial, regionalista em uma fórmula que, no entanto, sutilmente a deprecia e desvirtua.

O mais poderoso slogan das campanhas de apelo à proteção/conservação ambiental prefigura, inclusive, na Lei regimental e em espetacular antagonismo tem a ver com o início dessa conversa: “preservar para as futuras gerações”, em uma perversa previsão. A questão está esgotada de discursos. Prevalece nesta a costura interna, sombria. O que está na sombra é difícil de matar! Quem escreve porque pode escrever – não tem o Poder como seu adversário, nada sabe disso. Toma de assombro, assalta a opinião pública e apresenta página após página um texto pronto em que consta apenas uma versão dos fatos e claro buscando sempre a garantia da lei. É Lei, e pronto!

Borges, pergunto agora usando Deleuze, será que as pessoas criam, tiram de si suas idéias? Quando tentam a revolução, são loucos que querem acabar com a velha maneira de ver o mundo, uma subjetividade que pairava por sobre as suas cabeças e que os produzia, e que os tornava tão submissos a ideais que desde muito causam morte e mais morte… Acreditava-se em um socialismo sim, alguns mesmo se intitulavam de “Anarcos-desejantes”; os rótulos, sempre um aqui, ali. E Guattari completava: “Não conseguimos a revolução, mas ela está em curso, de outra maneira”.

O que será então que nos acontece? Que faz com que até mesmo os expoentes da política no Brasil sejam Senhores e Senhoras que não têm nenhuma compreensão do papel das pequenas máquinas de guerra? Desejo, Beleza, Alegria, Companheirismo? Que não têm a menor idéia de que esse conjunto é uma grande máquina de produção de subjetividades, que trabalha com conceitos muito diversos dos que estão habituados: o espírito de coletividade, a organização horizontal, a autogestão, conceitos de extrema potência para uma transformação social. Diferente de ter hectares e hectares com um único solitário proprietário de algo que poderá ser um deserto, logo mais, próximo a outros desertos. Podemos dizer que as pequenas máquinas fazem uma guerrilha subjetiva, combatendo a subjetividade do deserto particular que paira sobre os nossos pés. Nesse momento eu consigo entender o que é subjetividade, me parece que é toda uma forma de pensar e viver que aprendemos desde os nossos primeiros passos no mundo. E sobre as máquinas… tudo é máquina, Borges!
Ao que Borges retruca: “já somos o esquecimento que seremos.
A poeira elementar que nos ignora”. Até mesmo quem acha que é maior que todos, ou que tem importância, ou que chegou primeiro. E que por isso se encastelou no seu lucro e na sua loucura de Poder. Poeira. Deserto. Ainda este passará.

Salgueiro/PE, 18 de setembro de 2010

Juliete Oliveira
Imagem: Louise Bourgeois

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Abissal
O Estado do Pará reúne em seu território grandezas excludentes. Uma das maiores riquezas do mundo em minério e, por fazer parte da Amazônia, ainda a espantosa diversidade biológica, e possivelmente a mais bela capital da região e um acervo histórico áureo. Na outra vertente, entre calmaria e indiferença, maior índice de concentração de renda, analfabetismo crescente, pobreza vertiginosa e criminalidade, vergonhosos números de prostituição infantil, tudo perfazendo uma projeção de futuro digna dos cenários mais sórdidos da terra.

O discípulo de Parmênides, Zenão, demonstra – em um de seus diálogos – que se um “múltiplo” existisse, ele teria de ser constituído de infinitas pequenezas, o que, por consequência, resultaria em um extremamente grande, pois consistiria em infinitas pequenezas. Assim também se convertem os números do Pará. O total de meninas/meninos entregues ao universo numérico da estatística da prostituição e marginalidade é composto por infinitas pequenezas cotidianas, adquiridas via a sucessão histórica de abandono e descaso de um estado omisso e que promove a morte em lugar da vida. Sartre em sua incomensurável clareza de visão argumentou algo que se tornou, já até, meio vulgar: “a pior coisa do mundo é nos acostumarmos a ele”.

É esse o grande feito dos meios de comunicação de “massa” para o povo brasileiro, fazer com que nos acostumemos com o mundo. Pode-lhes soar lugar comum argumentar isso, agora. Contudo, somos incitados pela recente transmissão do pretensioso “Jornal Nacional”, transmitido direto da Cidade de Jacundá, no Estado do Pará. O que lhes pareceu aquilo? Será que essa iniciativa vai render mais um prêmio jornalístico à mega emissora de televisão? Quem de nós se perguntou quais são os reais objetivos da rede com a sua marcopoliana viagem pelo país que eles laconicamente dizem não conhecer?

Alguns de nós, até se perguntaram, sei. Mas, quantos de nós em nossa pequenez fomos capazes de usar os números apresentados ali, para algo que não seja escrever um texto para um blog?

O múltiplo pensado por Parmênides até existe, contudo é uma diversidade dantesca, feia, aterrorizante que empurra a juventude, sobretudo a do sul do Pará, para o desperdício de sua potência e energia. A vida como condutora dos prazeres, micropolíticas, cartografias desejantes, em que a ordem e o mesmo do gênero e da identidade, pensados por Felix Guattari, é um processo suspenso, delegado ao improvável. Cada vez mais e ad infinitun inalcançável pelos “cidadãos” de Jacundá. As meninas que hoje emprestam sua tenra carne ao saciamento do prazer do outro, por alguns trocados, ou prato de comida, serão, logo mais, mães a não ter o que deixar a seus filhos a não ser a trágica experiência e as falhas de um Édipo familiar que teima em passar bem.
E em face do que não podemos “sozinhos” solucionar, caímos no conformismo e lançamos tudo na conta do destino. A Rede Globo agindo como consciência e última fronteira das nossas tristezas. Até quando a audiência se multiplicará em um fracasso mais profundo? E do fracasso aparente fazer dar um passo à frente?

Juliete Oliveira